Escócia e Inglaterra: séculos de uma relação tumultuada

A premier britânica, Theresa May (d), conversa com a colega da Escócia, Nicola Sturgeon, em um hotel de Glasgow

A Escócia, uma das quatro nações que integram o Reino Unido, manteve uma intensa relação de amor e ódio com sua grande e dominante vizinha do sul, Inglaterra.

A Escócia tem um terço do território do Reino Unido - também integrado por Gales e Irlanda do Norte - e 8,4% de sua população de 65 milhões de habitantes.

Os mais de 300 anos de união entre a Escócia e a Inglaterra - desde o Tratado da União de 1707 - voltarão a passar por outro teste com a provável aprovação, nesta terça-feira no Parlamento escocês, da demanda de um novo referendo de secessão.

No anterior, em setembro de 2014, a permanência no Reino Unido ganhou por 55% a 45%.

- Origens históricas -

No ano 122 a.C., os romanos iniciaram a construção da Muralha de Adriano, da qual sobrevivem partes, para delimitar a fronteira norte do Império romano e que, mais ou menos, dividia ingleses e escoceses.

Ameaçados pela dominação escandinava, os pictos e os escoceses se uniram sob Kenneth MacAlpin, considerado o primeiro rei dos escoceses, que morreu em 858.

Mas quando a sucessão de sua dinastia se converteu em alvo de disputa, o rei da Inglaterra, Edward I, foi convidado para mediar, e acabou reivindicando a coroa e invadindo a Escócia em 1296, sendo batizado de "Martelo dos escoceses".

As guerras de independência escocesas se prolongaram até 1357, embora o rei Robert the Bruce tenha restabelecido de fato a independência com sua vitória sobre as forças inglesas em Bannockburn em 1314.

- União das coroas -

O Tratado de Paz Perpétua de 1502, assinado pelo rei James IV da Escócia e Henry VII da Inglaterra, buscava colocar fim às periódicas guerras anglo-escocesas, e incluía o casamento entre James e uma filha de Henry, Margaret.

Desta forma foram estabelecidas as bases da União das coroas de 1603, quando o bisneto do casal, James VI da Escócia, herdou a coroa inglesa da rainha Elizabeth I.

Os dois países permaneceram separados por mais de um século, até que a Escócia definhou, praticamente em falência por sua tentativa desastrosa de criar seu próprio império criando uma colônia no Panamá.

Em 1707 foi assinado o Tratado da União entre Escócia e Inglaterra, que já incluía Gales, e que levou ao nascimento da Grã-Bretanha.

- Diferenças -

A Escócia de hoje em dia segue reivindicando suas raízes célticas e o inglês convive com o escocês e o gaélico escocês.

Também mantém sua bandeira - a Cruz de Santo André, evangelizador e padroeiro da Escócia - e seu próprio hino.

Cada região/nação do Reino Unido, incluindo a Escócia, tem suas próprias ligas esportivas e seleções nacionais, uma exceção internacional.

Embora a Escócia utilize a libra, três bancos escoceses conservaram o privilégio de emitir moeda, e as notas escocesas são diferentes das impressas no sul.

Assim como a Irlanda do Norte, a Escócia tem seu próprio sistema judicial.

Fartos da hegemonia de Westminster, os nacionalistas escoceses fundaram em 1934 o Partido Nacional Escocês (SNP), que hoje governa na região.

Em 1998, a Escócia recuperou um status semiautônomo e seu Parlamento, mas as competências em defesa e política internacional continuam sendo do governo central.

Em 18 de setembro de 2014, 4 milhões de escoceses se pronunciaram em um referendo sobre a independência, rejeitando-a por 55% a 45%.

Já no referendo do Brexit, em 23 de junho de 2016, embora no conjunto do Reino Unido tenha vencido a saída da União Europeia, os escoceses votaram majoritariamente a favor da permanência, abrindo caminho a uma nova demanda para se pronunciar sobre a secessão.