Escolas de samba apelam para criação virtual e até retiros fora do Rio para planejar o ano que vem

Rafael Galdo
·4 minuto de leitura

RIO - Nesta segunda-feira, quando começaria o segundo dia de show do Grupo Especial na Sapucaí, as arquibancadas estão, pela primeira vez, vazias no carnaval, e a fábrica de sonhos que é a Cidade do Samba permanece interditada, com barracões irreconhecíveis num mês de fevereiro. Mas a produção artística do Reinado de Momo nunca parou, mesmo com as restrições da pandemia, e está guardada — a maioria a sete chaves — à espera de um próximo desfile.

Com todos os enredos escolhidos, a maioria das escolas tem os desenhos de fantasias e alegorias prontos ou em finalização. E também já se valem do talento de centenas de compositores: são 187 sambas que permanecem nas disputas das grandes agremiações, muitos com letras e melodias debatidas em reuniões virtuais, aptos a sacudir foliões quando for possível reviver essa emoção.

É verdade que são poucas, mas há agremiações que confeccionaram, inclusive, os protótipos dos figurinos de um carnaval que ficou para 2022. É o caso do Império Serrano e da Unidos de Padre Miguel, ambas da Série Ouro e assinadas, respectivamente, pelos carnavalescos Leandro Vieira e Edson Pereira. Já no Especial, a atual campeã, a Unidos do Viradouro, continuou a a produção dos modelos das fantasias apesar do fechamento da Cidade do Samba — está concluindo esta fase num ateliê da Zona Portuária, sob a batuta dos carnavalescos Marcus Ferreira e Tarcísio Zanon.

— No auge da pandemia, nós nos mudamos temporariamente para Saquarema, onde criamos quase 70% do carnaval — conta Marcus.

Tarcísio arremata, lembrando de uma máxima que deve valer para todos:

— Há uma escassez de materiais, principalmente importado. Então, vamos utilizar muitos produtos da indústria brasileira, patchwork e trabalhos artesanais.

Edson Pereira é outro artista que está com seus projetos inteiros desenhados. E são para suas três escolas: além da Padre Miguel, ele conduz a Vila Isabel e, em São Paulo, a Mocidade Alegre. E mesmo com o tempo mais elástico para completar a tarefa, ele está introduzindo uma novidade que promete otimizar, sobretudo, a construção das alegorias. É um software de animatrônica e uma máquina de impressão 3D, que cria pequenas maquetes do que um dia vai encantar o público na passagem das três agremiações.

— Consigo fazer maquetes separadas da ferragem, da madeira, da escultura... Isso possibilita fazer vários testes e consertar erros ainda no computador — conta Edson.

A dupla Leonardo Bora e Gabriel Haddad já se conheceu nas edições do carnaval virtual — desfiles de escolas de samba com desenhos on-line. Atualmente na Grande Rio, eles não deixam de traçar seu carnaval à mão, da identidade visual do logotipo do enredo às alegorias. Mas, assim como a maioria dos carnavalescos, levam tudo para o computador, em projetos 3D.

Esse processo para 2022, contam eles, está avançado, após um intenso período de pesquisas, debates remotos e alguns encontros presenciais. Tanto que os dois puderam dar uma parada nos últimos dias para voltar ao carnaval virtual, que está tendo uma edição especial, ontem e hoje, na internet. A Grande Rio participa como escola convidada, com animações e projetos da apresentação de 2020 da tricolor, que conquistou o vice-campeonato na Sapucaí.

Depois uma pausa rápida, os dois artistas seguem debruçados no próximo enredo sobre Exu e já pensam se o carnaval pós-pandemia vai mudar.

— Precisamos entender e criar estratégias. Não acho que seja necessariamente um problema. Mas é um desafio artístico — diz Bora.

Não importa quando, mas os próximos desfiles já têm uma marca: será o que muitos chamam de “carnaval preto”. Das 27 escolas do Grupo Especial e da Série Ouro, 19 têm temáticas sobre questões raciais, personalidades negras e tradições culturais e religiosas afro-brasileiras.

Entre os enredos adiados para 2022, o Salgueiro clama por “Resistência”, a Vila homenageia Martinho e, o Império Serrano, o capoeirista Mangangá. Tem Exu na Grande Rio, Oxóssi na Mocidade e Iroko na Unidos de Padre Miguel. E, de Nilópolis, vem “Empretecer o pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor”.

— Abordaremos a atuação de filósofos, escritores, artistas, ativistas... E vamos nos colocando como uma fileira a mais nessa luta — afirma o carnavalesco Alexandre Louzada.

Negro e integrante da comissão de carnaval da escola, André Rodrigues continua:

— O enredo vai dialogar com o que vivemos, sobre como somos marginalizados e como o pensamento preto é apagado. Se a gente morre por qualquer banalização da vida, é reflexo da repressão que ainda vivemos e que pauta o racismo ou a intolerância religiosa.

É uma safra de enredos que suscita debates e atrai às disputas de samba artistas como Elza Soares, Carlinhos Brown, Sandra de Sá e Mariene de Castro, na Mocidade. E, na Mangueira, que cantará Cartola, Jamelão e Delegado, o estreante é o ator Aílton Graça:

— Quando recebi o convite para a parceria, confesso que me assustei. Estar nessa disputa de samba-enredo é mágico.