Sem aprovação popular, Bolsonaro até agora só conseguiu gritar, diz cientista política

Presidente Jair Bolsonaro participa de protesto contra Congresso Nacional e STF (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)

No domingo (3), o presidente Jair Bolsonaro participou de ato contra a democracia, realizado em frente ao Palácio do Planalto. Do alto da rampa, durante o protesto contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso Nacional, Bolsonaro fez uma transmissão em suas redes sociais e chegou a dizer que tem as Forças Armadas “ao nosso lado”. No ato, equipes de imprensa foram agredidas verbalmente ou com socos e chutes.

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O cenário intensificou comparações do governo Bolsonaro com regimes ditatoriais, principalmente com o governo do ex-presidente Hugo Chávez, na Venezuela. O presidente brasileiro vem sendo acusado de praticar um “chavismo de direita”.

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Deysi Cioccari, cientista política e pós-doutora em Comunicação, acredita que não.

“Não diria que o bolsonarismo é um chavismo de direita. Bolsonaro me parece ter mais semelhanças com Fujimori. Essa obsessão com Congresso é mais característica do Fujimori. Mas tem uma diferença aí: Fujimori tinha mais de 50% de aprovação popular e conseguiu combater o Sendero Luminoso, que era um grande problema para o país. Bolsonaro tem 27% de aprovação e até agora só o que conseguiu fazer foi gritar e acirrar os ânimos”, diz.

Entre as semelhanças dos governos de Bolsonaro e de Chávez, Cioccari aponta que os dois eram militares e tinham como hábito convocar as massas. “Mas reduzir a comparação a isso e creditar o Bolsonaro a um chavismo é reducionismo histórico. Uma das semelhanças é que os dois atacam universidades, o pensamento. Os ataques à imprensa sempre existiram. Lula passava o dia atacando a Globo, Collor passava o dia xingando a Folha”, cita. 

Segundo ela, Bolsonaro, por outro lado, tem muita semelhança com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no uso das redes sociais, e com o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, nessa frente de direita populista e autoritária.

No entanto, Deysi Cioccari, que é professora da Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, alerta para o perigo da comparação entre governos, já que “nenhuma metáfora é perfeita”. 

“Bolsonaro é um fenômeno novo no Brasil e a gente tem que ter cuidado em analisar”. 

Ela também avalia que “Bolsonaro faz uma aposta arriscada de criticar as medidas de isolamento, com a ideia de tomar a frente de uma revolta popular que pode surgir, se o país não formular uma política assistencial para compensar as perdas de renda”.

“Bolsonaro joga com essa convulsão e, aí sim, pode conseguir apoio popular e mudar alguns cursos. Por enquanto, não tem apoio popular suficiente e as instituições, mesmo atacadas, se mantêm fortes. Um líder popular autoritário que tem 70% de aprovação é mais perigoso que alguém que tem 27%, como Bolsonaro”, considera. 

DEMOCRACIA EM XEQUE?

Além disso, o descontentamento com o funcionamento da democracia e o crescimento do radicalismo político se tornaram fenômenos globais. De acordo com Deyse, isso é resultado de um distanciamento do poder público das necessidades da população. Sobre o risco de um novo golpe, a professora não descarta a possibilidade.

“O problema no Brasil é essa fragmentação partidária, nossos partidos e políticos, surdos pra população, com seus projetos pessoais de poder. Temos a sensação de que não estão ouvindo as pessoas nem resolvendo seus problemas. Nós vivenciamos uma tempestade perfeita nos últimos anos: corrupção, crise política, alta fragmentação partidária e a economia que não andava bem. Acredito que com o aumento da polarização e a intolerância vamos a passos largos para uma intervenção. Que Bolsonaro quer se perpetuar no poder a gente já entendeu. Precisamos agora é lutar pela democracia e exigir que o sistema funcione”, diz.

Para ela, a democracia brasileira é forte, recente, mas incompleta.

“Temos desconfiança demais. Os estudos na ciência política sugerem que a atitude dos cidadãos com relação à política democrática depende do impacto do funcionamento concreto tanto das instituições como de governos. Ou seja, enquanto as instituições não ouvirem a população é natural que essa população não os queira. Os projetos pessoais de poder precisam ficar de lado e a gente tem que ouvir as pessoas”, avalia.

INSTITUIÇÕES FORTES

O papel da instituições é fator predominante para conter práticas autoritárias, ressalta Deysi. Ela menciona que nosso sistema político é baseado no princípio de feios e contrapesos, de Montesquieu, em que os três poderes são independentes e não há uma hierarquia. “O homem, quando tem poder, tende a abusar dele”, já dizia o filósofo francês, em 1748.

“A delimitação de atuação dos três Poderes é uma garantia de que se pode esperar previsibilidade dos atos estatais, de que o uso do poder não será feito de maneira arbitrária e que as demandas estabelecidas serão, efetivamente, cumpridas”, afirma.

No Brasil, por enquanto, esse sistema tem funcionado, garante a professora, e as instituições ainda são fortes.

“Nós tivemos dois impeachments e se tem algo que veio como resultado disso foi o fortalecimento das instituições”.

“Mas temos solavancos que precisam de controle. Abraham Lincoln [ex-presidente dos Estados Unidos] falava que tinha medo de que à medida que as lembranças da revolução ficavam para trás, a liberdade da Nação era ameaçada por desprezo às instituições. Essa preocupação existe e nos ronda. Mas enquanto ainda pudermos ver o Congresso reagindo e o STF impondo limites a uma política personalista e à falta de aceitação do contrário, a gente pode confiar que o sistema funciona”.

Mas, ela destaca que esse sistema vem sendo atacado. “Quando os Poderes, que antes possuíam um limite de atuação, passam a agir fora dele, invadindo a esfera institucional um do outro, os Poderes se enfraquecem”, atenta. 

O presidente Bolsonaro reclama, constantemente, da extrapolação de funções por parte do Judiciário e do Legislativo. Cita, como exemplo, a recente decisão do STF que barrou a nomeação de Alexandre Ramagem para a direção-geral da Polícia Federal. No caso do Legislativo, a disputa é, principalmente, em relação ao Orçamento, visto que atualmente, o Congresso consegue direcionar uma grande parcela dos investimentos públicos, previstos no Orçamento Impositivo.

“O ativismo, tanto por parte do presidente, do Judiciário ou do Legislativo não deve se sobressair. Há um elemento de princípio que jamais pode ser violado: o respeito às regras preestabelecidas e ao desenho institucional”, reitera Cioccari. 


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