Escritores e editores reagem a post de curador do Prêmio Jabuti contra o isolamento social

Pedro Almeida, curador do Jabuti, na cerimônia de entrega da 61ª edição do prêmio

RIO - O curador do Prêmio Jabuti, Pedro Almeida, revoltou escritores e editores do país com um post publicado neste sábado, 24, com informações falsas sobre a pandemia do coronavírus. À frente do principal prêmio literário do país, Almeida criticou o isolamento social e disse que os brasileiros estavam sendo "enganados" sobre os casos de mortes de Covid-19.

Na tarde deste domingo, um grupo de mais de 100 escritores, editores e jornalisstas publicaram um "Manifesto contra o obscurantismo no Prêmio Jabuti". Entre os autores estão os escritores Nélida Piñon, Noemi Jaffe, Eric Nepomuceno, Marcelino Freira, Lívia Garcia-Roza, Patrícia Melo, Jacques Fux, Andréa Pachá, a editora Simone Paulino e os jornalistas Afonso Borges e Paulo Werneck. No texto, eles declaram o curador "moralmente desautorizado para o cargo".

"O posicionamento de Pedro Almeida é incompatível com a responsabilidade do curador de um prêmio que celebra a produção científica brasileira, bem como a obra de escritoras e escritores que hoje se encontram vulneráveis à Covid-19", justificam os autores do abaixo-assinado.

Mais de 22 mil mortos

No sábado, o Brasil chegou à marca de 22 mil mortos em decorrência do Covid-19. Em seu post, Pedro Almeida afirma que o covid-19, "pelo menos no Brasil, não causou mais mortes nem por doenças respiratórias nem por todos os motivos juntos". Segundo ele, não há "um dado claro que indique a necessidade de parar o país e ferrar com a economia por uma mortandade de pessoas, porque não há aumento de óbitos".

Muitos representantes do setor do livro consideraram as palavras de Almeida um desrespeito à memória do escritor Sérgio Sant'Anna, vencedor de cinco Jabutis, e que morreu vítima da doença no dia 10 de maio. Além de Sérgio, outros nomes importantes da literatura foram vitimados pelo vírus, como o compositor Aldir Blanc, o tradutor Fernando Py, e a tradutora Olga Savary.

— Eu fiquei realmente estarrecida quando li o post nas mídias sociais — diz Simone Paulino, editora da Nós. — Talvez porque ainda não me recuperei da morte do Sérgio Sant'anna, que não era amigo pessoal, mas que eu admirava profundamente e foi levado de nós por esse vírus maldito. Pra além disso, todos sabem o quanto a cadeia do livro está sofrendo. E tudo que a gente não precisa é de um curador do Jabuti que assuma uma atitude negacionista e flerte com ideias defendidas pelos genocidas que estão no poder.

Diversos escritores usaram suas redes sociais para criticar Almeida. O jornalista e romancista Sergio Rodrigues cobrou um posicionamento da Câmara Brasileira do Livro (CBL), responsável pela realização do Jabuti. Ricardo Lísias, um dos mais revoltados nas redes, disse que Almeida "envergonha o mundo do livro".

— Uma pessoa capaz de escrever isso está absolutamente desqualificada para ser curador de um prêmio literário — diz Lísias, que também prepara uma nota de repúdio. — É uma figura do lado obscuro da cultura que merece total repúdio.

Presidente da União Brasileira de Escritores (UBE), o curador está "negando a ciência".

— Como presidente da UBE, só posso lamentar, é inadmissível que o curador do mais importante prêmio brasileiro escreva essas bobagens.

Por meio da sua assessoria, a Câmara Brasileira do Livro (CBL) disse que vai se posicionar sobre o assunto em breve. Procurado pela reportagem, Pedro Almeida ainda não respondeu o pedido de entrevista.