Escolas de recuperação são alternativa para adolescentes dependentes nos EUA

PAULA LEITE
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Jovens de moletom com capuz, mochilas às costas, pegam livros em armários de ferro. Parece uma high school de filme americano, não fosse pelo fato de que todos os cerca de 50 alunos da Northshore Recovery High School em Beverly, Massachusetts (EUA), são dependentes de drogas em recuperação. As primeiras Recovery High Schools, ou escolas de recuperação, abriram nos EUA nos anos 1980, mas o movimento se intensificou a partir dos anos 2000, quando foram reconhecidas pelo governo federal como estratégia de tratamento de adolescentes. Hoje, são ao menos 43 escolas em 21 estados que fazem parte da Associação de Escolas de Recuperação. A abertura de mais locais do tipo ganhou impulso conforme se espalharam pelo país os opioides, que mataram por overdose mais de 50 mil americanos no ano passado. Uma pesquisa com dados de 2015 e 2016 da National Survey on Drug Use and Health (NSDUH) estimou que 21% dos adolescentes do país haviam usado opioides prescritos no ano anterior ao questionário, e 3,8% haviam feito uso problemático deles (para fins não-médicos ou recreativos). Michelle Lipinski, diretora da Northshore, diz que as escolas tradicionais não estão bem equipadas para lidar com adolescentes que abusam de drogas ou que estão em recuperação. Quando um jovem vem à escola com drogas ou após usar, professores e diretores usam medidas punitivas, como suspensão ou expulsão, e muitos não sabem como encaminhar os alunos para tratamento. Outros têm medo de levantar o assunto com pais ou alunos e serem alvo de processos, coisa comum nos EUA. Cada aluno na Northshore tem um plano personalizado de proteção de recuperação. "Eu trabalho sob o guarda-chuva da redução de danos. Não é realista esperar só abstinência", diz ela, cujos alunos usam substâncias como metanfetaminas, cocaína, benzodiazepínicos, álcool e maconha, além de opioides. As escolas tentam preencher um vazio de programas de tratamento específicos para adolescentes, que muitas vezes são apenas programas para adultos com pequenas adaptações. "Nenhum adolescente quer ficar três horas por dia em terapia em grupo falando sobre seus sentimentos. Eles querem jogar basquete, precisam estar em movimento", diz Michelle. Tratamentos residenciais são um último recurso que serve apenas como intervenção momentânea, por 7 a 14 dias, mas não mudam comportamentos a longo prazo, diz ela; já os programas de acompanhamento ambulatorial para adolescentes não são robustos, segundo a educadora. Antes de chegar à escola de recuperação, muitos sofreram bullying, precisaram de planos de educação especial ou necessitam de tratamento de saúde mental. "Quase sempre há um trauma, e é comum que haja dependentes químicos em mais de uma geração na família", afirma a educadora. Ela se frustra com a falta de conversa sobre as drogas nas escolas tradicionais e dentro das famílias. Para Michelle, a melhor prevenção é falar sobre o assunto desde cedo. Dentro da escola, um dos pilares é o que ela chama de compaixão radical. "Nossa primeira reação como educadores trabalhando com adolescentes é achar que nós temos que ter o poder, que temos que controlá-los. Temos que dar o poder a eles. Quando um jovem tem uma recaída, eu não vou gritar com ele ou suspendê-lo, vou falar 'oh, querido, o que aconteceu? Venha ao meu escritório e me conte'." Outro desafio é lidar com os pais, que quase sempre já estão muito frustrados e bravos quando seus filhos chegam à Northshore. "Os pais têm medo de mandar os filhos para cá, acham que eles vão se envolver com traficantes ou drogas mais pesadas. Ou eles querem que a gente 'conserte' o adolescente, mas a recuperação é uma estrada longa", diz Michelle. Apesar disso, o dia a dia na escola não é só feito de vitórias. A série documental "16 and Recovering", da MTV americana, mostrou em 4 episódios um ano escolar na Northshore, que incluiu muitas recaídas e internações, algumas vitórias e uma morte por overdose. O nome do programa é inspirado no popular "16 and Pregnant", que ganhou o nome de "Grávida aos 16" no Brasil, e segue o modelo de reality shows que intercalam cenas na escola e casa dos jovens com depoimentos estilo confessionário, ao som de baladas indie. Em meio à pesada realidade da dependência química, com testes de urina, overdoses e internações, os jovens, como não poderia deixar de ser, não deixam de ser adolescentes. "A gente vive falando para eles não namorarem entre eles, mas não funciona", diz a diretora, rindo. "Sempre tem um drama e um novo romance acontecendo."