Especialistas comentam sobre como o convívio intenso na pandemia afeta os momentos de privacidade tão importantes

Talita Duvanel
Privacidade em tempos de quarentena

Milena*, de 9 anos, tem dormido mal nesta quarentena e, dia desses, um barulho incomum para os seus ouvidos infantis a despertou. Vinha do quarto dos pais, cuja porta aberta foi um convite para que entrasse. Meio sonolenta, viu a cena: a mãe, Raquel*, e o pai, João*, estavam transando. “Foi um vacilo nosso, mas é que ela sempre teve um sono muito pesado, nunca foi acordada com nada”, explica Raquel.

Antes da pandemia de Covid-19, o repouso profundo de Milena garantia ao casal momentos de prazer sem paranoias. Mas isso foi outra coisa que o novo coronavírus alterou na vida de várias famílias de classe média: a privacidade, aquele momento de estar sozinho (ou a dois) para fazer (ou não fazer) o que quer que seja, sem a interferência de tantas vozes e demandas 24 horas por dia.

Para a a psicanalista e professora da FAAP, em São Paulo, Maria Homem, a modernidade trouxe a ideia de que a individualidade depende de um momento de silêncio e do mundo ao redor. “Antes, o universo psíquico era mais poroso, com deuses oniscientes e onipresentes penetrando nossa alma. Então, foi uma grande conquista moderna a invenção da subjetividade privatizada.”

Na casa da professora de Educação Física Daniela Chaseliov, de 48 anos, os três moradores (ela, que é separada, e os filhos João Pedro, de 15 anos, e João Guilherme, de 10) têm sofrido com perda de momentos de intimidade interpessoais, antes proporcionados pelos variados horários dos meninos. “Eles estudavam em turnos diferentes, e era bom porque eu tinha um tempo sozinha com cada um. Isso me faz muita falta”, desabafa Daniela, que também sente saudades do tempo que tinha para si. “Com eles em casa, não tenho um minuto, e olha que não são bebês.”

Daniela — e muitos pais — não reclamam sozinhos. Os filhos adolescentes, privados das atividades diárias e muitas vezes sufocados com a companhia em tempo integral dos mais velhos, também estão aprendendo a lidar com a dinâmica temporária. “Tinha uma rotina agitada, e essa pausa foi um choque”, diz João Pedro, o primogênito da professora. “A relação com a minha mãe se intensificou. Ela sempre entrou no meu quarto, estou acostumado, só que agora é mais constante. Está sempre pedindo ajuda com internet, querendo que eu faça o dever de casa com meu irmão.”

A psicóloga e subcoordenadora da pós-graduação em Psicologia da UFMG, Ingrid Gianordoli-Nascimento, salienta que em cada momento da vida construímos relações de privacidade diferentes e comenta a fase da adolescência. “Os jovens, por si só, querem mais autonomia, além de testar limites sozinhos. Nesse momento de pandemia, há um questionamento dos pais de que eles só querem ficar no quarto, falando com os amigos, mas isso não está exacerbado no confinamento”, diz Ingrid. “Está na mesma proporção, a diferença é que eles não podem fazer isso em outro ambiente, além do doméstico.”A perda de território e espaços a sós não é uma realidade apenas entre casais e famílias com crianças e adolescentes. Lares com adultos também têm sido palco para dilemas quando todas as vidas passam a comungar do mesmo espaço-tempo. É o caso do ator e produtor cultural Breno Motta, de 35 anos, que se mudou do Rio para a casa dos pais em Juiz de Fora (MG) assim que o isolamento começou a se desenhar. Tanto ele, quanto a mãe, o pai e o irmão estão aprendendo a entender os horários e os momentos de cada um. “Tem sempre gente em casa e, às vezes, quero ficar sozinho. Essa dinâmica acaba se intrometendo na minha vida”, relata Breno. “Estou fazendo um curso on-line e toda hora entra alguém no quarto: meu pai falando alguma coisa, minha mãe perguntando se eu não vou jantar. Isso era algo que eu não vivia há 12 anos, quando fui morar sozinho.”

A despeito dos conflitos inerentes à falta de solitude (que é diferente de solidão, pois é “a necessidade real de estar consigo mesmo”, explica Ingrid Gianordoli-Nascimento), um aspecto interessante tem surgido: a redescoberta dos laços sociais íntimos. “A partir do momento em que vivemos aqui e agora, dentro de casa, parece que ao mesmo tempo o mundo se expande e também sofre um encolhimento”, diz Maria Homem.

Na prática, Raquel, a mãe do início dessa matéria, concorda: “Isso trouxe novos hábitos legais de relacionamento. Numa rotina normal, cada um chegava em casa, jantava, tomava banho e ia dormir. Hoje, quando acaba o trabalho, vamos para a rede, conversamos sobre a vida, perspectivas. Até queria manter isso depois da pandemia”.

Nem tudo está perdido.

*Os nomes foram alterados a pedido dos entrevistados