Escola da rede municipal não vai abrir de qualquer jeito, diz secretário de educação de Covas

ISABELA PALHARES
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Escolas que ainda estiverem em obras, com problemas estruturais ou falta de funcionários não serão abertas em São Paulo no próximo dia 15, segundo o secretário municipal de Educação, Fernando Padula. Em entrevista à Folha de S.Paulo, ele disse que a pasta terá até sexta-feira (12) um levantamento completo de quais unidades estão sem condições adequadas para o retorno presencial. Nesta segunda (8), as aulas foram retomadas na rede estadual paulista, com a reabertura de 64 escolas com obras ainda em andamento. Além de ter registrado a volta do funcionamento em ao menos 49 unidades com número insuficiente de faxineiros e em 177 sem merendeiras. O secretário disse que gostaria de assegurar condições adequadas em todas as escolas, mas diz que, pelo tamanho da rede, com cerca de 1 milhão de alunos e 4.000 escolas, é difícil ter o controle de todas as situações. "A volta às aulas não deve ser uma queda de braço, não temos que abrir escola de qualquer jeito. Se não tiver condições, a orientação da secretaria é para que a unidade permaneça fechada, seja identificado o problema e dado o encaminhamento correto", afirmou. Padula assumiu o cargo há pouco mais de um mês e diz que tem mantido estreito diálogo com professores e sindicatos para entender os medos e inseguranças em relação a volta às aulas. “É natural que tenham insegurança e medo. O processo, de ganhar a confiança das pessoas, vai acontecer aos poucos conforme elas forem vendo e conhecendo os protocolos.” Entre as principais preocupações do município na área da educação estão os 10% de alunos da rede que não conseguiram acompanhar nenhuma atividade letiva no ano passado. Segundo Padula, esses estudantes terão atendimento prioritário no retorno presencial e em outras ações, como a entrega de tablets. PERGUNTA - A prefeitura e as escolas municipais estão preparadas para o retorno das aulas no próximo dia 15? FERNANDO PADULA - A prefeitura vem se preparando há muito tempo. Desde que as escolas fecharam em março, 550 unidades passaram por obras que eram demandadas há muito tempo. Também garantimos a compra de todos os EPI [equipamentos de proteção individual] e transferimos R$ 280 milhões para as escolas fazerem pequenas adaptações necessárias para o retorno. Os professores fizeram dois cursos de formação sobre os protocolos as serem seguidos e contratamos 4.000 professores temporários para atuar presencialmente no lugar daqueles que são do grupo de risco. P. - A rede estadual retomou as aulas nesta segunda, com parte das escolas ainda em obras ou sem condições adequadas. Reabrir as unidades municipais uma semana depois deu tempo para que a prefeitura se organizasse para não ter os mesmo problemas? FP - Tive uma reunião com todas as diretorias de ensino hoje e reforcei o que havia dito na minha primeira semana: escola que não tiver condições não será reaberta. Nesses casos, a gente vai declarar que a escola não pode abrir, dizer o motivo pelo qual não tem condições e dar o encaminhamento correto para o problema. Vamos ter o levantamento completo até sexta-feira. Temos situações diferentes na rede, por exemplo, uma unidade em que a obra não foi finalizada a tempo. Nesse caso, a escola permanecerá fechada. Vamos avisar os pais e dar uma previsão de retorno. Ou podemos tentar atender esses alunos em algum CEU [Centros Educacionais Unificados] da região. A volta às aulas não deve ser uma queda de braço , não temos que abrir escola de qualquer jeito. Se não tiver condições, a orientação da secretaria é para que a unidade permaneça fechada, seja identificado o problema e dado o encaminhamento correto. Gostaria que a gente tivesse todas as escolas prontas, mas ouso a dizer que teremos casos pontuais. P. - Escolas estaduais também abriram com número insuficiente de faxineiros ou sem merendeira. Há o risco dessa situação se repetir na rede municipal? FP - Nós temos uma situação parecida com uma empresa da área de limpeza que faliu. Estamos fazendo todo o esforço possível para que, até o dia 15, essa situação esteja resolvida e haja equipe de limpeza para essas unidades [o secretário não informou o número de escolas que podem ser afetadas]. P. - Mas, se não conseguirmos resolver até o dia 15, vamos ter que adiar um pouquinho a abertura dessas escolas. Não vamos abrir unidades sem equipe de limpeza. Higienização é item básico. Os sindicatos da rede municipal têm mobilizado protestos contra o retorno das aulas presenciais, o senhor teme a possibilidade de greve da categoria? FP - Tenho conversado muito com os professores e identifiquei que há um grupo inseguro sobre a volta e uma minoria politizando a situação. É natural que tenham insegurança e medo. O processo, de ganhar a confiança das pessoas, vai acontecer aos poucos conforme elas forem vendo e conhecendo os protocolos. Eu, sinceramente, acredito e torço para que não haja greve. Os professores estão com vontade de voltar para a sala de aula, de reencontrar seus alunos. Entendo também que é papel do sindicato para se manter vivo tentar puxar uma greve. É legítimo, faz parte da democracia. Mas não acredito que haverá greve. P. - A secretaria fez uma consulta com os pais de alunos da rede municipal sobre o retorno. Qual foi o resultado dessa pesquisa? FP - Na cidade de São Paulo temos uma lei que diz, enquanto durar a pandemia, o retorno dos alunos às aulas presenciais não é obrigatório. Por isso, para que as escolas pudessem organizar a reabertura dentro do limite de atendimento de 35% das matrículas, fizemos essa consulta aos pais. Até o momento, 500 mil famílias responderam, o que representa metade dos nossos alunos. O resultado preliminar mostra 66% dizendo que vai mandar os filhos para a escola, um número que nos deixa muito felizes. A diretriz que demos a todas as escolas é que atendam 100% dos que desejam retornar às atividades presenciais, por isso, devem organizar algum tipo de rodízio aos alunos. As unidades têm autonomia para definir como será essa divisão, mas precisam atender prioritariamente os 10% de alunos que não acessaram nenhum atividade letiva no ano passado, os 20% que acessaram muito pouco e quem teve baixo desempenho na avaliação diagnóstica que aplicamos no fim do ano passado. Quem teve mais dificuldade de acompanhar as aulas no ano passado, terá prioridade e deverá ir mais dias para a escola. P. - A prefeitura é a principal responsável pela oferta do ensino infantil e fundamental no município, que foram as etapas com maior dificuldade de adaptação ao ensino remoto. Ainda assim, o prefeito Bruno Covas (PSDB) demorou mais que o governo estadual para autorizar o retorno. A gestão municipal não deveria ter mais pressa em reabrir as escolas? FP - Do ponto de vista educacional, não há a menor dúvida de que a gente precisa voltar o quanto antes pelas questões de aprendizagem, sociais, emocionais, psicológicas e até nutricionais dos alunos. Mas não é voltar a qualquer preço. Essa não é uma decisão só da área da educação, é antes de tudo da saúde. Não podemos pensar só na educação e correr o risco de ter uma explosão da pandemia. O prefeito sempre disse que não vai diferenciar escola pública de privada e a liberação será sempre igual para elas. Até porque essa é uma questão de saúde. P. - Existe pressão? FP - Existe, mas o prefeito tem muita segurança em sua decisão porque está amparado na saúde. Não é uma decisão política. P. - O governo Doria (PSDB) tem sido precipitado na autorização para o retorno das escolas? FP - Agora, por exemplo, a regra estadual permite que as escolas recebam até 70% dos alunos, mas a prefeitura vetou a ampliação. O próprio estado está trabalhando com apenas 35% dos alunos. O STF [Supremo Tribunal Federal] já disse que os municípios podem ser mais restritivos que os outros entes na condução da pandemia, até porque, quem administra o sistema de saúde, é a gestão municipal. Mas temos uma boa relação com o governo estadual, estamos em conversa e com parceria. O retorno das atividades presenciais é motivo de comemoração e gradativamente, se a sociedade se comportar, vamos conseguir ampliar o atendimento.