Especialistas da OMS pedem à China mais dados sobre casos iniciais de covid-19

Nina LARSON
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Peter Ben Embarek, chefe da delegação da OMS que visitou a China para investigar as origens da pandemia, em entrevista coletiva em 12 de fevereiro de 2021 em Genebra

Especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) pediram à China mais dados sobre os casos iniciais de covid-19, informou à AFP neste sábado (13) o chefe da recente missão de investigação que viajou para a cidade de Wuhan.

"Queremos mais dados. Pedimos mais dados", revelou Peter Ben Embarek, que liderou a missão à cidade onde o novo coronavírus surgiu oficialmente.

“Existe um misto de frustração, mas também de expectativas realistas, em termos do que pode ser feito tendo em conta as exigências de tempo”, disse o especialista, que espera que estes dados brutos sejam divulgados posteriormente.

A missão de quatro semanas em Wuhan encerrou seu trabalho na segunda-feira, sem conclusões claras.

Oficialmente, a pandemia, que já matou cerca de 2,4 milhões de pessoas no mundo, surgiu entre os morcegos, que poderiam transmiti-la aos humanos por meio de outro mamífero.

As autoridades informaram que o vírus foi detectado em Wuhan em dezembro de 2019, mas há dúvidas se já não circulava anteriormente.

A equipe de especialistas determinou que não houve grandes surtos de covid-19 em Wuhan ou em qualquer outro lugar antes de dezembro de 2019, mas não descartou que talvez houvesse casos isolados.

- "Tentando entender" -

Ben Embarek disse que a equipe gostaria de ter acesso a dados brutos sobre doenças como pneumonia, gripe e febre na cidade, que talvez pudessem dar mais clareza sobre o início da pandemia.

Antes da missão, os cientistas chineses identificaram 72.000 desses casos entre outubro e dezembro. Mas depois de uma triagem completa dos casos, eles chegaram à conclusão de que apenas 92 pacientes apresentaram de fato sintomas da covid-19. Destes 92, 67 foram capazes de passar nos testes sorológicos. Todos deram negativo para o coronavírus.

Ben Embarek explicou à AFP que a equipe não poderia, no entanto, ter acesso aos critérios específicos usados.

"Estamos tentando entender como caiu de 72.000 para 92", declarou.

Outro especialista da equipe, o epidemiologista britânico John Watson, disse que houve uma "discussão franca e ampla" sobre o acesso a todos aqueles dados brutos, mas esclareceu que focar excessivamente nisso pode ser injusto. Os chineses compartilharam "muitos detalhes" sobre seu trabalho, métodos e resultados.

“Com isso não quero dizer que necessariamente nos deram todos os dados que desejaríamos, mas é um processo que está em desenvolvimento”, continuou, afirmando que espera que mais dados cheguem.

No entanto, outro membro da missão, Peter Daszac, negou neste sábado que tenha havido disputas entre a equipe internacional e seus pares chineses sobre o acesso aos dados.

"Essa NÃO foi minha experiência na missão @OMS", tuitou, acrescentando: "SIM, tivemos acesso a novos dados importantes."

- Provas irrefutáveis? -

Por outro lado, Ben Embarek reconheceu que teria sido "fantástico" realizar esta missão mais cedo, mas lembrou que quando ocorrem surtos da doença, a primeira coisa a fazer é tratar os doentes, não tentar descobrir o que aconteceu.

Ele também disse que teria sido impossível investigar qualquer coisa durante os primeiros meses da epidemia, quando Wuhan estava confinada.

Embarek explicou que a tentativa de realizar investigações "em paralelo" deve ser considerada, salientando que "não é tarde demais". “Ainda há muito a aprender, muito a descobrir”, insistiu.

E embora Watson concordasse que descobertas ainda poderiam ser feitas, ele descartou que os especialistas iriam encontrar "provas irrefutáveis" e determinar exatamente onde e quando o vírus passou dos animais para os humanos.

Isso é algo "muito irreal", frisou.

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