Esqueça Lula x Bolsonaro. O próximo embate do Brasil é Lira x Valdemar

O presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Arthur Lira, riem durante a abertura da XXIII Marcha em Defesa dos Municípios, em Brasília, em 26 de abril de 2022. (Foto por EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
O presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Arthur Lira, riem durante a abertura da XXIII Marcha em Defesa dos Municípios, em Brasília, em 26 de abril de 2022. (Foto por EVARISTO SA/AFP via Getty Images)

Nós, eleitores brasileiros, assistiremos um belo embate nos próximos meses: o de Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, e Valdemar Costa Neto, “dono” do PL.

E eu explico: Lira já deixou claro que quer ser reconduzido à presidência da Casa e não mede esforços para tal. Antes defensor de Jair Bolsonaro, hoje sorri para Luis Inácio Lula da Silva. Vale tudo pela manutenção do poder, teria dito Maquiavel, Norberto Bobbio e toda uma geração de estudiosos da política.

A fidelidade de Lira é com o poder. Executor do orçamento secreto, agora chamado de emendas do relator, Lira define quem tem direito ao quê e quanto, sem nenhum critério específico. Se Valdemar Costa Neto é o dono do PL, Lira é o dono do Brasil.

E, vamos falar então de Valdemar. Valdemar ficou “de mal” com a imprensa depois que essa noticiou, exaustivamente, seu protagonismo no episódio do Mensalão. “Mate o mensageiro”, oras.

Mas depois de anos concedeu uma coletiva e não assumiu a vitória de Lula nas eleições nem garantiu que o resultado do pleito não seria questionado. E, afirmou que, diante de 99 deputados na Câmara Federal e 16 senadores, “não é possível o PL não fazer o presidente pelo menos de uma das Casas”. Com o aceno de Lira, ele espera.

Um belo de um imbróglio para Arthur que sorri para Lula e sorri para Valdemar, que sorri para Bolsonaro que não sorri para Lula. É o xadrez político brasileiro que só tende a ficar mais complexo.

Como Lira irá sair desse enrosco? Se apoiar Lula, não apoia Valdemar, que entra como oposição ferrenha. Se apoiar Valdemar (que espera isso), arrebenta Lula, com o qual já flerta.

Aaaaah...as manifestações de poder não se acomodam bem com a simplicidade, teria dito Balandier. O PL tem por objetivo maior fazer a presidência do Senado. De novo, oposição a Lula. Valdemar entendeu que Bolsonaro continua vivo na política.

Foi presidente por um partido nanico em 2018 e o transformou numa das maiores bancadas do Congresso. Quando muda de partido, faz, de novo, uma potência em quantidade nas duas Casas. Bolsonaro é ele. Não é um conjunto de pessoas.

Ele é a sua força (e a sua ruína). Bem assim, uma política personalista e populista. Se a esquerda tem Lula, a direita tem Bolsonaro. Sem meio termo. Valdemar apostou em um lado. Lira, evasivo que é, ainda não escolheu o seu. Mas vai se enrolando.

Pois, Kassab, presidente do PSD de Pacheco, presidente do Senado, esteve em jantar com quem? Com Lira, ora bolas. Kassab deve aderir à base de apoio de Lula (uau! Que surpresa) e vai se desenhando um jogo complexo para o dono do país. Como sorrir para Valdemar se ele mesmo aumenta a base de apoio de Lula? Ah, e Kassab, que não é bobo (nenhum deles é), já reivindicou dois ministérios e apoio a Pacheco.

Meu amigo Rodrigo Prando, cientista político, faz uma brincadeira que acho maravilhosa: “quando o mundo estiver acabando, olhe para onde o Kassab vai correr. É para lá que você deve ir”. Kassab é um dos mais articulados políticos da história do país. E se ele sorrir para Lira e Lula...Valdemar vai chorar.

O xadrez político não se esgota nele mesmo. É um jogo de ideias, de paciência, estratégia...e nem sempre ser agressivo quer dizer que você vai vencer. No primeiro momento Lula precisa de Lira, mas já já vai precisar de Valdemar.

Eu encerro esse texto com Napoleão Bonaparte.

Os campos de batalha modernos são mais extensos do que os campos de batalha antigos, o que obriga ao estudo de um maior campo de batalha. É preciso muito mais experiência e gênio militar para comandar um exército moderno do que era preciso para comandar um exército antigo.

Valdemar por esse momento está sem uma jogada clara à frente. Mas nunca subestime o poder de alguém que vagou e se fortaleceu nas sombras da política brasileira por anos sem ser notado. Foi notado quando quis e como quis: como presidente do partido mais poderoso do país depois quase definhar. Acompanharemos as aventuras de Lula, Lira e Valdemar pelos corredores de Brasília.