Especialistas dizem que reabertura de áreas de lazer na orla reforça necessidade de fiscalização, uso de máscaras e distanciamento

Selma Schmidt
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Leo Martins / Agência O Globo

RIO — Depois de um mês fechadas por causa do avanço do novo coronavírus, as pistas da orla vão voltar a funcionar como áreas de lazer neste fim de semana. Desde o dia 10 de dezembro, elas estavam liberadas para os veículos, e moradores e turistas estavam impedidos de fazer os habituais passeios à beira-mar. Enquanto em outros países as restrições aumentam diante da segunda onda de Covid-19, aqui a nova gestão do prefeito Eduardo Paes, como adiantou a coluna de Ancelmo Gois, aposta na liberdade vigiada. Mas a maioria dos especialistas ouvidos pelo GLOBO só acredita na reabertura com ações claras de fiscalização sobre o cumprimento das regras de ouro, como uso de máscaras e distanciamento.

Embora as chances de contrair a doença sejam cinco vezes maiores em ambientes fechados, o contágio também acontece ao ar livre, se houver aglomerações. A liberação das pistas de Copacabana, Ipanema, Leblon e Aterro do Flamengo, já decidida pelo município, preocupa devido às cenas de multidões flagradas nos últimos dias, mesmo com as restrições em vigor. Ao mesmo tempo, o estacionamento na orla, que havia sido proibido, também será autorizado a partir de sexta-feira, quando sairá um decreto de Paes anunciando as flexibilizações.

E tem mais. Na sexta-feira, a ideia é reabrir o Campo de Santana, fechado desde março do ano passado, quando o vírus chegou ao Rio. De acordo com a Secretaria municipal do Meio Ambiente, o espaço poderá ser frequentado das 6h às 17h. Outros 21 parques da Fundação Parques e Jardins já estão liberados.

Para o infectologista Celso Ramos, professor titular de Doenças Infecciosas da Faculdade de Medicina da UFRJ, as atividades ao ar livre são menos arriscadas, mas ele acredita que a liberação da orla não vem em boa hora.

— Não estão considerando a responsabilidade individual das pessoas. O que nos garante que não se reunirão em quiosques para tomar água de coco, por exemplo? As pessoas têm dado uma demonstração ruim de cidadania. Tem gente que usa máscara no queixo — diz.

O também infectologista Alberto Chebabo, do Hospital Universitário Clementino Fraga, no Fundão, e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, diz que a medida não teria problema, caso o distanciamento fosse respeitado. Ele chama atenção para outro ponto:

— Tem que haver fiscalização. Teoricamente é melhor que as pessoas estejam ao ar livre, e não dá para pedir que elas fiquem em casa o tempo todo. Melhor do que ir a um shopping ou a uma academia.

Professor do Instituto de Medicina Social da Uerj, o sanitarista Mario Roberto Dal Poz observa que decisões equivocadas já vinham sendo adotadas. Dal Poz lembra que o então prefeito Marcelo Crivella proibiu as áreas de lazer, mas, por outro lado, deu aval ao funcionamento de restaurantes e bares, o que lhe parece uma contradição.

— Num ambiente fechado, a chance de pegar coronavírus é, no mínimo, cinco vezes maior. Sem falar no transporte coletivo. É menos grave estar numa área livre. Claro que com distanciamento social e usando máscara e álcool em gel. Essa liberação da orla terá que ser feita com muita orientação — sugere.

A prefeitura, no entanto, garante que a decisão foi respaldada pela Secretaria municipal de Saúde e que os frequentadores terão que seguir regras sanitárias. Ontem à noite, a pasta soltou ainda uma nota afirmando que a proibição de lazer na orla não teve os resultados esperados e, no último fim de semana, só levou as pessoas a se aglomerarem no calçadão.

Domingo, durante encontro sobre o plano de imunização, o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, falou o que pensa:

— Não dá para falarmos em baixo risco de Covid-19. Mas não há evidência científica nenhuma para você não fechar a passagem de carro num espaço em que as pessoas fazem exercícios. E tem muitas questões ligadas à saúde mental.

Pesquisador da Fundação Carlos Chagas e do Instituto D’Or, o intensivista Fernando Boza reitera que os riscos de se contrair a doença em áreas livres são baixos. Porém, alerta para a necessidade de ampla divulgação das regras:

— Aumentaram os casos, os hospitais estão lotados, o sinal é para restrição de atividades. Quais critérios serão adotados? Vai ter uma métrica ou bandeiras?

Cem leitos contratados

A Secretaria municipal de Saúde informou ter aberto, até agora, cem dos 343 novos leitos anunciados para pacientes com Covid-19, 80 deles no Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari, e outros 20 no Souza Aguiar, no Centro. Para cumprir o prometido, ainda precisam ser garantidos mais dez leitos no Souza Aguiar e 23 no Salgado Filho, além de 60 em parceria com o Hospital Clementino Fraga Filho. O Hospital de Campanha do Riocentro deve ser fechado gradativamente. Ontem havia só oito pessoas internadas na unidade.

Outros 150 leitos devem ser contratados na rede privada. Graccho Alvim, diretor da Associação de Hospitais do Estado do Rio (Aherj), acha que o valor oferecido pelo município (R$ 2,4 mil de diária para leitos de UTI e R$ 1.250 por cinco dias de internação em leitos comuns) pode ser um empecilho.

— A rede privada tem capacidade, mas, com esses valores, infelizmente, não se consegue abrir leitos.

Ontem, o Estado do Rio registrou 3.606 novos casos de Covid-19 e um óbito. Os dados podem estar represados por causa das festas de fim de ano.

Colaborou Rafael Galdo