Escadaria Selarón, na Lapa, será palco de homenagens ao seu criador dez anos após sua morte

A cena se repete todos os dias: de segunda a segunda centenas de pessoas se acotovelam para subir e descer os 215 degraus da Escadaria Selarón, na Lapa, Centro do Rio, atrás do melhor clique, da melhor selfie. Logo no começo da subida, uma longa fila se forma para garantir a foto perfeita em meio aos painéis formados por mais de 5 mil peças de cerâmica cuidadosamente organizadas pelo artista plástico chileno, radicado no Rio, Jorge Selarón, cuja morte completa dez anos nesta terça-feira. Para marcar a data, a Liga Independente dos Guias de Turismo do Rio (Liguia) realiza, na manhã desta terça-feira, uma simbólica limpeza técnica do local, além de promover outras homenagens ao criador de uma das mais concorridas atrações turísticas da cidade.

No vaivém da escadaria, batizada informalmente com o nome do artista, é possível ouvir muitas línguas. O local é sucesso entre os turistas estrangeiros. O fluxo de visitantes é tão grande que já houve até quem garantisse que a Escadaria Selarón é a terceira atração mais visitada na cidade, atrás apenas do Pão de Açúcar e do Corcovado.

— É um dos pontos turísticos mais visitados da cidade, com certeza, mas não temos como afirmar em que posição se encontra entre as atrações porque a visitação é aberta, não há controle. Um dos nossos objetivos é criar um mecanismo de contagem com sensor de calor para monitorar o fluxo de pessoas e dimensionar corretamente o número de visitantes — disse o museólogo e guia de turismo Andre Andion Angulo, coordenador do projeto Selarón Pedaços do Mundo criado pela Liguia.

O projeto conseguiu — com participação do BNDES, por meio do edital Patrimônio Cultural+ lançado em 2019 — arrecadar recursos para catalogar todos os 4.994 elementos cerâmicos utilizados por Jorge Selarón em sua obra, entre /os quais azulejos de pelo menos 60 países e de todos os cantos do Brasil, recebidos pelo artista como doação de admiradores e amigos. O acervo pode ser visto em selaronpedacosdomundo.com.br. Há ainda um sem número de azulejos monocromáticos em verde, amarelo e vermelho, dispostos nas paredes da escadaria e que ainda precisam ser devidamente catalogados.

— Decidimos agir porque a verdade é que a escadaria está derretendo. Já tivemos azulejos roubados, depredados e até mesmo muitos azulejos invasores, que nada têm a ver com a obra do Selarón e são colocados ali sem qualquer fiscalização descaracterizando a escadaria. Se ela não for cuidada daqui a pouco não existirá mais. A prefeitura não faz a sua parte corretamente. A ordenação do que acontece lá em termos de visita praticamente não existe. Aquele lugar é um instrumento de trabalho importante dos guias cariocas, por isso resolvemos agir para tentar ajudar a conservá-la da melhor maneira possível — diz o guia de turismo Arnaldo Bichucher, presidente da Liguia.

No entorno da escadaria, além dos bares e restaurantes estabelecidos há barracas vendendo de caipirinhas geladas a guarda-chuvas, de pequenos souvenirs dos pontos turísticos cariocas a vestidos e bonés. Por preços que variam entre R$ 25 e R$ 60 é possível levar uma foto feita na hora impressa em cerâmica.

— Estou achando muito cheio, mas é legal. É um lugar famoso, disseram que eu tinha que vir aqui. Estou gostando, é diferente de outros lugares que já conheci — disse a húngara Krisztina Kerekes, de 34 anos, enquanto aguardava na tal fila para a foto perfeita. A espera pode chegar a meia hora, mas ninguém parece se incomodar com a demora. No caminho é possível identificar vários idiomas em meio ao burburinho. Uma palavra em italiano, alguém que comenta algo em inglês, um casal que conversa em francês. Verdadeira babel. Um idioma estrangeiro, no entanto, se destaca na multidão: o espanhol.

— Fiquei encantado com esse lugar, não apenas a escadaria, mas todo o entorno, é muito típico. Me lembrou um pouco o bairro de Santelmo, em Buenos Aires — disse Marcos Devoto, 59 anos, argentino de Rosário, que visitava a escadaria ao lado da mulher e de três filhos.

NFT e exposição de quadros inéditos

Na programação organizada pela Liguia para marcar os 10 anos de morte de Jorge Selarón, está prevista ainda uma roda de escuta e conversa com a vizinhança da escadaria e o lançamento de uma coleção de NFTs (sigla em inglês para token não fungível) que serão negociados no metaverso da Upland com o objetivo obter recursos para a restauração emergencial da Escadaria, além de outras ações de conservação preventiva do local.

— Quando a gente lançou a cidade do Rio de Janeiro no metaverso a Escadaria Selaron já estava presente, agora nós cedemos os terrenos virtuais que compõe o local para a Liguia, que passa a ser dona. O objetivo é negociar os NFTs e levantar recursos para ajudar na governança e conservação desse ponto turístico tão importante para o Rio. A ideia é que ver o mundo digital impactando no mundo real — disse Ney Neto, diretor-geral da Upland Brasil.

Nascido em Limanche, na região de Valparaíso, no Chile, o artista autodidata viajou por mais de 50 países até decidir viver no Rio de Janeiro. Deu início ao trabalho na escadaria em 1990, na época da Copa do Mundo disputada na Itália. A morte de Jorge Selarón, aos 66 anos, foi cercada de mistério. Seu corpo foi encontrado queimado, ao lado de uma lata de solvente de tinta, na manhã do dia 10 de janeiro de 2013, bem no meio da escadaria que ajudou a tornar famosa.