Na esquecida favela do Mundaú, a Covid-19 arruinou o 'ganha-pão' dos marisqueiros

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por Gloria Maria

Às margens da lagoa do Mundaú, em Maceió, no Alagoas, erguem-se cerca de 3 mil barracos, escondidos por um inacabado conjunto de prédios de moradias populares. Na favela do Mundaú, vivem 1,4 mil crianças e adolescentes, que dependem de 1,8 mil trabalhadores que sobrevivem como pescadores e marisqueiras do sururu, marisco popular na região.

Era no acostamento da Avenida Senador Rui Palmeira, mais conhecida como Dique Estrada, que Maria Rosa, de 80 anos, mantinha sua barraca para as vendas do sururu. Porém, com a retomada das obras do conjunto habitacional, sua barraca teve que ser retirada e realocada próximo ao lago.

Maria e as 3 mil famílias dependem das vendas do sururu para retirar seu sustento. 

A aposentada que sempre trabalhou como marisqueira narra que, por conta da idade, não pode mais entrar na lagoa e hoje quem realiza esse trabalho é seu filho. Todos os dias, ele sai 21h e volta 3h da manhã. 

(Imagem: Manuel Henrique/Yahoo Notícias)
Na favela do Mundaú, vivem 3 mil famílias dependem, em sua maioria, de pescadores e marisqueiras do sururu, marisco popular na região. (Imagem: Manuel Henrique/Yahoo Notícias)

Quando o sururu chega, ele passa por um processo de retirada da casca e de fervura. Logo em seguida, vai para o empacotamento e, de lá, para a venda, onde um 1kg após esse trabalho todo equivale a R$ 7.

Antes da pandemia, Maria, conseguia uma renda de R$ 100 a R$ 150 semanalmente com a venda dos mariscos, mas com a chegada da Covid-19 o lucro despencou para R$50.

"Estou recebendo muito pouco, tenho minha aposentadoria mas mesmo assim não é o suficiente para viver, por isso continuo trabalhando como marisqueira, é sofrido, mas tem sido o jeito", relata.

Outra reclamação de Maria é a falta de acesso a higiene básica para a prevenção do coronavírus. "Ninguém deu nada pra ninguém, se a gente quiser usar uma máscara ou um álcool gel tem que comprar, e com as dificuldades financeiras tem sido difícil comprar esses itens", finaliza.

Feridas nas mãos e sem doações

Simone Ferreira, de 37 anos, também moradora da favela do Mundaú e marisqueira, diz ter alergia à lama onde recolhe os mariscos que causam feridas em suas mãos, mas que tem sido a única oportunidade de trabalho. 

Outra reclamação recorrente é da ausência de saneamento básico, como a falta de água encanada, quantidade de lixo espalhados, e acesso ao banheiro.

(Imagem: Manuel Henrique/Yahoo Notícias)
(Imagem: Manuel Henrique/Yahoo Notícias)

"Nem todo mundo tem banheiro e nem água encanada, dependemos da água que pegamos em um cano, não é boa é uma água cheia de ferrugem, às vezes vem fedendo a lama. E a gente tolera porque a gente não tem comprar água para sobreviver", comenta.

A localização onde Simone mora, em uma área atrás das obras do conjunto habitacional desfavorece seu acesso as doações. 

Ela conta que os donativos quase não chegam na sua região. "Quando eu morava na área da obra, era mais fácil conseguir doações. Agora, ficou mais difícil, às vezes ganho umas quentinhas dos meninos que passam e nos ajudam", comenta.

Além de todos esses problemas, há também a inundações quando chove e entra nos barracos, causando mais lama. Alguns moradores tiveram que fazer batentes em seus barracos para evitar que a água e lama invadam suas casas. 

Simone aguarda seu apartamento que pode sair em qualquer lugar de Maceió, mas prefere que seja próximo ao lago para continuar seus trabalhos. 

As obras do conjunto habitacional estavam paradas há mais de dois anos e foram retomadas em janeiro de 2021, com o orçamento de 142 milhões com o intuito de beneficiar 1.776 famílias.

Com a falta de acesso a higiene básica, Simone diz que ficou sabendo pelos jornais sobre o número de obtidos e contaminados pela Covid-19. Ela conta que a população da região não tem o costume de lavar as mãos, manter distanciamento, ou de praticar quaisquer outras medidas sanitárias necessárias.

(Imagem: Manuel Henrique/Yahoo Notícias)
(Imagem: Manuel Henrique/Yahoo Notícias)

"Algumas pessoas andam sem máscara, as crianças por aí nunca lavam as mãos, nunca passam álcool gel. Há aglomerações principalmente quando chega a feira ou alguma coisa pra dar a gente todo mundo corre porque precisa. É uma necessidade.", finaliza.

O Informe Epidemiológico da Secretaria de Saúde de Alagoas, do último dia 7 de julho, contabiliza 5.450 mortes pela Covid-19, além de 221 mil casos confirmados da doença.

Menos apoio público durante 2ª onda da Covid

Para a arquiteta e urbanista Isadora Padilha, lavar as mãos, manter o distanciamento, assim como a falta de saneamento, são fatores determinantes para a vida ou a morte de uma população vulnerável como a que ocupa as comunidades do Dique-Estrada. 

Segundo ela, o esgoto a céu aberto pode conter vestígios da doença e expõe os moradores que convivem com dejetos. Há risco até mesmo na coleta do sururu uma vez que a lagoa é bastante poluída, inclusive com lixo doméstico.

"Os barracos pequenos impedem distanciar-se e facilitam o contágio em massa entre os moradores. E esses são problemas que existem há anos - daí as doenças de pele, por exemplo - e se agravam nas circunstâncias atuais. Além disso, a própria pobreza dificulta a compra de materiais de limpeza, álcool e máscaras, acesso a remédios, tratamentos e recursos diversos como profissionais e leitos", comenta.

Isadora diz que a segunda onda, além de trazer o maior número de mortes, agrava o cansaço da população com as medidas de prevenção devido ao tempo de duração das restrições causadas pela pandemia. 

Mais "saturada" do assunto, a sociedade se mobiliza menos e, consequentemente, arrecada menos doações e menos apoio financeiro.

(Imagem: Manuel Henrique/Yahoo Notícias)
(Imagem: Manuel Henrique/Yahoo Notícias)

E em relação a moradia, ressalta ela, é necessário finalizar a revisão do Plano Diretor de Maceió e implementá-lo, além de trabalhar pela regularização fundiária na região e na cidade de modo amplo e irrestrito, como estabelece a Lei de Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (Lei Federal nº 11.888/2008), que prevê moradias dignas para a população de baixa renda. 

"É preciso pesquisar e estabelecer soluções diferentes das que têm sido propostas há décadas e que não dão resultados - como os grandes conjuntos habitacionais, envolver na questão os diversos atores que atuam na área: moradores, ONGs, universidades. Pensar, especialmente, políticas públicas de geração de renda para essa população", finaliza.

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