Especialistas tentam entender o que trouxe mais de 500 golfinhos ao Rio

Um enorme grupo de golfinhos, como são popularmente conhecidos os botos-cinza, foram avistados na Baía de Guanabara nesta quarta-feira. O registro é o maior em pelo menos 30 anos, segundo especialistas ouvidos pelo GLOBO. A estimativa é que mais de 500 animais tenham passado pela costa do Rio, inclusive fêmeas e filhotes, algo incomum para a espécie. Registros também foram feitos pelas praias de Ipanema, na Zona Sul, e da Barra da Tijuca, na Zona Oeste.

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— Eram dezenas de fêmeas com filhotes, o que não é comum. Os botos-cinza são espécies filopátricas, ou seja, as fêmeas não costumam deixar suas baías de origem para passear com os seus filhotes. Elas tendem a permanecer no local onde nasceram. Esse passeio animou os pesquisadores. É um animal que está em vias de desaparecer aqui. Então, essa vinda traz a esperança de que alguns desses botos possam se juntar à população da Baía de Guanabara, que conta com apenas 30 animais — explica Ricardo Gomes, diretor do Instituto Mar Urbano, que flagrou a passagem do grupo.

Oceanógrafo e coordenador do laboratório de mamíferos aquáticos e bioindicadores (Maqua) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), José Lailson afirma ser difícil definir o motivo que trouxe os animais para cá, mas acredita que possam ter vindo em busca de alimentos:

— A busca por alimento é uma possibilidade. Grupos grandes necessitam de muita comida. Golfinhos como os botos-cinza podem comer mais de 6Kg de alimento por dia quando adultos. O fato de virem para cá pode ser por uma varredura em busca de alimentos. Então, eles aumentam a área de busca e vêm costeando, procurando peixes. O pessoal de Saquarema relatou que, na passagem desse grande grupo por lá, peixes até encalharam fugindo deles. Então, estão em busca de alimentos.

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Lailson explica, também, que a aparição em massa pode trazer um resultado positivo para a recuperação da Baía de Guanabara. Segundo ele, a vinda de fêmeas e filhotes é importante nesse aspecto, já que, normalmente, apenas os machos costumam passar por aqui.

— Esse grupão está cheio de filhotes. Se tem filhote, tem fêmea. O boto-cinza cuida de seu filhote durante cerca de 3 ou 4 anos. Isso abre a possibilidade de, eventualmente, encontrarem com os botos da Baía de Guanabara e ficarem. Desde que formamos o Maqua-Uerj, há 30 anos, nunca foi registrado um grupo assim dessa espécie — complementa o oceanógrafo.

Regiões e diferenças

Lailson explica ainda que existem botos-cinza em três regiões no estado: na Baía de Ilha Grande — de onde acreditam que o grande grupo veio —, na Baía de Sepetiba e na Baía de Guanabara, que tem a menor população das três.

— As baías costeiras têm diferentes populações. Os botos de Ilha Grande se misturam muito pouco com os de Sepetiba. São três populações diferentes, com características diferentes. Os da Baía de Guanabara são os mais contaminados por poluentes, seguidos dos de Sepetiba e, por último, os de Ilha Grande. A população menor é da Baía de Guanabara — diz.

Para ele, os golfinhos refletem a qualidade do ambiente. Tanto que já houve um tempo em que se via botos frequentemente no Rio.

— No meio do século 20, tivemos muitos relatos que mostram que se via boto em grandes quantidades aqui. Essa espécie é símbolo da cidade do Rio por causa da presença massiva deles aqui. Está no brasão da cidade.