Especial da TV Globo 'Histórias quase verdadeiras' traz episódios criados a partir de frases de Ariano Suassuna

Ariano Suassuna tinha "uma simpatia muito grande pelos mentirosos". Mas o escritor, morto em 2014, deixava claro: não se referia àqueles que mentiam para prejudicar os outros. "Gosto do mentiroso que mente por amor à arte", dizia, nas aulas-espetáculo que dava pelo país. Essas invencionices do bem de que ele tanto gostava foram o ponto de partida do filme "O auto da boa mentira", dirigido por José Eduardo Belmonte e lançado em 2021, que agora ganhou um novo tratamento e chega à TV Globo rebatizado de "Histórias quase verdadeiras", dividido em quatro episódios. Cada um tem cerca de eia hora (três apareciam no filme e um é inédito) e bebem na "boa mentira" e em causos e frases de Ariano Suassuna. Vão ao ar amanhã, terça, quinta e sexta-feira, sempre depois de novela "Travessia".

— Reeditamos um monte de coisas, ficou até mais legal. Agora, tem mais (cenas) de Ariano entre os episódios, nas aulas-espetáculo — diz José Eduardo Belmonte, que inseriu, no meio das narrativas, falas do escritor. — Suassuna era um contador de histórias nato. Tinha a capacidade de observar a cultura brasileira e fazer recortes dos costumes. E também um jeito muito particular de apreender a audiência.

O episódio inédito é o de quinta-feira, intitulado "Verdades no ar", que se passa num aeroporto e num avião - o tema do "avionismo", aliás, era uma constante nos causos de Suassuna, que tinha medo de voar. Nele, as amigas Ana Cristina (Zezé Polessa), Jô (Giulia Gam) e Maria Elizabeth (Cristina Mutarelli) viajam para Bariloche e, durante o vôo, as mentiras que elas contaram umas para as outras durante a vida começam a vir à tona.

— As histórias são exercícios dos roteiristas (João Falcão, Tatiana Maciel e Célio Porto) e do Belmonte em cima desses "causos" deliciosos do Suassuna. Elas levam a oralidade dele para as telas — diz a atriz Zezé Polessa.

"O Farsante" é o primeiro episódio e tem Leandro Hassum no papel de Helder, um subgerente de RH que é confundido com um comediante de sucesso e passa a gostar do novo papel. "Vidente", que vai ao ar na terça-feira, mostra a história de Fabiano (Renato Góes), um jovem cético que fica com a pulga atrás da orelha depois de saber de um mistério circense que envolve sua mãe (Cássia Kis) e seu pai, morto há anos. Já o de sexta-feira, "Mentira ou Consequência", traz a estagiária Lorena (Cacá Ottoni), que se sente invisível na agência de publicidade de Norberto (Luis Miranda) e sonha com o "pseudointelectual" Felipe (Johnny Massaro). O episódio brinca com uma frase do escritor paraibano sobre preconceito sofrido por quem nunca foi à Disney.

O filme que deu origem ao especial venceu o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro na categoria júri popular em 2022. A mudança de nome para a versão da TV, para Belmonte, foi uma decisão acertada.

— Acho até que "Histórias quase verdadeiras" diz mais sobre o projeto. Não são pessoas querendo enganar, são pessoas querendo sobreviver e que se enrolam. É diferente do mau hábito da mentira que ficou recorrente como estratégia de dominação — diz o diretor, que, desde o princípio, trabalhou com a possibilidade de o filme estar na TV. Por isso, gravou uma história e a deixou fora do longa. — Desde o começo, o projeto foi pensado em todos os formatos. Ele já ia virar série. Então, era era preciso deixar um material inédito. E também o filme já estava gigante. Só os da Marvel podem ter mais de 2h15 (risos).