Especialistas criticam narrativas de museus e atrações turísticas que relativizam o passado escravocrata em Ouro Preto

Na maior cidade histórica mineira é possível encontrar, em sua principal mina de ouro aberta à visitação, um recorte de revista, de 2004, sem procedência, que compara senhores de escravos a gerentes de Recursos Humanos do século XXI. Alguns museus e pontos históricos de Ouro Preto, a cem quilômetros de Belo Horizonte, passaram incólumes por discussões que movem pesquisadores e acadêmicos no mundo todo sobre apagamento e reparação na História. Curiosamente, a cidade universitária de 75 mil habitantes tem como atrativo turístico mais forte justamente a preservação do visual, da arquitetura e das rotas planejadas sobretudo no século XVIII.

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O museu mais importante da região, o da Inconfidência, por exemplo, exibe um objeto de castigo a escravizados ao lado de um castiçal — como se as peças fossem equivalentes, itens do lar. As placas informativas, por sua vez, simplesmente trazem o ano e uma breve descrição da obra — sem contextualizar que a cidade foi uma das mais importantes colônias de escravos do país. E quando se trata da escravidão, a narrativa minimiza a violência do período.

— A exposição de objetos de sevícia, sem a explicação do contexto e da violência desse tipo de instrumento, é um traço de como nossas instituições ainda são profundamente coloniais — diz a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz. — É um desrespeito às populações que foram submetidas a todo tipo de maus-tratos.

O atual diretor do Museu da Inconfidência, que é uma instituição federal, reconhece a historiografia anacrônica do local e diz que ela “deve acabar em breve”. No posto desde março deste ano, o professor da Universidade de Brasília (UnB) e doutor em filosofia Alex Calheiros disse ao GLOBO que deseja revisar as narrativas que a instituição apresenta ao público:

— O museu tem um acervo rico e raro, mas com uma narrativa feita a partir do ponto de vista das classes altas. Desde a primeira sala, a “Das Origens”, mostra sesmarias e uma religiosidade exclusivamente católica, sem levar em conta nem os sincretismos.

A atual diretriz museológica da instituição termina neste ano e a meta, segundo o diretor, é atualizá-la no marco do novo plano quinquenal.

— A recontextualização será feita com cuidado e em diálogo com a comunidade — garante ele.

Calheiros ressalta que a nova narrativa dará mais ênfase às chagas de negros e indígenas e também ao papel das mulheres na Inconfidência Mineira.

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Na mina de ouro do Chico Rei, que, segundo a história oral local, teria sido adquirida por um escravo após ele ter comprado a própria alforria, o visitante encontra logo na chegada um recorte de reportagem intitulada “Manual do senhor de escravos”.

O texto estabelece paralelos entre a dificuldade de se comandar um escritório onde pessoas são “recompensadas com dinheiro” a escravos. Estes são descritos como “funcionários” que levam “umas chicotadas nas costas”. Não há explicação dos guias sobre este conteúdo.

Para o historiador e militante do movimento negro Douglas Belchior, a existência do texto e sua exibição escancaram o racismo.

— De onde vem a tranquilidade de se mostrar um texto que relativiza a violência da escravidão e retrata o período de maneira folclórica? Isso só é possível pois o racismo segue desumanizando os negros — diz Belchior, que defende que roteiros do período colonial sejam feitos de modo crítico.— Tal como a Alemanha faz com o nazismo, é importante lembrar o passado, mas mostrar claramente que foi algo errado para não se repetir.

Pouco oficial

Parte do problema de Ouro Preto, segundo especialistas ouvidos pelo GLOBO, vem da “informalidade excessiva” em seus destinos turísticos. Os ingressos da mina de ouro, por exemplo, são negociados previamente nas ruas por guias posicionados em esquinas estratégicas para atrair os turistas.

Nas igrejas, quem cobra o ingresso são as próprias secretarias dos templos. Quem busca algum dado histórico ou artístico precisa contatar os guias locais, sem valor fixo. Na fala, repetem mitos locais sem citar fontes de estudo. Procurada, a prefeitura de Ouro Preto não retornou.

— A conexão entre as atrações turísticas e o conhecimento acadêmico é fundamental para um país que ainda procura se encontrar na sua história e está visivelmente perdido — diz o jornalista Lucas Figueiredo, autor do livro “O Tiradentes”. — Para o turista, faria mais sentido sair da cidade com uma reflexão sobre a história do país e a escravidão.

Outras cidades e instituições têm repensado as narrativas históricas. A Pinacoteca do Estado de São Paulo, por exemplo, incluiu descrições em obras que podem ser consideradas “violentas e ofensivas”. No quadro “Preta quitandeira”, de 1903, é dito que a Pinacoteca opta por exibir essas obras com o objetivo de revisar a história do museu, debatendo criticamente seu conteúdo. Na Holanda, o Rijksmuseum adotou 77 placas em obras que guardam relações com a escravidão.

— Alguns países encenam o passado com a função de reconectar um local com aquilo que foi. É reescrever a história em tempo real. Entende-se assim a região como (de fato) ela foi — diz Saulo Goulart, doutor em história cultural.

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