Especialistas se dividem sobre fim da obrigação do 'passaporte da vacina' no Rio

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Em vigência desde setembro de 2021, o passaporte da vacina da Covid-19 deixará de ser cobrado no Rio. A decisão, que deve ser publicada hoje em Diário Oficial, foi tomada pela prefeitura após recomendação do comitê científico que assessora o município. Apesar dos indicadores da doença estarem em queda, a medida contraria o decreto publicado em março que estabelece uma cobertura vacinal (incluindo a terceira dose) de 70% da população adulta como condição para acabar com a exigência do comprovante. O índice está hoje em 62,3%.

O documento foi adotado como forma de acelerar a vacina. Até agora, os cariocas e turistas eram obrigados a mostrar o comprovante da vacina para entrar em bares, restaurantes, academias, hotéis, salões de beleza, teatros, boates, museus e eventos. A recomendação dos especialistas do comitê é para uma “suspensão temporária” da cobrança. Essa proposta foi baseada no atual “panorama epidemiológico, que se mantém favorável e estável, e pode ser alterada caso haja mudança neste cenário”.

O ritmo da vacinação na capital não foi como a prefeitura esperava. O planejamento previa atingir, até o fim de março, a cobertura de 70% dos maiores de idade com a terceira dose, o que não ocorreu. Nas últimas semanas, a procura pelo reforço da vacina estagnou. Dados da plataforma Tabnet do município do Rio mostra que o número de imunizados caiu 35% de fevereiro para março. Este mês, a situação não melhorou: em 17 dias, foram aplicadas 76 mil terceiras doses, enquanto no mesmo período de março foram 166 mil.

Essa baixa procura mostra que há mais gente desprotegida nas ruas. E o problema é maior entre os mais jovens. De acordo com o painel da prefeitura do Rio, 533 mil cariocas de 20 a 29 anos não retornaram para receber o reforço — 54% do total com duas doses da vacina. Em todas as faixas etárias, há mais de 1,8 milhão de cariocas na mesma situação

A próxima reunião do comitê científico da prefeitura será no próximo dia 16, quando os especialistas devem analisar novamente o comportamento da doença. Após o fim da onda da variante Ômicron, em fevereiro, o município teve uma queda sustentada dos números de casos de Covid-19 e mortes pela doença. Ontem, na rede pública, havia seis internados infectados pelo coronavírus. Este é o menor número de hospitalizados desde o início da pandemia.

Dados da Secretaria estadual de Saúde mostram que o número de casos e óbitos na capital segue em queda. No pico da última onda, em janeiro, a cidade registrou em uma semana quase 158 mil novos diagnósticos da doença. Já entre 17 e 23 de abril, foram computados até o momento 105 novas infecções — menos de 0,1%. Além do cenário epidemiológico favorável, os especialistas avaliaram que a exigência do passaportes não estava sendo cumprida pelos estabelecimentos, o que a torna ineficaz.

— O comitê é formado por membros muito qualificados de diversas áreas e quando foi preciso aumentar as restrições, como o adiamento do carnaval, nós fizemos. Ficar insistindo em uma medida que não tem efeito na prática é desmoralizar a medida. Evitamos muitas aglomerações sem controle vacinal. Desta forma, se tiver que voltar com o passaporte, acreditamos que haverá mais compreensão das pessoas. Mas esse não é o principal motivo da suspensão. Se ainda fosse necessário, a decisão seria pelo contrário — explicou Daniel Becker, pediatra e membro do comitê científico.

O reforço da Covid-19 deve ser aplicado em todos os adultos quatro meses após a segunda dose ou a dose única. Na última semana, a prefeitura do Rio também anunciou o calendário da quarta dose (ou segunda dose de reforço) para todos os idosos, já que o calendário só contemplava os maiores de 80 anos. Amanhã, quem tem 70 anos ou mais e recebeu a terceira dose há pelo menos seis meses pode procurar os postos. A vacina contra a gripe pode ser tomada no mesmo dia.

— A gente só está vivendo essa situação porque tivemos uma alta cobertura vacina. A terceira dose é importante para manter os níveis de proteção mais alto por mais tempo. O que acontece é que, se relaxarmos e as pessoas não se vacinarem, podemos correr o risco de voltar a uma situação ruim. Recomendamos para a secretaria intensificar a vacinação dos mais jovens com mais locais e campanhas educativa — disse Becker.

Professora de epidemiologia do Instituto de Medicina Social Hesio Cordeiro, da Universidade do Estado do Rio (Uerj), Gulnar Azevedo acredita que a sensação da população é que a pandemia está controlada e isso influencia diretamente na queda da procura pelo vacina.

— Pedir o passaporte é uma medida educativa que valoriza quem se vacinou. A desaceleração foi grande, mas é preciso estar atento. Poderiam aguardar mais algumas semanas para entender como será a curva da doença após o carnaval. Quando você libera, passa uma mensagem que está tudo bem — afirmou a especialista.

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