Especialistas sugerem 'jornada especial' e novas vacinas para impulsionar imunização no Brasil

O grupo de especialistas que avaliou a situação de saúde no Brasil para o governo de transição afirma que o país precisa adotar em 2023 um programa especial para recuperar os índices de cobertura vacinal que caíram ao longo dos últimos seis anos. Para o médico sanitarista José Cássio de Moraes e a sanitarista Carla Domingues, que lideraram o trabalho, a gestão atual precisa restaurar o que deixou de ser feito nos últimos anos no Programa Nacional de Imunização (PNI), além de cumprir uma meta regular para o ano.

— Uma das medidas de urgência que têm de ser implementadas é a realização de uma “jornada vacinal” para recuperação das coberturas. Independente do nome que se dê, seria um programa com toda a população convidada a ir a um centro de saúde para verificar sua situação e saber quais vacinas estão com esquema completo ou não, depois se começaria a completar o esquema ali — defende Moraes ao GLOBO.

Para Domingues, que chefiou o PNI entre 2011 e 2019 , uma parte da estrutura de organização do programa foi perdida nos últimos anos, e precisa ser recomposta.

— A palavra certa sobre o que precisa ser feito é “reconstrução” — afirma. — Há um problema de queda de coberturas vacinais para todas as vacinas.

Segundo o DataSUS, repositório oficial de dados do Ministério da Saúde, o declínio começou por volta de 2015. Nos últimos sete anos a cobertura da pólio caiu de 98,3% para 70,2%. Também se reduziu a porcentagem da população com primeira dose da vacina tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola), de 96,1% para 74,4%. A cobertura da pentavalente (contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e Haemophilus influenza) passou de 96,3% para 70,6%. Outras vacinas tiveram quedas menores.

Razões para o atraso

Um diagnóstico que a equipe de transição encomendou para o governo atual mostra que, apesar de a postura antivacina do ex-presidente Jair Bolsonaro ter gerado uma influência negativa no público, a queda nas coberturas para várias doenças não são problema exclusivo do negacionismo e da desinformação.

— Uma porcentagem pequena dos pais, 3,7%, disse que em algum momento deixaram de vacinar os filhos porque achavam que a vacina fazia mal em razão de algum motivo, mas quase 28% disseram que deixaram de vacinar as crianças por causa de problemas na gestão do programa — diz Domingues.

Muitos dos casos de atraso ocorreram por razões como falta do imunizante quando a criança aparece no posto de vacinação, dificuldade da família em se deslocar até o local e falta de orientação adequada à população.

Casos que se enquadrem em problemas de informação podem ser tratados com a implementação de um programa de comunicação mais robusto para o PNI, dizem os especialistas.

— As últimas campanhas que foram feitas eram praticamente “secretas”, porque a população não ficava sabendo, e às vezes nem os profissionais de saúde ficavam — lembra Moraes. — Agora, com todo o problema das fake news sobre vacinas que nós vimos nos últimos tempos um novo programa de comunicação vai precisar trabalhar em duas frentes: o da mídia tradicional, com televisão, jornal etc. e um para mídias sociais, onde a desinformação se espalha mais.

Moraes participou nesta semana de uma reunião no Ministério da Saúde em que foi confirmada a nomeação do infectologista Eder Gatti como chefe do recém-criado Departamento de Imunizações. Médicos esperam para as próximas semanas um anúncio mais detalhado de como será a política de recuperação dos índices de vacinação no país.

Novas vacinas

Outra medida a ser adotada é o estudo de novas vacinas a serem cobertas pelo PNI, dizem os especialistas.

Hoje o programa cobre a aplicação de 18 vacinas, sendo várias delas no ciclo de vacinação de crianças com até 10 anos. Além das citadas acima, entram no ciclo infantil a BCG (contra tuberculose), a de febre amarela, a de diarreia por rotavírus e a de meningite meningocócica. Para as demais faixas etárias entram a vacina de HPV e outras.

Não está no calendário regular do PNI ainda, porém, a vacina da Covid-19. Especialistas discutem agora se será necessário um ciclo anual de vacinação contra o coronavírus para algumas faixas etárias e quanto será o custo benefício em termos de morte e doença evitadas. Como o recurso do programa é finito, especialistas afirmam que a inclusão permanente de uma nova vacina precisa ser estudada.

Duas doenças que atraem atenção dos médicos agora são a dengue, que deve ter duas vacinas aprovadas no Brasil nos próximos anos, e a herpes zoster, que pode entrar no calendário “para populações vulneráveis e grupos específicos”. Ainda não está claro quais outras podem entrar.

— Se uma vacina não for incluída agora, porém, não significa que não possa ser incluída no futuro — diz Domingues. — A gente começou com a vacina de influenza em 1999 vacinando só a população acima de 65 anos, e hoje são vacinados mais de 80 milhões de brasileiros. À medida que uma vacina vai ficando com menor custo e maior capacidade de produção, o SUS ganha capacidade de absorver, e é possível ampliar a população alvo.