Esporte e cultura fazem renascer o bairro de Boa Viagem, em Niterói

Todos os dias, bem cedinho, por volta das 6h ou 7h, as pessoas começam a chegar. Elas tiram os calçados e sentem pelo contato com a pele a energia da natureza do bairro de Boa Viagem. São praticantes de diversos esportes que vêm retomando um lugar por muitos anos desprezado, degradado pela poluição e pelo abandono do poder público.

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Se estas pessoas podem sentir hoje o encanto desse pedacinho de terra que compõe o bairro, espremido entre o Morro do Palácio e a Baía de Guanabara, é graças, principalmente, a elas mesmas. São elas que vivem e dão vida ao lugar, praticando e promovendo esportes todas as manhãs, como acrobacias em tecido, natação e canoa havaiana.

Grande parte dessa nova vida que Boa Viagem ganhou se concentra entre o continente e a ilha que dá nome ao bairro, e que em 1650 recebeu sua primeira edificação, a igrejinha, ainda hoje de pé, apesar das muitas modificações por que passou ao longo dos séculos.

Hoje, o bairro parece conquistar cada vez mais adeptos, promovendo sua própria era de renascimento para a cultura local. Com isso, além das iniciativas dos moradores, que pelo esporte renovam a vida em Boa Viagem, começam a surgir os primeiros investimentos, tanto públicos quanto privados.

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Uma dessas forças motrizes da recuperação do bairro, curiosamente, não vem do mar, mas do cerrado. É Valéria Silva, a Val. Há cinco anos ela saiu de Brasília para realizar o sonho de morar perto da praia. Foi ali que encontrou o seu paraíso.

Logo que se mudou, Val observou que a ponte que liga o calçadão da orla à ilha poderia ser um bom lugar para amarrar seu tecido de acrobacias e praticar o esporte do qual é adepta. Assim ela fez. E sua presença despertou tanto a curiosidade dos moradores que ela começou a receber pedidos para dar aulas.

Até então, Val não era professora do esporte e trabalhava como publicitária. Mas o chamado da praia a fez buscar uma nova formação e começar a receber alunos. Com eles, conta Val, foram se aproximando cada vez mais esportistas do bairro.

— Cheguei a Niterói sem conhecer ninguém, nem mesmo os perigos que a praia tinha na época, porque era meio abandonada, um pouco deserta. Mas o tecido começou a crescer de forma orgânica, foram chegando alunos de todas as idades, e logo atraíram outros grupos e outros esportes — diz Val.

Foi então que, com as areias ocupadas por novos frequentadores assíduos e aprendizes de acrobatas, o mar foi também sendo ocupado. As canoas havaianas, que já eram febre nas praias vizinhas, também aportaram por ali. E hoje dividem as águas com um grupo de natação no mar.

Comandadas por Juliana Pereira e Cláudio Júnior, as aulas de natação em Boa Viagem começaram por um motivo triste, mas deram mais alegria ao local.

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— Com o coronavírus, ficou complicado dar aulas em piscinas fechadas, então o Cláudio e eu tivemos a ideia de fazê-las num lugar aberto. Boa Viagem foi o lugar perfeito para isso. O mar é calmo e durante 90% do ano a água está limpa — conta Juliana.

As aulas de natação hoje atraem gente de todas as partes da cidade e até de fora. Segundo Juliana, metade do número de alunos mora em Boa Vigem, mas há também gente de bairros vizinhos, como Icaraí, Ingá ou Centro, e até moradores de São Gonçalo e Itaboraí.

Se o esporte deu nova vida ao bairro, a vocação cultural de Boa Viagem é bastante antiga, como se nota pela data de construção da igreja. A região também abriga o Museu de Arte Contemporânea (MAC), e há pelo menos duas gerações dá sustento a um grupo de maricultores, que todos os dias catam mexilhões nas pedras da Ilha da Boa Viagem.

Apesar disso, faz muitos anos que a antiga edificação religiosa da ilha está fechada para visitantes. A prefeitura promete agora mudar isso. Com investimento de R$ 5,5 milhões, as mais velhas construções do local, o Castelo (sede dos escoteiros), a Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem e o Fortim, serão completamente restauradas. O projeto prevê também uma área administrativa e um ambiente cultural com espaço para exposições. A previsão de conclusão das obras é março de 2023.

Outra intervenção em andamento na região realizada pela prefeitura é a construção do Centro de Atendimento ao Turista (CAT), próximo à ponte de acesso à ilha. O equipamento já está com a estrutura finalizada, mas falta o acabamento.

A iniciativa privada também embarca na onda da nova Boa Viagem. O bairro vai receber o primeiro empreendimento imobiliário deste século: O Lazuli, um condomínio residencial de luxo, na Rua Antônio Parreiras, com três edifícios e 112 apartamentos.

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