Especialistas não veem motivos para comemorar platô da pandemia no Brasil

GUILHERME BOTACINI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A estabilidade observada no número de casos de Covid-19 no Brasil pode dar uma idéia equivocada para a tomada de decisões em políticas públicas da saúde, segundo especialistas ouvidos pela reportagem, em live nesta quinta-feira (16). Eles argumentam que por se tratar de uma média, ela reúne situações muito distintas da pandemia entre regiões do país.

Para o sanitarista da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) Daniel Soranz, é preciso cautela ao olhar para esses dados agregados.

"Em 11 estados vemos uma queda de casos há mais de três semanas, e em outros vemos aumento. Esse platô é uma média de um país muito grande, e não é verdade que a gente tem essa transmissão sustentada de maneira uniforme no país", disse.

Há também o fato de que a estabilidade de casos acumulados ainda significa que existem muitos novos infectados.

"Não é para comemorarmos o platô. Isso lembra a época da hiperinflação, em que o ministro da Fazenda dizia que a inflação estava mantida, mas em 20% ao mês. Não tem sentido isso", disse Paulo Lotufo, epidemiologista e professor da USP (Universidade de São Paulo).

Os estudos de biologia molecular sobre o vírus no país identificaram três cidades que foram a porta de entrada do vírus vindo de fora, segundo Lotufo: São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza.

A partir delas, a disseminação pelo território não foi uniforme, resultou em temporalidades diferentes e, portanto, em cenários distintos da doença. Isso se reproduz entre regiões, entre estados e até mesmo dentro de cidades.

Exemplo disso é a comparação entre a capital paulista e o interior do estado. Enquanto a cidade de São Paulo, o primeiro epicentro da doença, vê diminuir o número de casos há semanas, o interior do estado segue com UTIs lotadas e algumas regiões com número crescente de novos infectados.

Os diferentes ritmos da doença, aliados à confusão causada pelas mudanças nas notificações do Ministério da Saúde, fizeram com que o país demorasse para entender o panorama real da doença.

No início da pandemia, por exemplo, o registro de óbitos pela Covid-19 era disponibilizado apenas pela data em que foram notificados, ou seja, confirmados após análise laboratorial. Como há atraso entre a coleta do material e a conclusão de sua análise, a comunidade científica podia apenas estimar quando esses óbitos de fato ocorreram.

Somente depois de mudanças e polêmicas sobre novos métodos de apresentação dos dados é que pesquisadores puderam ajustar as informações e encontrar o verdadeiro pico de óbitos pela doença no país, segundo Soranz.

Ele afirma que locais como Manaus, São Paulo e Rio de Janeiro, que registram queda constante de novos casos e mortes, estão em uma fase da doença em que precisam ter cautela na reabertura das atividades restringidas pelo isolamento social.

O infectologista da Fiocruz Julio Croda ressaltou a importância de novos estudos sobre a região Norte para compreensão mais precisa da doença.

Segundo Croda, capitais como Belém, São Luís, e principalmente, Manaus, que viu seus sistemas de saúde e funerários colapsarem, tiveram ampla circulação do vírus.

Hoje, a capital do Amazonas está há mais de um mês com medidas de isolamento social flexibilizadas e registra queda sustentada do número de novos casos.

Para Soranz, é preciso equilíbrio nessa nova fase observada por locais que já estão em fases avançadas da doença, como as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, que indica a possibilidade de flexibilização das medidas restritivas. Segundo o sanitarista, é pouco provável que esses locais tenham novas ondas de casos e óbitos muito altos.

"Temos que ter cuidado e reavaliar sempre, mas as medidas restritivas não devem ser mantidas pelo que já vivemos, e sim pelo momento exato que vivemos agora com os dados mais atualizados."

Em outros locais, como nas regiões Sul e o Centro-Oeste, há um aumento mais vertiginoso de novos casos e mortes.

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