Escolher entre os pacientes, o fardo diário dos médicos

Por Amélie BOTTOLLIER-DEPOIS
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Serviço de reanimação em hospital parisiense

Coronavírus ou não, escolher entre colocar ou não um paciente em respirador artificial é o fardo diário dos médicos. Mas a atual epidemia corre o risco de forçá-los a uma "classificação" em larga escala, levantando questões éticas.

A pandemia de Covid-19 já matou mais de 13.000 pessoas em todo o mundo e mais de 300.000 casos foram oficialmente registrados.

E os doentes graves requerem reanimação e grande atenção, causando a saturação de hospitais em alguns países. Sob essas condições, qual paciente deve se beneficiar de um respirador?

As diretrizes de boas práticas existem há muito tempo, para tranquilizar as equipes médicas.

"Não estamos começando do zero, são decisões que tomamos todos os dias", explica Bertrand Guidet, chefe da unidade de terapia intensiva do Hospital Saint-Antoine, em Paris.

Para fazer essa escolha são usados três critérios de avaliação, que também se aplicam ao coronavírus: "o desejo do paciente", seu estado geral de saúde e a gravidade da doença.

Com relação ao desejo do paciente, o médico também chama as famílias para discutir a situação antecipadamente, porque a ressuscitação é "muito pesada" para casos graves de Covid-19, com possíveis sequelas em caso de sobrevivência, principalmente para os mais frágeis.

"Você fica por três semanas com uma máquina que respira por você, fica dormindo e paralisado", insiste.

Assim, havendo ou não espaço suficiente, a ressuscitação pode ser "irracional", insistem os especialistas, observando que os pacientes podem ser encaminhados para cuidados paliativos.

Porém, no caso de uma crise, de terremotos a ondas de ataques e, é claro, para o coronavírus, os critérios de ressuscitação podem endurecer, com um grande afluxo de pacientes e meios limitados.

"Sim, seremos obrigados a priorizar os doentes. Se tomarmos as palavras do presidente (francês) Emmanuel Macron, estamos em guerra, isso é chamado de classificação, como no campo de batalha onde deixamos feridos graves porque consideramos que eles vão morrer", ressalta o Dr. Guidet.

"Neste momento, damos o respirador para aquele com mais chances de sobrevivência", afirma o Dr Philippe Devos, de Liege, Bélgica.

- "Enorme peso moral" -

"Quanto aos meios disponíveis, tentaremos garantir que não seja uma loteria", continua ele, destacando um conjunto de critérios a serem associados, como idade e doenças subjacentes.

Enquanto o número de pacientes está aumentando, também é necessário "se manter no longo prazo", sublinha o Dr. Guidet. "Os pacientes que se apresentam agora não devem ser privilegiados sobre aqueles que chegarão em uma semana ou 15 dias, não devemos saturar tudo imediatamente".

Na Itália, o país mais afetado do mundo, os hospitais já estão saturados e os médicos estão fazendo o que podem.

"Não podemos tentar obter um milagre (...) Tentamos salvar apenas aqueles que têm uma chance", reconheceu recentemente ao Corriere della Serra Christian Salaroli, ressuscitador de um hospital em Bergamo.

"Decidimos por idade, por condição de saúde. Como em todas as situações de guerra", ressaltou.

No início de março, diante da saturação dos hospitais italianos, a Sociedade Italiana de Anestesia, Reanimação e Terapia Intensiva chegou a considerar um limite de idade para admissão em terapia intensiva.

Uma recomendação que não é unânime. "Só a idade, não", insiste o Dr. Guidet, relatando ter admitido em terapia intensiva um paciente com Covid-19 de 85 anos, sem histórico médico e completamente autônomo até então. Enquanto alguém na casa dos 40 com cirrose e que continua a beber, não terá vez.

Esses são os mesmos princípios para as listas de espera para transplante de órgãos, comenta Arthur Caplan, da Escola de Medicina Groceman da Universidade de Nova York.

"Pessoas morrem todos os dias há décadas porque não podem ser transplantadas", ressalta o especialista em bioética da AFP. "Não temos órgãos suficientes (...), o sistema é entregá-los às pessoas com maior probabilidade de ficar bem".

Mas para o coronavírus, apesar das regras ou recomendações, no final, é o médico no controle que tomará a decisão, às vezes no meio da noite e em emergência, sozinho ou em equipe, estima.

Um "enorme peso moral" a suportar, ressalta o Dr. Devos. "Fazemos medicina para aliviar as pessoas. Não para fazer escolhas sobre quem pode viver".