Especialistas criticam campanha de imunização contra a Covid-19 no Rio: 'Uma bagunça'

Rodrigo de Souza
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Após a suspensão da campanha de vacinação contra a Covid-19 no Rio de Janeiro, anunciada pelo prefeito Eduardo Paes nesta quinta-feira (11), O GLOBO ouviu especialistas para saber quais seriam as medidas necessárias para desfazer o gargalo da imunização do Rio. Entre as razões apontadas pela Secretaria municipal de Saúde (SMS) para o adiamento da campanha, está a vinda de residentes de outros municípios em busca da vacina.

— No Sistema Único de Saúde (SUS), é um direito das pessoas se vacinarem. É um sistema único, público e universal, a gente não deve diferenciar quem deve se vacinar ou não pelo local de moradia da pessoa — afirmou o secretário municipal de Saúde Daniel Soranz ao GLOBO nesta sexta-feira.

Segundo o advogado Paulo Almeida, diretor executivo do Instituto Questão de Ciência (ICQ), as administrações municipais podem exigir comprovação de residência se for necessário.

— Pelo Plano Nacional de Imunização, os municípios estão encarregados tanto da propaganda local, na difusão de informações, quanto de definir as regras da vacinação em seu território. Isso ficou ainda mais escancarado quando o STF confirmou, no contexto da pandemia, que os municípios e os estados têm liberdade para legislar dentro de seu próprio âmbito.

Para ele, nos lugares onde há problemas de distribuição de vacina, como no Rio de Janeiro, um controle maior é "quase uma obrigação":

— Não é porque o SUS é gratuito que ele precisa ser desorganizado. O desabastecimento é péssimo porque você pode perder a janela de eficácia para a qual a vacina foi testada.

Segundo Almeida, os municípios precisam dar atenção a dois principais aspectos da distribuição de vacinas: a garantia de um mínimo de frascos para os vacinantes que tomarão as primeiras injeções e a reserva de doses para aqueles que já tomaram a primeira e necessitam de uma aplicação de reforço.

— Não fazer isso, no limite, é improbidade administrativa. Porque é falta de responsabilidade perante aos cidadãos. O habitante do Rio de Janeiro que mora perto do postinho corre o risco de ficar sem vacina porque veio um cara do interior do estado e tomou a dianteira na capital porque lá tem maior disponibilidade — diz ele.

Para a especialista em Saúde Pública da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Lígia Bahia, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) está fazendo uma "bagunça" na campanha de imunização contra a Covid-19.

— O que a secretaria está fazendo é uma baita confusão. Estão colocando uma nova idade em cada dia, e ninguém faz isso. O que existe são grupos: acima de 80, acima de 75... É um calendário vacinal totalmente heterodoxo. Por exemplo, se você for vacinar com duas doses todas as pessoas acima de 80 anos só no Rio de Janeiro, os frascos já não seriam suficientes. Empurrando para a frente, vacinando uma nova idade por dia, parece que estamos vacinando rápido, mas não. Para trás, existe uma porção de gente de 80, 89 anos que ainda não foi vacinada — explica Bahia.

Segundo ela, a estratégia de imunização do Rio de Janeiro é problemática em termos de cobertura vacinal:

— Agora, dizem que as vacinas do Rio foram disputadas por pessoas de outros municípios, mas não é nada disso. Realmente são poucas, no Brasil inteiro. Mas a secretaria tem optado por fazer isso: solta as doses, depois diz "acabaram as doses", e em seguida recomeça. O que acontece é que as pessoas que já foram ao posto duas, três vezes para conseguir uma dose vão desistir de se vacinar.

Tanto Almeida quanto Bahia defendem um modelo de vacinação que usa um cadastramento prévio. Adotada em países como Argentina, Chile, Índia e Estados Unidos, a estratégia permite que os vacinantes sejam organizados por idade e local de residência, e então convocados para ir ao posto segundo sua posição na fila.

— O nosso modelo gera expectativa, frustração e desistência de vacinação, principalmente em quem mais precisa, os idosos — conclui Bahia.

Segundo Daniel Soranz, todos os imunizados do município estão cadastrados num banco de dados nacional, o Cadweb SUS, que permite, por exemplo, a identificação do município de origem de cada vacinado. Mas esse cadastro não é usado para a convocação organizada dos vacinantes.

— A maioria dos países não trabalha com o agendamento. No Brasil, fazemos nossas campanhas com as datas exatas. E até agora não tem nada que comprove que esse agendamento seria melhor ou evitaria complicação. Grande parte da população não tem acesso aos meios eletrônicos. A vacinação no Brasil está funcionando de uma maneira bastante adequada, sem agendamento prévio — diz o secretário.