Escalada da inflação amplia risco de crises políticas na América Latina

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Sociedades empobrecidas pela pandemia vêm sofrendo um golpe econômico fulminante com aumentos de preços que asfixiam — sobretudo em matéria de alimentos e combustíveis — e impulsionam protestos e paralisações contra governos frágeis, sem margem de manobra para reagir. A descrição, feita pelo diretor para a América Latina da consultoria de risco geopolítico Eurasia Group, Daniel Kerner, vale hoje para vários países latino-americanos, mergulhados em crises sociais e políticas que, segundo especialistas, poderiam se espalhar pela região nos próximos tempos.

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No Equador, onde o presidente Guillermo Lasso escapou — pelo menos por enquanto — do risco de destituição, movimentos indígenas paralisaram o país durante 18 dias até que finalmente foi selado, na última quinta-feira, um acordo que prevê, entre outras medidas, a redução do preço dos combustíveis (embora o Equador tenha um dos preços mais baixos do continente).

No Peru, novos protestos foram convocados pelo setor de transportes contra o vulnerável governo de Pedro Castillo, para exigir, também, combustíveis mais baratos. Na Argentina, produtores rurais anunciaram uma greve nacional e manifestações no dia 13 de julho, pelos mesmos motivos e, ainda, a escassez de diesel em várias regiões do país.

— A solução é fazer greve? Vocês estão de brincadeira — respondeu o presidente argentino, Alberto Fernández.

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Governos impopulares (os níveis de aprovação de Fernández, Lasso e Castillo estão abaixo de 30%, atual média da região, de acordo com a Latinobarômeto) não tem condições de resolver uma crise que afeta países de todos os continentes, mas na América Latina, ressalta o diretor do Eurasia Group para a região, ela está causando estragos e ameaçado a sustentabilidade política de presidentes.

— A alta da inflação aprofundou o clima de descontentamento social, com governos enfraquecidos e impopulares. Até mesmo governos novos, como o de Gabriel Boric, no Chile, perdem força rápido. A mesma coisa poderá acontecer com Gustavo Petro, na Colômbia, e com quem vencer no Brasil — aponta Kerner.

O grande desafio no momento, frisou o especialista, é como os sistemas políticos latino-americanos vão conseguir canalizar as demandas cada vez mais abrangentes, exigidas por atores sociais cada vez mais impacientes e, em casos como o do Equador, violentos. Durante os 18 dias de protestos liderados pela Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie) houve ataques a comboios militares, embaixadas, bloqueios de estradas, cobrança de pedágios a quem pretendia circular nas grandes cidades e escassez nos supermercados.

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Violência sem precedentes

O professor e pesquisador Simon Pachano, da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (Flacso), comparou a situação a uma guerra civil.

— O movimento indígena passou a usar a violência de uma maneira que nunca tínhamos visto. Queimaram plantações, cobravam dos agricultores para não destruir produções, uma radicalização que assusta — comenta.

O pesquisador da Flacso observa como preocupante a conjunção de uma situação econômica complicada, na qual para muitas pessoas comprar produtos básicos como óleo de cozinha ficou difícil, e a radicalização dos movimentos indígenas.

— O Equador tem uma das inflações mais baixas da região e aqui produzimos praticamente tudo o que consumimos. Houve rejeição social aos protestos, mas o problema é que também cresce a rejeição ao governo. O cenário é complexo — analisa Pachano.

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No Peru, pelo contrário, a taxa de inflação é hoje a mais alta dos últimos 28 anos e, segundo estimativas, poderia chegar a quase 14% até o fim do ano. O governo Castillo enfrenta protestos nas ruas, uma oposição dura no Parlamento e acaba de romper até mesmo com o partido que levou o presidente ao poder em 2021, o Peru Livre, por divergências internas.

— A América Latina tem sistemas políticos e institucionais frágeis. Em países como o Peru, a instabilidade se instala facilmente, e hoje vemos uma radicalização de movimentos sociais que, entre outros fatores, tem muito a ver com os fracassos da direita para governar — analisa Luis Benavente, diretor da Vox Populi.

No Peru, o aumento de preços traz à memória a hiperinflação que assolou o país no primeiro governo de Alan García (1985-1990). Naquele momento, o flagelo da inflação somou-se a escândalos de corrupção e à ação da guerrilha Sendero Luminoso, uma combinação trágica que levou o renomado sociólogo peruano Julio Cotler a definir os anos 1980 como a década perdida. O desfecho político foi a eleição de Alberto Fujimori, em 1990. Naquele ano, a inflação peruana chegou a 7.649%.

Hoje, muitos como Benavente acham praticamente impossível Castillo completar seus cinco anos de mandato. No Peru, diz o analista, reina uma anarquia política e social.

— Já temos escândalos de corrupção envolvendo pessoas próximas do presidente. Castillo rompeu com seu partido, se distanciou até mesmo do sindicato de professores, onde surgiu como líder social, brigou com a Igreja — explica o diretor do Vox Populi.

‘Sentir-se parte do projeto’

Com este pano de fundo latino-americano, especialistas que monitoram níveis de apoio à democracia estão em estado de alerta. As últimas pesquisas, afirma Sergio García, do Centro Internacional de Estudos Políticos e Sociais (Cieps), no Panamá, apontam 60% de média de respaldo regional à democracia, mas em 2021 as consultas foram por telefone e isso desperta dúvidas entre pesquisadores.

— Em 2018, a última vez que o apoio a regimes democráticos foi medido em entrevistas presenciais, o percentual foi de 50%. O descontentamento com a democracia já existia antes da pandemia e é maior entre os que têm menor acesso a bens e serviços. Esses são os mais desapegados com a democracia e com o sistema de eleições em geral — aponta.

São, justamente, os mais afetados pela pandemia e, agora, pelo golpe econômico da inflação.

— Nossa conclusão é de que este é o momento de recuperar o sistema político mostrando que o Estado funciona e funciona para todos. As pessoas se desapegam dos sistemas democráticos porque sentem que funcionam para poucos. As soluções devem ser coletivas, e todos devem sentir-se parte de um projeto — conclui o pesquisador do Cieps.

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