Escondido e minimizado na eleição, lado "real" de Bolsonaro ressurge com força

O presidente Jair Bolsonaro (Foto: EBC)


“Faz muito tempo”, “ele não pensa mais assim” e “não é de coração” foram, provavelmente, as frases mais repetidas pelos brasileiros entre setembro e novembro de 2018.

Naquele momento, a conversa começava a se desenhar em gráficos de pesquisas eleitorais que indicavam a vitória, nas urnas, de um dos mais perversos personagens já paridos pela política nacional.

Em tempos de avalanche de informação e desencanto com o mundo real, que catapultou e produziu também desinformações em velocidade inédita pelas redes, essa perversidade passou a ser interpretada como coragem para enfrentar problemas sobre os quais Jair Bolsonaro jamais se debruçou com seriedade em três décadas de carreira política, sobretudo a questão da segurança pública.


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Às vésperas da posse, um motorista de Uber me justificava o voto com uma grande esperança: “o velho Bolsonaro era um personagem pra chamar a atenção. Pode anotar aí: assim que ele assumir, vai ser outra pessoa. Vai se comportar como presidente e parar de graça”.

A fala era recorrente. Do meu circulo de relacionamento, muita gente dizia votar no capitão APESAR de seu histórico até então classificado como “polêmico”, e não POR CAUSA desse histórico.

Não que não houvesse, como há, entusiastas da versão mais furiosa do personagem. Em um país mediado por exclusões e preconceitos, era clara a identificação de certos grupos com o discurso bolsonarista, como a defesa do armamento da população e o desprezo, mal disfarçado, sobre feministas, movimentos negros, população LGBT e quem quer que discordasse de sua visão torta da realidade, automaticamente associada ao lado de lá da cortina de ferro derrubada em 1989.

Mas só o apoio desse grupo não era suficiente para ganhar a eleição. Era preciso convencer os eleitores de centro - avessos, cansados ou empobrecidos pela crise econômica iniciada no governo Dilma - de que a projeção do poder traria também noções básicas de respeito ao cargo que aquele candidato “polêmico” ocuparia em breve. Isso exigiria uma capacidade de convívio com o contraditório e um espírito republicano que ele jamais havia demonstrado na vida púbica. Não custava torcer, diziam os esperançosos.

Já de olho nas eleições, uma das últimas aparições do Bolsonaro-raiz aconteceu em 2017, quando discursou no clube Hebraica, no Rio de Janeiro. Entre outras pérolas, o então deputado disse que o Brasil não poderia “abrir as portas para todo mundo” e questionou: “Alguém já viu algum japonês pedindo esmola? É uma raça que tem vergonha na cara!”.

No auge da campanha, quando as chances de vitória eram palpáveis, entrou em cena um candidato mais discreto e avesso à verborragia. Que não só evitava divididas como censurava o candidato a vice, general Mourão, quando entrava em temas polêmicos.

O atentado a faca, em Juiz de Fora, no auge da campanha, deu a Bolsonaro uma trégua na demonização desenhada por adversários (Geraldo Alckmin, do PSDB, puxava a fila) e o impediu de participar de debates. Em um deles, pré-atentado, ele havia tomado uma lambada de Marina Silva (Rede) ao se meter num assunto que diz conhecer: religião.

O fato é que, durante boa parte da eleição, o Bolsonaro real ficou de escanteio, por oportunismo ou pelas condições atípicas da disputa.

De alguma forma, ele parecia ser o postulante adequado para a disrupção exigida pelos eleitores por supostamente ser diferente de todos - essa distância, na verdade, era só a desfaçatez de quem desancava, para delírio da plateia, a classe política da qual fazia parte havia três décadas.

Eleito, recuperado, confiante e com moral após da reforma da Previdência, uma das poucas condições impostas pelos investidores em seu apoio, Bolsonaro voltou a se comportar, dez meses depois, como o deputado do baixo clero que profere barbaridades como quem faz piada em velório. Virou o que boa parte dos eleitores temia ou se negava a temer: um touro na loja de cristais.

Na última semana, ele engatou um sprint e produziu barbaridades que sequer os mais notáveis opositores tiveram tempo de assimilar, reproduzir, comentar.

Em poucas horas, ele se referiu aos governadores do Nordeste como “paraíbas” e declarou que “o pior deles” era Flávio Dino, do Maranhão. (Depois tentou se justificar, mas o remendo, com outra grosseria sobre a repórter que lhe questionara, saiu pior que o estrago: “Pelo amor de Deus, né. Se eu te chamar de feia agora, acabou o mundo. Todas as mulheres vão estar contra mim”).

Ele disse que era uma piada dizer que alguém passa fome no Brasil, defendeu o fim da multa de 40% sobre FGTS em caso de demissão do trabalhador sem justa causa, mas negou que haja um projeto, somente um estudo, sobre o assunto.

Também disse que quer beneficiar o filho, sim, ao comentar a chance de nomear Eduardo Bolsonaro embaixador nos EUA, agrediu gratuitamente os produtores do filme “Bruna Surfistinha” e flertou com a censura ao dizer que se a agência nacional de cinema não puder ter filtro, será extinta ou privatizada.

Como se fosse pouco, ele decidiu caluniar uma das mais respeitadas jornalistas do país, inventando a história de que Miriam Leitão queria aderir à guerrilha do Araguaia para implantar uma ditadura esquerdista no Brasil, e ouviu um sermão da TV Globo em rede nacional.

Por fim, contestou dados de desmatamento registrados pelo Inpe, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que estaria “a serviço de algumas ONGs”.

As respostas do presidente do instituto, Ricardo Magnus Osório Galvão, são dignas de quem tem alguma visão aérea sobre a devastação mental por que passa o Brasil: "Ao fazer acusações sobre os dados do Inpe, na verdade ele faz em duas partes. Na primeira, ele me acusa de estar a serviço de uma ONG internacional. Ele já disse que os dados do Inpe não estavam corretos segundo a avaliação dele, como se ele tivesse qualidade ou qualificação de fazer análise de dados".

“Ele tomou uma atitude pusilânime, covarde, de fazer uma declaração em público talvez esperando que peça demissão, mas eu não vou fazer isso.”

Para Galvão, Bolsonaro tem tido um comportamento típico de um garoto de 14 anos demonstra não respeitar “a dignidade e liturgia da Presidência”.

A análise é compartilhada pelos eleitores ouvidos pelo Datafolha no começo do mês. Apenas 22% acreditam que Bolsonaro age como um presidente deveria se comportar. Um em cada quatro entrevistados dizem o contrário.

Mais: para 4 em cada 10 brasileiros, ele não fez nada de muito positivo ou que mereça destaque em seus seis meses de governo.

Querendo ou não, o presidente do Inpe vocacionou o que os institutos de pesquisa começam a apontar - e explicou as razões. Em poucas palavras, Bolsonaro foi chamado de ignorante, covarde e pusilânime por um servidor que se tornou alvo de sua verborragia – tudo isso poucos dias antes de vazar a conversa de procuradores da Lava Jato sobre como ficaria o discurso anticorrupção de Sergio Moro após a descoberta de que esse discurso poderia acertar o filho do chefe e o próprio chefe.

Como resumiu o jornalista Leandro Beguoci, em sua conta no Twitter, Bolsonaro não quer presidir o Brasil. Ele quer presidir uma versão que ele criou do país. “Nesta versão, não tem fome, nepotismo é liberado, floresta é pra cortar e os maiores problemas nacionais são as propagandas do BB, o filme da Bruna Surfistinha e a tomada.”

A realidade paralela de Bolsonaro é parte do pacote da versão real do presidente que, escondida nas eleições, agora vem a público mostrar que ainda é o que sempre foi.