Especialistas são prudentes sobre pico de epidemia na Itália

Por Franck IOVENE
(Arquivo) Passageiros com máscaras voltam-se para as mesas de check-in no aeroporto romano de Fiumicino

O planeta aguarda o "pico" da epidemia na Itália, que, nesta quarta-feira, bateu o recorde de mortos em um único dia em um país, com 475 casos.

O confinamento foi decretado há uma semana, no entanto, as autoridades reportaram 4.207 casos de novas infecções.

O pico de 23 a 25 de março?

Na Universidade de Gênova (norte), uma equipe de especialistas em contágio e ciência da computação desenvolveu um modelo que, segundo eles, até agora demonstrou sua confiabilidade na evolução do Covid-19, "com uma margem de erro aceitável".

Prevê que, em termos de novos casos diários, o pico da epidemia na Itália será entre 23 e 25 de março, embora a altura desse ponto e sua subsequente evolução dependam do comportamento dos italianos.

Ao decretar na noite de 11 de março o confinamento total do país até 25 de março, o chefe de governo Giuseppe Conte havia estimado em "duas semanas" o tempo necessário para que as medidas mostrassem um primeiro resultado.

"Atingir o pico não significa que saímos da emergência, mas apenas que a epidemia começou a desacelerar e que, alguns dias depois, atingiremos o ponto de saturação das unidades de terapia intensiva, com desequilíbrios regionais significativos", explica Flavio Tonelli, professor de simulação de sistemas complexos da Universidade de Gênova, que participou da elaboração do algoritmo.

Entre 25 de março e 15 de abril?

O Conselho Nacional de Pesquisa (CNR, na sigla em italiano) prevê uma "redução significativa" na taxa de crescimento de casos positivos em seis ou sete dias na Lombardia, a região mais afetada da Itália com mais de 1.600 mortes e confinada desde 8 de março.

Observando que um aumento de casos está ocorrendo nas regiões do sul, onde muitos italianos do norte saíram após o anúncio das medidas de contenção, o CNR estimou em comunicado divulgado na terça-feira que a estabilização do número de pessoas infectadas "acontecerá entre 25 de março e 15 de abril".

"Essas estimativas estão sujeitas a uma grande incerteza devido a vários fatores em jogo e devem ser permanentemente recalibradas com base nos dados disponíveis e nas mudanças de comportamento das pessoas como resultado de decretos do governo", analisa o CNC.

Para o físico Giorgio Sestili, "há uma grande incerteza. Algumas análises falam de um pico entre 25 de março e 15 de abril, mas ainda existem muitas variáveis que devem ser levadas em consideração. É muito importante continuar o confinamento total e evitar os focos no centro e no sul", explicou ele nesta quarta-feira ao jornal Avvenire.

A bola de cristal

Segundo o diretor do Departamento de Doenças Infecciosas do Instituto Superior de Saúde, Giovanni Rezza, "falar sobre o pico da epidemia em nível nacional não faz sentido".

"Temos que ver de que parte da Itália estamos falando, porque na Lombardia estamos em uma situação de incidência máxima nas áreas de Brescia e Bergamo, enquanto o pior já aconteceu na região de Lodi (primeiro foco da epidemia na Itália" )", explicou na Radio Capitale na terça-feira.

"É impossível fazer previsões porque a epidemia está crescendo em lugares diferentes", acrescentou, ressaltando que "a fuga de dezenas de milhares de pessoas para o sul poderia causar um aumento no número de casos nesta semana".

Igualmente prudente, o epidemiologista da Universidade de Pisa (Toscana), Pierluigi Lopalco, considera que "aqueles que dizem que teremos um desvio da curva de casos após 25 de março, 6 de abril ou 15 de maio têm um bola de cristal".

"Os modelos de previsão Covid-19 são como previsões do tempo. Eles funcionam 24 horas antes; são bons em 48 horas, mas não são confiáveis após 72 horas", afirmou no Twitter.