Especialistas alertam para a necessidade de reestruturação da vacinação contra a gripe para evitar aglomerações

Celia Costa
Idosos enfrentam fila quilométrica para tomar vacina contra a gripe em posto de Copacabana em 23/03

A decisão do Ministério da Saúde em antecipar a campanha de vacinação contra gripe acabou sendo atropelada pela disseminação acelerada da Covid-19. O objetivo de imunizar primeiro as pessoas com mais 60 anos, grupo com risco de agravamento da doença, acabou provocando um efeito colateral. Com estados como Rio de Janeiro em quarentena, houve uma corrida aos postos e aglomeração de pessoas, o que contraria as regras de isolamento social. Adiar a vacinação é uma medida inimaginável pelos cientistas. A Influenza mata. O que é prioridade agora é organizar e estruturar os pontos de imunização contra a gripe.

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A Campanha Nacional de Vacinação contra Influenza sempre é iniciada em meados de abril, quando começam a surgir os casos de gripe. Para proteger os idosos, que normalmente são imunizados no começo de maio, o Ministério da Saúde inverteu a ordem de público-alvo. 

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A medida tinha o objetivo de protegê-los e evitar que precisassem fazer deslocamentos no período esperado de provável circulação do vírus no país. A imunização era para ser feita no período de prevenção à Covid-19, mas acabou coincidindo com o momento da propagação mais acelerada do novo coronavírus, também chamado de Sars-Cov-2.

As longas filas em postos levaram a questão do adiamento da campanha como uma opção. O epidemiologista Roberto Medronho, professor da UFRJ, no entanto, alerta que é preciso capilarizar a rede de vacinação para evitar as aglomerações e filas. Medronho diz que é importante manter a campanha, mas não pode uma pessoa ir se imunizar contra a Influenza e sair do posto infectado pelo coronavírus. 

 — A ideia é criar o maior número de postos e criar estratégias para não haver aglomerações. As farmácias, por exemplo, que estão abertas poderiam ser transformadas em pontos. É preciso deixar claro também que a vacinação começa pelos idosos, mas não para. Eles poderão ir aos postos durante todo o período — avisa o médico.

O epidemiologista frisa ainda que é necessário se imunizar contra a Influenza: 

—  Somente a H1N1, um dos vírus que compõem a vacina, matou 796 brasileiros no ano passado. A vacinação, além de prevenir contra uma doença que causa óbitos, facilita o diagnóstico diferenciado. Diante de um quadro gripal, o médico pode descartar a Influenza nos indivíduos que foram imunizados e tratar da Covid-19.

Para o infectologista Alberto Chebabo, professor da UFRJ e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, não há possibilidade de pensar em atrasar a imunização.  

— É preciso se organizar, criar mais estrutura. As pessoas precisam ser orientadas. Caso chegue ao posto e encontre aglomeração, deve retornar em outro momento. Se tiver filas, é preciso fazer marcações para que todos mantenham o distanciamento necessário — explica Chebabo.

Em 2020, segundo o levantamento do Ministério da Saúde, até o dia 29 de fevereiro, foram registrados 90 casos de influenza A (H1N1)  e 6 óbitos no Brasil. O estado de São Paulo concentra o maior número de casos de H1N1, com 28 notificações. Em seguida estão o estado da Bahia, com 14 casos, e o estado do Paraná, com 12 casos e 5 óbitos. O sexto óbito foi registrado no estado do Maranhão, que registrou 1 caso. As informações são preliminares e sujeitas a alterações. No mesmo período, em 2019, foram registrados 146 casos de influenza A (H1N1) e 24 óbitos no país.