Escolher um lado do muro é um dos desafios da candidatura Alckmin

Marcelo Camargo/Agência Brasil
Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Ricardo Chapola e Maria Teresa Cruz

Alckmin é reservado e de falar muito pouco. A situação se agravou depois da morte do filho, Thomaz, em um acidente de helicóptero em abril de 2015. Depois disso, o tucano se fechou de vez “em seu casulo” e mergulhou de cabeça no trabalho. Amigos bem próximos relatam que, após a morte de Thomaz, o governador chegou até a deixar a família depois de uma ceia de Natal para se trancar em seu gabinete e trabalhar.

Lá dentro, Alckmin sempre está acompanhado de um caderno espiral, onde anota tudo o que consegue durante as reuniões com secretários e lideranças políticas. Cada registro feito à mão é lembrado em detalhes pelo tucano, dono de uma “memória de elefante”, segundo aliados. Sua obsessão maior é por números: sabe estatísticas do governo, sem mesmo ter de olhar para a colinha preparada pelos assessores durante as entrevistas. Em cafés mais descontraídos, o governador dá a impressão de ter decorado inclusive as piadas que faz aos jornalistas, muitas delas já repetidas e gastas pelo tempo.

O hábito de estar na beira da estrada almoçando com prefeitos de cidades muito pequenas do interior, enquanto figurões mais tradicionais do PSDB comem em restaurantes de luxo, já podem ter rendido piadas internas, mas, por outro lado, é uma das características do jeitão “linha direta com o governador” que ele impôs e que fez com que a penetração do partido no interior de São Paulo seja impressionante.

Para tomar decisões, Alckmin conta hoje com duas pessoas de confiança: o secretário de governo, Saulo de Castro, a quem recorre para assuntos relacionados à administração; e o assessor particular, Orlando de Assis Batista Neto – conhecido como Orlandinho – um confidente de Alckmin para assuntos políticos e pessoais.

Tomar decisões, aliás, é uma das principais dificuldades que o governador precisará contornar para a disputa presidencial deste ano. Integrantes do staff do tucano afirmam que Alckmin sempre evita se posicionar – uma mania criada por ele para não se indispor com outras lideranças políticas. É por essas e outras que o governador ganhou o apelido de “picolé de chuchu” – traço considerado por alguns tucanos o maior inimigo de Alckmin nas eleições. A avaliação interna é de que o momento atual pede mais clareza do tucano em relação a temas que devem vir à tona nas eleições, como privatização, aborto e porte de armas.

O cientista político e professor da UFABC, Vitor Marchetti, avalia que Alckmin tem como vantagem não ser um ilustre desconhecido, mas aponta justamente a necessidade da mudança de postura avaliada pelos próprios pares para que Alckmin saia vitorioso nas eleições. “É afastar a imagem que ficou muito consolidada e traduzida pela expressão ‘picolé de chuchu’. É aquela imagem de um sujeito meio sem vibração, sem ímpeto, sem posicionamento”, explica. “Essa vontade dele de se colocar no centro, o torna um sujeito muito anódico. E estamos vivendo um momento nada favorável a debates com posições não muito claras”.

Marchetti lembra o que aconteceu com a então candidata Marina Silva nas eleições de 2014 quando falou de forma difusa sobre aborto. “Ela assumiu posições muito erráticas. Uma hora dizia determinada coisa do aborto, depois mudou a posição. Ela sofreu por não conseguir definir uma posição e ficou neutra, tentando agradar dois públicos. Nessa última declaração do Alckmin, podemos dizer que ele ‘marinou’”, avalia sobre o fato do tucano ter dito que “PT colheu o que plantou” diante dos supostos ataques a tiros no ônibus que compunha a caravana de Lula pelo Brasil em pré-campanha. No dia seguinte, ele voltou atrás e condenou a atitude. “Ele claramente assumiu uma posição para tentar atrair o típico eleitor do Bolsonaro, mas no dia seguinte ele pensou: ‘deixa eu voltar a ser eu mesmo’, porque foi uma roupa que não caiu bem. E ele voltou a moderar o meu discurso”, disse. Ou seja: Alckmin precisa descer do muro e ir para a briga. Até porque um de seus principais opositores, o candidato pelo PSC, deputado Jair Bolsonaro, com quem ele aparece tecnicamente empatado na pesquisa mais recente de intenção de voto, do Instituto Paraná Pesquisas, pode ser classificado de várias formas, menos moderado. “Teremos uma campanha muito curta, com muitos candidatos, com pouco tempo de TV”, pondera o cientista social, Vitor Marchetti. “A fala de Bolsonaro contra a política é muito forte. E esse cansaço do eleitor diante das denúncias de corrupção, os desencantados da política podem apostar no Bolsonaro como um chacoalhão no sistema. O Alckmin não representa isso. É equilibrado, ponderado”, afirma.

A revanche

Quem é próximo ao governador Geraldo Alckmin (PSDB) diz que ele jamais engoliu a forma como perdeu as eleições para o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006. E não era por menos.

Naquele ano, o governador foi derrotado no segundo turno pelo petista com menos votos do que tinha conseguido no primeiro – algo considerado “vergonhoso” até mesmo por aliados do tucano, pois foi a única vez que isso aconteceu desde a implementação da eleição em dois turnos no Brasil, após a redemocratização. Amigos afirmam ainda que, apesar de nunca falar disso abertamente, Alckmin é movido por uma espécie de “revanchismo” desde então.

Agora, doze anos depois, o governador provavelmente vai ter a chance de colocar à prova pela segunda vez sua força política em uma disputa presidencial.

Aliados e colegas de partido, no entanto, apostam na vitrine das gestões à frente do maior estado do Brasil como demonstração de que Alckmin é um político preparado para assumir o país.

“Hoje Alckmin é um político muito mais maduro, mais experiente, capaz de pensar política por uma perspectiva menos regional e mais nacional”, disse o vice-governador Marcio França (PSB). “Ele se preparou a vida inteira para ser presidente. Mas desde 2006, amadureceu muito mais. Ele nunca tirou um dia sequer de férias enquanto esteve no governo”, disse Felipe Sigollo, ex-coordenador de campanha do governador.

Se dependesse da vontade e da obstinação de Alckmin, ele já teria tentado “se vingar” do PT antes, em 2014, mas foi obrigado a ceder a vaga de candidato do PSDB para o senador Aécio Neves, então presidente do partido, e ainda assistir o senador mineiro ter o melhor desempenho da legenda em disputas presidenciais desde Fernando Henrique Cardoso. Aécio não foi eleito por muito pouco, ao obter cerca de 50 milhões de votos, muito mais do que Alckmin e José Serra tiveram quando concorreram ao Planalto – o primeiro, em 2006; o segundo, em 2002.

Mesmo tendo sempre sido contra a candidatura de Aécio, governador paulista acompanhou o apogeu do neto de Tancredo Neves à distância. O tucano disputou a reeleição em São Paulo e venceu pela quarta vez. Dos 23 anos que o PSDB está no comando do Estado, 13 são sob a batuta de Alckmin.

Mas nem tudo foram flores e durante esse período todo, Alckmin sofreu uma série de desgastes políticos. Primeiro, com as denúncias que envolviam o tucano no esquema de formação de cartel no sistema metroferroviário em São Paulo, em 2013. Em seguida, com a crise hídrica, que deixou parte da população sem água no Estado. E, no ano passado, quando teve seu nome citado em meio às investigações da Operação Lava Jato. Um ex-executivo da Odebrecht afirmou durante um acordo de delação premiada que Alckmin acertou pessoalmente o repasse de R$ 2 milhões via caixa dois da empreiteira para sua campanha ao governo do Estado, em 2010. O delator disse ao Ministério Público que o governador chegou a entregar um cartão de visitas do cunhado, Adhemar Ribeiro, quem seria o responsável por receber o dinheiro.

Os efeitos do surgimento do nome de Alckmin na Lava Jato não foram os mesmos que os de quando Aécio foi citado no esquema. Segundo a Procuradoria Geral da República, o senador teria recebido propina da JBS para atrapalhar as investigações da força-tarefa. O Supremo Tribunal Federal chegou a determinar o afastamento de Aécio de seu mandato em setembro do ano passado, mas o Senado derrubou a decisão um mês depois. Com o desgaste, o senador mineiro perdeu todo o protagonismo e a força política que conquistou desde as eleições de 2014.

“O PSDB foi afetado com as denúncias da Lava Jato, fazendo com que o partido perdesse força. Mas em meio a esses escândalos, apesar de algumas citações, Alckmin sempre se mostrou ser um homem limpo”, disse o deputado federal Silvio Torres, que não entrou em detalhes sobre o envolvimento do governador na Lava Jato, nem no esquema do cartel de trens em São Paulo.

Apesar de seu governo ser alvo de uma série de críticas da oposição, como pelo atraso da entrega de obras – principalmente do metrô – Alckmin tem alguns fatores que estão a seu favor nas eleições deste ano e que dão sustentação a sua candidatura. A começar do ponto de vista interno. O primeiro aspecto seria o fato de o governador ser hoje o presidente nacional do PSDB. Com o controle da máquina partidária, sua candidatura ganhou apoio de basicamente toda a militância, mesmo porque a legenda carecia de lideranças alternativas que não tinham sido atingidas em cheio pela Lava Jato. Praticamente uma unanimidade que não existia em 2006, por exemplo, quando a sigla estava rachada, porque parte dela defendia a candidatura de José Serra, que acabou disputando o governo de São Paulo.

Outro fator é a incerteza sobre a candidatura de Lula, uma velha assombração no histórico político do PSDB, já que o petista já havia vencido pessoalmente FHC (em 2002) e Alckmin (em 2006); e derrotado Serra (2010) e Aécio (2014) com Dilma, sua sucessora. A diferença é que agora Lula tem em suas costas a condenação em segunda instância no processo do tríplex do Guarujá, que praticamente tirou o ex-presidente do tabuleiro político. Em 2006, porém, o petista estava em meio às denúncias do mensalão, mas livre de condenações.

Em defesa do equilíbrio

Se por um lado, Alckmin pode desaparecer no meio do fogo cruzado entre pólos muito opostos, o da extrema direita, que hoje tem seu principal representante na figura de Bolsonaro com a esquerda, embora desgastada, ainda muito ligada a figura de Lula, aliados veem como um trunfo essa habilidade política de moderar posicões pública. Um ex-deputado que integrava o governo Alckmin costuma dizer que “o governador bajula os inimigos e despreza os amigos”. Nesse cenário marcado por radicalismos, Alckmin teria a possibilidade de se apresentar como uma alternativa moderada, especialmente por manter certa interlocução com alguns segmentos da esquerda, como o PSB, de seu vice, e uma parte do PT. O governador tem uma ótima relação com o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, com quem ainda mantém contato, e que, em uma eventual saída de Lula, poderá se tornar seu adversário.

“Geraldo é um cara de centro-esquerda, um fiel social-democrata ao melhor estilo Mário Covas. Eu mesmo via isso no dia a dia”, afirmou Fabio Lepique, ex-secretário particular de Alckmin e líder do PSDB na capital paulista. Ao mesmo tempo que Alckmin é visto dessa forma por parte do tucanato, o governador deu uma guinada à direita em seu último mandato ao se aliar com o PP, o setor ruralista e a parte mais conservadora do empresariado paulistano.

Os diálogos com a esquerda, porém, não significam que o tucano viva em clima de céu de brigadeiro com esse espectro político. Em vários momentos de sua gestão, Alckmin tomou medidas contrárias aos interesses de movimentos sociais e centrais sindicais, alimentando a rejeição que tem entre algumas categorias do funcionalismo público, como os professores. Além disso, quando o tema é segurança pública, que vai permear grande parte dos debates nas eleições 2018, o tucano é bastante criticado, principalmente por entidades ligadas aos direitos humanos, já que, em última análise, ele responde pela polícia que, percentualmente, é a mais letal do país, segundo o Anuário da Segurança Pública do ano passado.

Alguns líderes do PSDB acreditam que o maior inimigo de Alckmin seja ele mesmo. Afirmam que a candidatura dele precisa “empolgar” de uma vez por todas para que o partido recupere territórios perdidos nas eleições de 2014, como Minas Gerais – o segundo maior colégio eleitoral do País, onde o grupo de Aécio dominava até seu nome surgir nas delações da JBS.

Já outros tucanos, como Silvio Torres, continuam achando que o maior adversário do PSDB é externo e não se resume mais apenas a Lula, ou ao PT. “Nosso maior inimigo político hoje é toda a esquerda. É a união da esquerda”, afirmou o tucano, ao se referir à possibilidade de aliança entre os partidos mais progressistas, caso o PT desista de lançar candidatura própria.