Especialistas analisam laudo da morte de juíza e apontam, além de brutalidade, semelhança na ação de ex-marido à de outros agressores

Vera Araújo
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RIO — Os ferimentos direcionados ao rosto de vítimas de feminicídios são mais comuns entre estes criminosos, de acordo com a delegada Sandra Ornellas, diretora do Departamento Geral de Polícia de Atendimento à Mulher (DGPAM) da Polícia Civil. Perguntada sobre o tema, do qual é especialista, ela lembrou que autores de livros sobre o feminicídio trazem em seus estudos os chamados gestos simbólicos. O GLOBO publicou, com exclusividade, neste sábado, o resultado do laudo do exame de necropsia da juíza Viviane Vieira do Amaral Arronenzi, de 45 anos, morta pelo ex-marido, o engenheiro Paulo José Arronenzi. Ficou comprovado, por meio do exame feito pelo Instituto Médico-Legal do Rio (IML), que o agressor desferiu 16 facadas contra a vítima, a maioria no rosto.

— Na relação extremamento desigual, quando a vítima contesta o desejo do autor, a ideia dele é tirar a pessoa do mundo. Não só matando, mas desfigurando, atingindo o que ela é, na forma em que ela se apresenta. Os ataques no rosto lembram (a ele) o que a mulher fazia. A boca, por exemplo, o lembra da fala — disse a delegada.

Ao analisar o laudo de exame de necropsia da magistrada, a pedido do GLOBO, o psiquiatra forense e médico legista aposentado Talvane de Moraes destacou o ódio com que o agressor desferiu os golpes na ex-mulher:

— A quantidade de ferimentos, 16 facadas, demonstra uma descarga de ódio muito grande, sem falar que, quem usa uma arma branca, no caso uma faca, é porque deseja que a pessoa sofra. A morte por este instrumento não ocorre de imediato, a não ser que a pessoa seja atingida no coração. É cruel, pois o agressor assiste a agonia da vítima — explicou o especialista.

Segundo o laudo, a morte foi decorrente de hemorragia aguda por ferimento no pescoço, que atingiu a jugular. Talvane chama atenção para os cortes serem, em boa parte, no rosto:

— O propósito era demonstrar superioridade em relação à vítima, deixando-a com o rosto transfigurado. As marcas nas palmas das mãos são comuns nesses casos, porque as pessoas tentam usá-las para se defender. Já as equimoses no corpo da magistrada revelam que o criminoso também deu socos na vítima — concluiu.