Especialistas temem dificuldade na contratação de profissionais de Saúde para viabilizar abertura de leitos na rede municipal

Rafael Galdo
·3 minuto de leitura
Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo

A Secretaria municipal de Saúde (SMS) do Rio informou nesta segunda-feira (4) já ter aberto 100 dos 343 novos leitos prometidos pela prefeitura para o tratamento de pacientes com Covid-19. São 80 vagas a mais disponíveis no Hospital municipal Ronaldo Gazolla, em Acari, e outras 20 no Souza Aguiar, no Centro. A dificuldade de contratação de mão de obra qualificada, no entanto, pode ser um obstáculo à continuidade desse processo, temem especialistas.

Para cumprir o prometido no primeiro dia de gestão do prefeito Eduardo Paes (DEM), ainda precisam ser garantidas mais dez vagas no Souza Aguiar e 23 no Salgado Filho, além de 60 em parceria com o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da UFRJ, no Fundão. Outras 150 devem ser contratados na rede privada.

A SMS pretende continuar uma gradual desativação do Hospital de Campanha do Riocentro, que nesta segunda-feira tinha apenas sete pessoas internadas. Segundo a prefeitura, a atual gestão recebeu a unidade com 42 pacientes, dos quais 17 tiveram alta, cinco morreram e 13 foram transferidos.

Presidente do Sindicato dos Médicos do Rio, Alexandre Telles se preocupa com a rapidez com que o município conseguirá abrir as vagas.

— Mesmo com a transferência das equipes do Riocentro, não acredito que elas sejam suficientes para as vagas prometidas. No fim do ano, havia cerca de 80 médicos no hospital de campanha, e alguns pediram demissão. Por isso, tememos que a questão de recursos humanos deva ser o principal obstáculo aos novos leitos — disse Telles, que se reuniu nesta segunda-feira com o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz.

A pneumologista Margareth Dalcomo, da Fiocruz, considera “louváveis e desejáveis” as medidas anunciadas pelo município no fim de semana, que incluem, além dos novos leitos, a testagem de 450 mil cariocas e preparativos para a vacinação contra a Covid-19. Ela, porém, ressalta que o município pode enfrentar a questão de conseguir mão de obra qualificada o suficiente para responder à complexidade dos pacientes com a doença.

— Sempre fui contra a abertura desordenada de hospitais de campanha e defendi a otimização dos leitos existentes, tanto na rede municipal, estadual e federal. A prova de que eles existiam está aí, porque estão sendo reativados. Precisa colocar um aparelhamento adequado e gente que saiba tratar pacientes graves, que serão os hospitalizados — alertou a pneumologista.

No entanto, a maior preocupação do Sindicato dos Médicos do Rio, segundo Alexandre Telles, é com a rede federal, após cerca de 4 mil contratos de profissionais de saúde temporários terem o prazo vencido no fim de 2020. No dia 31 de dezembro, uma medida provisória do presidente Jair Bolsonaro prorrogou até 28 de fevereiro o vínculo de 1.419 desses profissionais. O restante, no entanto, ainda aguarda uma definição.

Segundo o Censo Hospitalar, cujo site foi aberto à consulta da população no fim de semana, no início da tarde desta segunda-feira 47,9% (ou 768) dos 1.603 leitos dos seis grandes hospitais federais do Rio estavam impedidos, ou seja, fechados devido a problemas como falta de pessoal, insumos ou equipamentos. Os hospitais da Lagoa, de Ipanema e Cardoso Fontes não tinham leito algum livre por volta das 13h. Só havia vagas no Andaraí, no Bonsucesso e no Hospital dos Servidores do Estado.