‘Escola sem partido é projeto sem pé nem cabeça’, diz Tabata Amaral

Ciro Gomes participa de encontro com a deputada federal Tabata Amaral, na Vila Missionária, zona sul de São Paulo (SP). Foto: Marco Ambrósio/Futura Press
Ciro Gomes participa de encontro com a deputada federal Tabata Amaral, na Vila Missionária, zona sul de São Paulo (SP). Foto: Marco Ambrósio/Futura Press

Por Rafa Santos

Eleita pelo PDT paulista, Tabata Amaral é uma das muitas caras novas na Câmara dos Deputados a partir de 2019. Graças a um desempenho incrível em olimpíadas escolares e muito esforço, a jovem deixou a periferia paulistana para estudar ciência política e astrofísica em Harvard com bolsa integral. De volta ao Brasil, Tabata decidiu militar no campo da educação e foi uma das fundadoras do Movimento Acredito, que prega renovação na política nacional e vem engajando jovens pelo país. Tabata foi escolhida por 264.450 eleitores paulistas como sua representante na Câmara nos próximos quatro anos.

Em entrevista ao Yahoo Notícias, ela falou sobre as prioridades de seu primeiro mandato, polarização, Paulo Freire e o polêmico projeto de lei “Escola Sem Partido”.

Yahoo Notícias: Quando decidiu se candidatar e por que escolheu o PDT?

Tabata Amaral: Eu trabalho com educação faz bastante tempo. Eu me considero antes de tudo uma ativista da educação. Não só porque a educação mudou minha vida, mas porque eu vi de muito perto a falta que ela faz na vida das pessoas que acabam perdendo sua vida muito cedo para violência para as drogas ou para o álcool, mas nunca tinha considerado transformar esse ativismo em uma ação política concreta. Isso mudou —eu não sei te precisar o momento—, mas foi bem recente. Eu fui percebendo que o problema não estava na educação. Faltava vontade política para mudar a edução a gente precisaria mudar a política e quem sabe os políticos também. No ano passado nós fundamos o movimento Acredito que é uma junção de muitas pessoas que tinham esse sentimento, mas ainda não tinham entrado na política. Começamos a construir uma agenda de combate a desigualdade, a fazer engajamento local de forma suprapartidária e sondar pessoas sobre a possibilidade de se candidatar. Nesse movimento era muito difícil ver mulheres pensando sobre a possibilidade de se candidatar e eu comecei a perceber que a política ainda é vista algo para alguns sobrenomes e não para muitos grupos. Foi fazendo esse questionamento que eu comecei a amadurecer a ideia de me candidatar. Percebi que ficava arranjando desculpas para não entrar na política. A escolha pelo PDT se deu por duas razões. A primeira porque educação é a minha bandeira principal e eu conheço o partido porque trabalhei em Sobral no Ceará. Sei que a educação é a pauta principal do partido. E a segunda razão é que o PDT e outros quatro partidos foram os únicos a assinar uma carta compromisso com o Movimento Eu Acredito de renovação na política. Então a escolha foi natural.

Yahoo Notícias: O PDT chegou a expulsar um senador que votou a favor da PEC 241 –que ficou nacionalmente como PEC do fim do mundo– e que congela gastos em áreas como saúde e educação. Qual a sua opinião sobre essa medida? Ela deve ser revertida?

Tabata Amaral: Tenho uma visão de mundo e também da política que vai bastante além dos extremos. E, por isso também, que eu estou no PDT que conta com lideranças como o Ciro Gomes que é de um estado que garante igualdade de oportunidades e que é muito forte em saúde, segurança e educação, mas que entende a necessidade dos governos serem mais eficientes e serem financeiramente responsáveis. Então eu entendo e vou lutar para que a gente tenha um governo que consiga ajustar as contas e ainda assim entregar serviços da melhor maneira possível. O problema de quando a gente fala da PEC é que se trata do corte mais burro que se pode pensar. Se a gente quiser falar de impacto nas contas do governo a gente tem que falar de uma reforma da previdência justa. Uma reforma ampla. A gente tem que atacar os grandes salários do funcionalismo público. Cortar verba de educação e ciência e tecnologia é cortar onde é mais rápido e mais fácil. Eu sei que grandes reformas demandam a grande capital político, mas diminuir verba em educação e ciência é cortar aonde vai afetar mais o desenvolvimento do país e a redução da desigualdade. Eu concordo que o governo tem que cortar gastos e ser mais eficiente, mas a maneira menos inteligente, com certeza, não é fazer isso nessas áreas. Essa é um pouco da minha visão. Eu sei que teremos um congresso extremamente conservador e esse pensamento não vai prevalecer. E não acho que é só porque o congresso será conservador, mas porque ele estará muito dividido. Muita gente foi eleita não com propostas, mas negando a política, negando o outro lado… Gritando. Então o desafio que vou ter é unir os dois lados. Tentar fazer com que a gente saia dessa discussão rasa e possa entender que existem prioridades que devem ir além dessa polarização. Então esse ajuste de contas que não é inteligente e que só atinge os que mais precisam é muito fruto dessa fala de diálogo.

Yahoo Notícias: Qual sua impressão sobre esse período eleitoral?

Tabata Amaral: Acho que o que estamos vivendo é algo que está acontecendo no mundo como um todo. Como o Brasil é um país muito desigual e muito preconceituoso temos manifestações que são mais violentas e mais perigosas. A sociedade está muito descontente com a política e com a crise econômica. Estamos passando por uma transformação tecnológica que está gerando já muito desemprego. Existe uma previsão de que serão eliminados dois bilhões de empregos nos próximos 12 anos. E quando a gente tem um governo que não nos representa. Que é pouco democrático… Um governo tão apartado da sociedade como um todo. É natural que essa sociedade tente acabar com tudo isso. O que eu acho que aconteceu nessa eleição é que as pessoas queriam mudança. Só que essa mudança não foi propositiva. Não foi uma mudança de como se reorganizar e de trazer mais democracia. Talvez pelo medo as pessoas tenham se voltado mais para o autoritarismo e entendendo que o problema é com a democracia. Na minha visão o problema não está na democracia, mas na baixa qualidade dessa democracia. Esse congresso eleito apresenta um dos maiores níveis de renovação da história. Só que é uma renovação sem proposta. Uma renovação cheia de ódio. Temos que entender que metade do país está descontente e temos que achar um caminho. O caos.. Ele tem um tempo. Começamos lá em 2013 e já estamos em 2018. Precisamos falar de propostas em algum momento.

Yahoo Notícias: Quais as prioridades da senhora para o seu primeiro mandato?

Tabata Amaral: Eu quero estar na comissão de educação e na comissão das mulheres. Estou trabalhando para isso. Dentro da educação eu tentarei fazer uma combinação das pautas mais urgentes com aquilo que vai entrar na agenda. Porque um dos problemas da educação é que ela nunca tem espaço. Ela nunca entra na agenda. Nunca é prioridade. Um ponto que eu quero destacar é sobre o financiamento da educação porque a gente vai ter o Fundeb vencendo agora em 2020 que é a principal fonte de recursos para educação básica. Se discutirmos o Fundeb teremos uma chance única de garantir financiamento e também de implementar boas práticas. Hoje três em cada quatro cidades têm indicação para o cargo de diretor. Eu como deputada não posso fazer um projeto para acabar com isso, mas eu posso atrelar uma parte dessa verba para cidades que adotem boas práticas como acabar com a indicação política, implementar educação continuada para os professores, respeitar o piso salarial e por aí vai. Essa é uma pauta que está no momento certo e que tem tudo para girar o ponteiro da educação. O fato da gente não ser nem de esquerda e nem de direita pode ajudar a gente a driblar essa discussão rasa.

Yahoo Notícias: Quais os principais entraves que espera encontrar em seu primeiro mandato na Câmara?

Tabata Amaral: Acredito que vai ser muito importante saber dialogar com as pessoas. Porque as duas maiores bancadas, a do PT e a do PSL fizeram a campanha se odiando. Eu venho dedicando meu tempo para me aprofundar nesses temas em que quero trabalhar. Também fiz o curso do regimento da câmara. Minha ideia é chegar lá o mais preparada possível, conectada com as pessoas que me elegeram e também aberta a conhecer o parlamento. Eu entendo que quem está ali representa a população. Eu concordando ou não. Então meu foco será sempre em dialogar.

Yahoo Notícias: Qual a sua opinião sobre o projeto de educação de Jair Bolsonaro?

Tabata Amaral: Nos planos de governo tanto do Haddad como do Bolsonaro eu não vi nada sobre boas práticas que já foram documentadas. Sobral tem a melhor escola pública do país. Foz do Iguaçu fez um ótimo trabalho. Então os que esses dois exemplos fizeram em termos de reforma educacional já funcionou. Falta um pouco de pé no chão e humildade. Outra crítica que eu faço além dessa ao plano de governo do Bolsonaro é que lá se nota um total desconhecimento e descaso sobre educação. A parte que trata de educação é um puxadinho de ciência e tecnologia. Não vou entrar no mérito de educação a distância para ensino fundamental, militarização das escolas porque tem muita gente discutindo já. E tudo é um grande absurdo. Queria entrar no mérito do plano de governo não falar do professor, não falar de ensino médio, de financiamento de educação e alfabetização. A gente precisa falar do que importa. É isso que eu quero levar para o congresso. Sei que isso vai dar um trabalhão, mas não é algo de esquerda ou direita. Então acredito que é possível criar um espaço para discutir isso.

Yahoo Notícias: Qual a sua opinião sobre o projeto Escola Sem Partido?

Tabata Amaral: Sou completamente contra o projeto Escola Sem Partido. Primeiro que o instrumento que ele se propõe criar de fiscalização dos professores é inviável. A conta não fecha. Não temos verbas e não temos pessoal para fazer isso. Então é um projeto sem pé nem cabeça. Outro ponto que me preocupa é que mesmo sendo impossível de implementar, o projeto acaba dando um poder para o partido que estiver no poder —seja de extrema esquerda ou direita— de determinar o que pode ser dito e o que não pode ser dito. Então isso é muito perigoso. Eu acredito sempre em liberdade e democracia. Se existe doutrinação nas escolas, o melhor modo de combater isso é levando formação política para as escolas e não proibir A ou B de ser dito. Uma hora os jovens terão que aprender o que faz um vereador, o que faz um deputado… O que é esquerda e o que é direita. Como pesquisar o plano de governo deles. A melhor resposta é sempre ampliar o diálogo.

Yahoo Notícias: Parte do eleitorado de Jair Bolsonaro considera Paulo Freire um câncer na educação do país. Qual a sua opinião?

Tabata Amaral: Essa frase foi dita para causar impacto e mostra total desconhecimento de educação. Estudiosos do mundo inteiro exaltam como a obra do Paulo Freire contribuiu para a educação do Brasil e do mundo. Ao contrário do que eles acham não tem Paulo Freire demais nas nossas escolas. A nossa escola é uma decoreba de português, matemática e biologia. Os alunos deixam o ensino médio sem saber ler e escrever plenamente, sem saber frações e sem um projeto de vida. Na escola o problema não é o excesso de Paulo Freire. É falta. E falta também carteira, professor e um monte de coisa ao mesmo tempo. Não vou nem entrar no mérito da frase dele. Basta visitar uma escola pública mediana para gente constatar que estamos muito longe de ter esse modelo de ensino que muitos outros países conseguiram implementar e a gente não. É um modelo que não é decoreba, mas que ajuda o aluno a escolher um projeto de vida.

Yahoo Notícias: Alguns parlamentares defendem a volta do ensino do criacionismo na rede pública. Qual a sua posição?

Tabata Amaral: A gente tem um Estado laico. Eu tenho religião. Sou católica e vou na missa todos os domingos, mas jamais defenderia isso. Religião a gente aprende em casa. Porque poderíamos dar preferência para teorias propagadas pela comunidade evangélica e não para a cristã ou muçulmana. Se a gente entrar nesse mérito será uma discussão sem fim. Minha posição não é contra a religião, mas a favor de todas as religiões. A partir do momento que colocamos valores de uma religião na sala de aula, os alunos de outras religiões não vão se sentir completamente integrados. A escola pública é de todos por definição.

Yahoo Notícias: Sexualidade e combate a homofobia devem ser assuntos tratados na escola?

Tabata Amaral: Com certeza. As pessoas costumam olhar o lado errado da balança. Por a escola ser de todos algumas pessoas acreditam que ela deve abarcar valores evangélicos, católicos… Se é para todos, a escola deve ser um ambiente que ensina respeito. Valores se aprendem em casa. Na escola os alunos devem aprender a respeitar os valores dos outros. Então temos que falar sobre racismo, sobre LGBTQfobia, sobre machismo… Tudo para fazer da escola um ambiente que é de todo mundo. Onde as pessoas aprendam e descubram o melhor caminho para sua vida.