Escritoras de várias cidades do Brasil se articulam para foto histórica

Às 8h do próximo domingo, cerca de 20 escritoras independentes de Macapá se reúnem às margens do Rio Amazonas para tirar uma “foto histórica”. Às 9h, algo semelhante acontece em Cuiabá, onde um grupo de autoras se junta em frente ao Palácio da Instrução para outro clique. A cada hora, o movimento se repete em mais de 20 cidades do país para criar um marco: fazer do 12 de junho de 2022 o dia da foto histórica das escritoras brasileiras. No Rio, está marcado para as 11h na escadaria do Theatro Municipal; na capital paulista, na escadaria Patrícia Galvão, no Pacaembu, no mesmo horário.

A ideia partiu da escritora paulistana Giovana Madalosso, há poucas semanas. Inspirada pela foto “Um grande dia no Harlem”, feita por Art Kane em Nova York, em 1958, com os maiores nomes do jazz da época, ela pensou em reunir escritoras, com publicações tradicionais ou independentes, de papel ou web, para “Um grande dia em São Paulo”. O movimento se alastrou e foi parar até em brasileiras que moram em Lisboa e Londres.

— Nunca tantas mulheres escreveram e publicaram como hoje. O número tem aumentado com autopublicação e redes sociais, com editoras tendo que abrir catálogos, por vontade própria ou não — diz Giovana.

Com o acelerado boca a boca virtual e o poder de mobilização das redes, a proposta é ter fotos tão plurais quanto as cinco regiões do país. Em Boa Vista, por exemplo, a escritora Roseana Cadete tem feito a convocação principalmente entre mulheres indígenas.

— Em termos de população, somos um estado indígena, mas não há valorização dessa cultura. As meninas estão se sentindo reconhecidas com esse momento de ênfase da mulher escritora — diz Roseana, da etnia Wapichana, que conseguiu marcar o evento para este sábado, às 16h.

Em São Paulo, para enfatizar a produção da mulher negra na literatura, a ativista Tati Nascimento pretende levar uma imagem de Maria Firmina dos Reis. Com o livro “Úrsula”, Maria Firmina — mulher negra do século XIX — tornou-se a primeira escritora a publicar um romance no Brasil. A ideia é que ela esteja, simbolicamente, na foto.

— Vínhamos discutindo como poderíamos representar de uma forma efetiva as mulheres negras, e aí veio a lembrança de Maria Firmina. Já diz a famosa frase: “nossos passos vêm de longe” — diz Tati.

A escritora Esmeralda Ribeiro, editora dos “Cadernos negros”, série literária de textos independentes que existe desde o fim dos anos 1970, também tem espalhado a mensagem para que o momento seja representativo.

— Quanto maior o número, melhor. E não podemos falar em combater o racismo se não trouxermos todos: indígenas, pessoas trans... — diz Esmeralda.

Além da foto

O Rio foi uma das primeiras cidades a embarcar na ideia, e uma das organizadoras, Martha Ribas, diz que o grupo tem discutido para que o dia não resulte apenas em uma imagem na parede ou na tela do celular.

— Queremos levantar os nomes das participantes para que haja desdobramentos — diz Martha, sócia da livraria Janela, no Jardim Botânico. — Todo mundo tem pensado no que fazer para não perder essa energia.

A preocupação para que esse gás perdure aparece também nas articulações de Rute Xavier, de Macapá, principalmente para descentralizar o olhar literário:

— De certo modo, ficamos ilhados em relação à parte cultural. É quase um trabalho de guerilha, e esse dia serve como vitrine para o Brasil. Há escritoras no Amapá. Olha a gente aqui, no nosso território.

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