Especialistas da ONU pedem que Canadá e Vaticano investiguem túmulos de crianças em internatos indígenas

·2 minuto de leitura
Cerca de 150.000 crianças ameríndias, mestiças e inuítes foram matriculadas à força para essas escolas, onde foram separadas de suas famílias, de sua língua e de sua cultura

Especialistas das Nações Unidas instaram nesta sexta-feira (4) o Canadá e o Vaticano a conduzirem investigações rápidas e completas após a descoberta de túmulos sem nome em um internato religioso para crianças indígenas no oeste do Canadá.

“Instamos as autoridades a realizarem investigações rápidas e exaustivas sobre as circunstâncias e responsabilidades das mortes, incluindo análise forense dos restos mortais encontrados, e a prosseguir com a identificação e registro das crianças desaparecidas”, indicaram os nove especialistas.

Os túmulos sem nome de 215 crianças foram descobertos em Kamloops na semana passada, usando radares.

Os peritos solicitaram a Ottawa que realizasse investigações semelhantes em todas as pensões para indígenas no Canadá, indicando que as vítimas têm o direito de saber a magnitude de todas as violações ocorridas.

“A justiça deve realizar investigações criminais sobre todas as mortes suspeitas e acusações de tortura e violência sexual contra crianças levadas aos internatos, processar e punir aqueles que cometeram os crimes e aqueles que os esconderam e ainda estão vivos”, acrescentaram.

Entre os especialistas estão os relatores especiais para os direitos dos povos indígenas, para exploração infantil e para maus-tratos e o presidente do grupo de trabalho sobre desaparecimentos forçados.

“É inconcebível que o Canadá e a Santa Sé deixem esses crimes hediondos sem punição e reparação total”, observaram.

O antigo internato Kamloops, na Colúmbia Britânica, foi um dos 139 estabelecimentos desse tipo estabelecidos no país no final do século 19, e eles existiram até a década de 1990.

Em 2018, parlamentares canadenses aprovaram uma moção para pedir desculpas pessoais ao Papa Francisco em nome da Igreja Católica canadense, após uma primeira rejeição do pontífice, que causou a decepção do primeiro-ministro Justin Trudeau.

Em 2009, o Papa Bento XVI expressou sua condenação pelos abusos de crianças indígenas canadenses - índios, mestiços e inuits - pela Igreja Católica, e denunciou a conduta "deplorável" de alguns membros do clero.

Cerca de 150.000 crianças ameríndias, mestiças e inuítes foram matriculadas à força para essas escolas, onde foram separadas de suas famílias, de sua língua e de sua cultura. Em 2015, uma comissão nacional de inquérito chamou esse sistema de "genocídio cultural".

rjm/vog/eg/tjc/ap