ESPECIAL-Defensor indígena, isolado por Bolsonaro, Bruno Pereira deu a vida por indígenas "abandonados"

Indígenas da Univaja durante protesto em Atalaia do Norte

Por Jake Spring e Anthony Boadle

ATALAIA DO NORTE, Amazonas (Reuters) - Seis etnias indígenas do remoto Vale do Javari, na floresta amazônica, encheram uma sala em 11 de junho para lamentar o desaparecimento de Bruno Pereira, que aconselhava a associação que os representa, e Dom Phillips, jornalista britânico que escrevia sobre o trabalho de Pereira.

Patrulheiros nativos organizados por Pereira, ex-funcionário da Fundação Nacional do Índio (Funai), ainda estavam buscando sinais dos homens desaparecidos em um afluente da Amazônia que passa pela reserva.

Mas os indígenas tinham poucas dúvidas sobre o destino deles.

"Bruno morreu como nosso escudo, protegendo-nos e nosso território", disse Manoel Chorimpa, membro da tribo Marubo e organizador da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), falando a uma sala lotada de rostos perfurados e pintados, cocares de penas e guerreiros segurando lanças.

Três dias depois, um pescador que havia confrontado as patrulhas indígenas confessou ter matado Pereira e Phillips.

O choque com o duplo assassinato ecoou pelo Brasil e pelo mundo, destacando as mudanças feitas pelo governo do presidente Jair Bolsonaro na Funai, e também a onda de violência e incursões criminosas cada vez maiores em terras indígenas.

"Por que o governo não agiu antes do que aconteceu ao nosso irmão Bruno e ao jornalista?", questionou com raiva o chefe Arabonah Kanamari na assembleia da Univaja.

"Agora somos nós quem temos que policiar nosso próprio território. A Funai praticamente nos abandonou", afirmou.

O gabinete de Bolsonaro não respondeu ao pedido por comentário, mas ele deixou claro o seu desdém pela Funai e pela sua missão. Críticos de proteções às terras indígenas previstas na Constituição, que ele enxerga como uma barreira ao desenvolvimento econômico dessas áreas, Bolsonaro prometeu durante a campanha eleitoral de 2018, que o levou à Presidência, dar uma "foiçada no pescoço" da Funai, caso fosse eleito.

Registros públicos refletem sua abordagem, com cortes de funcionários e no orçamento da Funai desde que ele assumiu a Presidência. Novas administrações centralizaram e retardaram a aprovação de operações, o que torna mais difícil que ela responda rapidamente a relatos de extração ilegal de madeira, garimpo e caça ilegais, segundo os Indigenistas Associados, um grupo ativista sem fins lucrativos composto por funcionários antigos e atuais da agência.

A Funai não respondeu às perguntas sobre novas políticas ou sobre os relatos cada vez maiores de ataques em reservas indígenas.

A violência contra brasileiros indígenas e incursões ilegais às suas terras praticamente dobraram nos primeiros dois anos do governo Bolsonaro, em relação aos dois anos anteriores, segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Assassinatos de defensores de terras indígenas no Brasil saltaram para 10 em 2019 e 2020, em comparação com apenas cinco nos dois anos anteriores combinados, de acordo com o grupo de direitos humanos Global Witness.

"Desde que assumiu o poder, o presidente Bolsonaro começou a apoiar e proteger qualquer um que invada território indígena, sejam madeireiros, pescadores ou garimpeiros, que agora sentem que estão protegidos pelo Estado", afirmou Sydney Possuelo, especialista em tribos isolados e um ex-presidente da Funai.

CARREIRA INTERROMPIDA

Pereira começou a trabalhar na Funai em 2010 no Vale do Javari, uma área maior do que a Áustria que é casa da maior concentração de etnias indígenas isoladas no mundo.

Amigos e colegas indígenas dizem que ele se apaixonou pela região e pelo seu povo durante seus oito anos de trabalho lá. Vídeos de 2013 mostram Pereira com pintura facial desbotada andando descalço pela selva com membros de uma etnia local. O líder indígena Kora Kanamari disse que Pereira tomou a sagrada bebida psicoativa ayahuasca em rituais com a tribo Kanamari.

Em 2018, Pereira se mudou para Brasília para se tornar o chefe de operações da Funai para etnias isoladas e recentemente contatadas, mas seu trabalho logo entrou em conflito com o governo Bolsonaro.

No começo de 2019, Bolsonaro criticou publicamente agentes ambientais por destruírem equipamento confiscado de garimpeiros e madeireiros ilegais.

Em setembro daquele ano, Pereira trabalhou com a Polícia Federal em uma operação que destruiu 60 barcos usados por garimpeiros ilegais no Vale do Javari e em áreas próximas.

Alexandre Saraiva, então superintendente da PF no Amazonas, disse à Reuters que outras autoridades da Funai resistiram à operação até Pereira conseguir o apoio de promotores federais, que forçaram a agência a agir.

Três semanas depois, a Funai tirou Pereira de seu cargo, retirando sua autoridade e colocando sua carreira em dúvida.

A Funai não comentou sobre a operação ou sobre os motivos do rebaixamento de Pereira.

"Bruno estava triste", disse Beto Marubo, representante da Univaja em Brasília. "Ele sentiu que foi perseguido pela sua própria instituição."

Na época, Marubo disse que a Univaja estava com dificuldade para conseguir ajuda ao Vale do Javari da polícia e das agências governamentais, sem provas de atividades criminosas.

Ele pediu ajuda para documentar as invasões ao seu amigo Pereira, que pediu licença da Funai em 2020. Ano passado, eles estabeleceram uma operação de "vigilância indígena" para patrulhar a reserva.

Pereira ensinou os membros das etnias indígenas, muitos de aldeias remotas com compreensão limitada do português, a pilotarem drones e usarem aplicativos de celular para registrar invasões às suas terras.

E ele foi o autor de um relatório de 56 páginas visto exclusivamente pela Reuters, com data de novembro de 2021, detalhando suas conclusões sobre a primeira grande expedição da equipe.

Membros da equipe documentaram 67 sinais de atividades ilegais de caçadores e pescadores, de uma isca de anta a armadilhas para tracajás, junto com ovos e conchas raspados.

Eles fotografaram ancoradouros e acampamentos ilegais, alguns com suprimentos para salgar o peixe gigante pirarucu, cujas escamas e cabeças decapitadas foram deixadas para trás.

As evidências foram catalogadas e georreferenciadas, junto com os nomes e detalhes de identidade dos suspeitos de pesca ilegal.

Eliesio Marubo, advogado da Univaja, enviou o relatório à Funai e a promotores federais. Semana passada, após Pereira e Phillips desaparecerem, ele disse que promotores abriram uma investigação.

O trabalho da equipe de vigilância rapidamente atraiu a atenção de pescadores locais que vendem dezenas de peixes de água doce ameaçados de extinção no outro lado da fronteira com o Peru, nas proximidades. Pesca, garimpo e caça ilegais na região são muitas vezes financiadas por grupos criminosos que lavam dinheiro do narcotráfico cada vez maior entre as fronteiras, segundo as polícias estadual e federal.

Pereira recebia ameaças há anos, mas disse a organizadores da Univaja que o volume delas estava crescendo.

Em abril, uma carta anônima chegou aos escritórios da Univaja explicitamente contra ele e Beto Marubo.

"Eu sei que Beto, o Índio, é contra nós e que Bruno da Funai é um dos que manda os índios confiscarem nossos motores e levarem nosso peixe", disse a carta. "Se quiserem causar danos, é melhor estarem preparados. Vocês foram avisados."

A Univaja não confiscou motores ou peixes, mas seus relatórios podem ter levado autoridades a realizarem confiscos, disse Eliesio Marubo, que compartilhou os detalhes da carta.

ENCONTRO ARMADO

Pereira e Phillips observavam o trabalho das patrulhas indígenas quando chamaram a atenção de um pescador armado, disseram quatro patrulheiros que testemunharam seus últimos dias à Reuters, sob a condição de anonimato, por medo de represálias.

Primeiro, Phillips e Pereira se encontraram com uma equipe de vigilância no rio Itacoaí em 2 de junho, três dias antes de desaparecerem. Phillips lhes disse que estava documentando os esforços dos indígenas para proteger a Amazônia para um livro.

No dia seguinte, a dupla observou os patrulheiros mapeando as ramificações sinuosas do rio, mostrando como eles registravam evidências de pesca e caça ilegais.

Aproximadamente às 6h, em 4 de junho, a equipe viu o pescador Amarildo da Costa e dois outros homens passarem em um barco na direção da reserva, cujo acesso é proibido a pessoas de fora sem permissão.

Phillips e Pereira, que não tinham planos de entrar na reserva, ficaram para trás quando a equipe indígena, usando balaclavas para proteger suas identidades, perseguiam o barco de Costa.

Percebendo a abordagem, Costa e seus companheiros pararam e levantaram dois rifles de caça com gestos intimidadores.

A equipe de vigilância recuou e relatou o incidente à polícia, que não agiu imediatamente.

Pouco depois, eles retornaram a uma casa isolada na margem do rio, que servia de base de operações.

Pereira estava lá sentado no cais, sem máscara e à vista do rio, quando Costa passou em um barco e o avistou junto com a equipe, menos de uma hora depois do encontro armado.

Apesar de os patrulheiros temerem pela segurança deles, Phillips e Pereira partiram ao amanhecer do dia seguinte, em direção à cidade próxima de Atalaia do Norte, segundo os patrulheiros.

Um relatório da polícia visto pela Reuters disse que uma testemunha rio abaixo viu o barco de Pereira sendo seguido pelo de Costa dois minutos depois.

Pereira e Phillips nunca mais seriam vistos com vida.

Preso três dias depois por porte de armas, Costa confessou o assassinato dos homens, disse a polícia.

Na quarta-feira, ele levou os investigadores ao local onde estavam os restos dos dois mortos.

(Reportagem de Jake Spring em Atalaia do Norte e Anthony Boadle em Brasília; Reportagem adicional de Ricardo Brito e Isabel Versiani em Brasília, e Gabriel Stargardter no Rio de Janeiro)

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