Espero que Temer contribua para eleições antecipadas, diz presidente do Instituto Ethos

RAQUEL LANDIM

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Caio Magri, diretor presidente do Instituto Ethos, diz que a crise política chegou a um ponto tão agudo, que vai exigir um "passo ousado" da sociedade brasileira.

Ele defende a instalação de uma constituinte exclusiva para a reforma política e a antecipação das eleições previstas para 2018.

"Espero do presidente Temer a grandeza de avaliar a possibilidade efetiva de contribuir para que as eleições sejam antecipadas e democráticas", disse à reportagem.

Magri, que dirige uma organização governamental formada por mais de 500 empresas, reconhece a responsabilidade do setor privado na crise. "Se temos um setor político venal, existe também um setor privado estruturado para competir apenas nessas condições". A seguir, trechos da entrevista.

Pergunta - O ministro Edson Fachin (STF) autorizou a abertura de inquéritos contra 98 políticos. O sistema político foi colocado em xeque?

Caio Magri - O sistema político está em xeque há muito tempo, mas agora chegamos num ponto agudo, porque a crise atinge todas as gerações políticas do período democrático pós-ditadura. Não existe uma geração nova capaz de superar o que está aí.

Isso vai exigir que a sociedade tenha serenidade e cobre que o processo vá até o fim. Os excessos da Operação Lava Jato devem ser corrigidos, mas sem haver impunidade.

Precisamos dar um passo ousado. Especialistas já propuseram a convocação de uma constituinte exclusiva. Seria fundamental para reorganizar o sistema político e aperfeiçoar a prevenção e combate a corrupção.

Pergunta - O senhor vê risco de uma ruptura institucional no Brasil?

Magri - Por enquanto, não acredito, porque temos maturidade política. Ainda temos uma sociedade muito dividida com o "fla-flu" dos últimos anos, mas a maioria da população não quer uma ditadura ou um golpe militar.

Temos que pactuar essa saída. Estamos chegando num momento de desfecho.

Pergunta - Como seria esse pacto?

Magri - Primeiro, um pacto pela manutenção dos princípios e garantias de um Estado democrático de direito. Segundo, uma saída política para reformar as principais questões do sistema eleitoral e político. Por fim, novas eleições.

Pergunta - Mas é possível juridicamente antecipar as eleições de 2018?

Magri - Vale uma consulta mais aprofundada sobre isso. O problema é que o prazo eleitoral pode caducar em função da crise. Se isso ocorrer, pode haver um desgaste muito profundo na relação entre a classe política e a sociedade.

Neste caso, poderia, sim, ter risco de ruptura, com as pessoas acreditando que a situação só se resolveria pela força. Espero do presidente Temer a grandeza de avaliar a possibilidade efetiva de contribuir para eleições antecipadas e democráticas.

Pergunta - Se nada for feito, qual é o risco do surgimento de "salvadores da pátria" em 2018?

Magri - Se não tivermos uma saída política e jurídica sem permitir a impunidade, vamos agravar essa repulsa à política que pode levar a uma aventura.

O discurso será de que todos os partidos não prestam e que o candidato vai botar ordem e fazer uma boa gestão. Seja com uma postura ideológica, como o deputado Jair Bolsonaro, ou de forma tecnocrática, que é o estilo do prefeito de São Paulo, João Doria.

Pergunta - O STF probiu que as empresas financiem campanhas. Qual é a sua opinião sobre isso?

Magri - O financiamento empresarial de campanha é o ovo da serpente da corrupção no Brasil, porque se estruturou no toma lá, dá cá.

O que leva uma empresa a bancar R$ 150 milhões numa campanha eleitoral como algumas empreiteiras fizeram em 2010 e a JBS em 2014? O que leva a esse "investimento"? O financiamento eleitoral nunca foi desinteressado.

Não podemos retroceder nessa questão, mas, por outro lado, temos que corrigir a distorção das últimas eleições em que praticamente só os candidatos que tinham dinheiro próprio se elegeram.

A ideia é limitar a contribuição das pessoas e estimular a militância dos partidos a conseguir recursos para eleger seus representantes.

Pergunta - Os políticos estão tentando diferenciar o caixa 2 da corrupção. O que senhor acha disso?

Magri - É impossível. O doador não tem a origem do dinheiro: se foi propina, suborno ou uma operação fiscal. Por que a doação para um partido político é corrupção e para outro é caixa 2 vindo da mesma empresa? Criminalizar o caixa 2 é importante porque ele tem sido utilizado para lavar dinheiro, pelo crime organizado e pela corrupção.

Pergunta - Se existe o corrupto, existe o corruptor. Qual é a responsabilidade do setor privado nessa crise?

Magri - É enorme. Se temos um setor político venal, existe também um setor privado estruturado para competir apenas nessas condições.

E não adianta entrar na discussão do ovo e da galinha, porque existe a oferta de oportunidade por parte dos políticos e a pressão do setor privado para que essas ofertas aconteçam.

O setor privado tem a responsabilidade de contribuir para a solução, criando uma nova relação com o setor público com transparência nas relações.

Pergunta - Os inquéritos foram abertos com base na delação de uma empresa, a Odebrecht. Outras empresas e setores também podem estar envolvidos em corrupção?

Magri - Sem dúvida. Existem outras empresas se preparando para fazer delações. A diferença é que essas delações precisam trazer fatos novos.

Temos que reabrir, por exemplo, as contas da Copa e da Olimpíada. Vão aparecer outros setores, não só infraestrutura, mas também serviços.

A área de saúde também precisa de atenção. Tem vários outros setores que precisam ser abertos e investigados.

Espero que as empresas que querem se sustentar nesse processo rapidamente se apresentem e façam suas delações.

Pergunta - Em 2015, a lista do procurador Rodrigo Janot gerou comoção, mas poucos resultados. Isso pode acontecer novamente?

Magri - A tolerância da sociedade agora é bem diferente. Isso não deve ser medido pelas manifestações, mas pela imprensa, pela pressão externa e pela necessidade de um ambiente econômico confiável para o país voltar a crescer.