Esquerda brasileira dá sinais de renovação para enfrentar onda conservadora

Paula RAMON
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Guilherme Boulos, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), em comício em São Paulo em 18 de novembro de 2020
Guilherme Boulos, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), em comício em São Paulo em 18 de novembro de 2020

A esquerda brasileira, nocauteada com a chegada ao poder do presidente Jair Bolsonaro, deu sinais de renovação nas eleições municipais, com jovens candidatos que desafiaram a hegemonia do Partido dos Trabalhadores (PT), do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O principal expoente dessa retomada é Guilherme Boulos, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), que fez história no domingo ao passar para o segundo turno na disputa pela prefeitura de São Paulo, capital econômica do país, com o candidato à reeleição, o centrista Bruno Covas (PSDB).

Boulos, de 38 anos, obteve 20,2% dos votos (contra 32,8% de Covas), mais que o dobro do candidato apoiado por Bolsonaro e Jilmar Tatto, do PT, que ficou em sexto, no pior resultado em São Paulo desta força em três décadas.

As primeiras pesquisas para o segundo turno, em 29 de novembro, dão 47% para Covas e 35% para Boulos.

"Levar Boulos para o segundo turno em São Paulo é realmente muito simbólico se a gente pensar que foi em SP que o PT começou se a reafirmar como partido de projeção nacional", diz Flavia Biroli, cientista política da Universidade Nacional de Brasília (UnB).

O PSOL foi o único partido de esquerda que não perdeu as prefeituras nessas eleições, passando de dois vereadores para quatro. Além de São Paulo, a sigla participa também do segundo turno em Belém, capital do Pará.

O desempenho do partido, fundado por dissidentes do PT em 2004, "ajuda-nos a entender que existe um desafio de renovação para as esquerdas, e que quando essa renovação acontece há um acolhimento do eleitorado", observa Biroli.

Em Porto Alegre, Manuela D'Ávila, de 39 anos, candidata à prefeitura pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), chegou ao segundo turno, embora neste caso com o apoio do PT.

No Recife, o segundo turno será disputado entre João Campos, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), de 26 anos, e Marília Arraes, de 36 anos, do PT.

- Renovação geracional -

Homem de contrastes, como a cidade que almeja administrar, Boulos é filho de médicos e formado em filosofia e psicanálise. Comprometido com a luta pela moradia, antes de completar 20 anos iniciou sua militância instalando-se em uma ocupação do MTST em São Paulo.

Com dinamismo, posicionou-se nas redes sociais e foi o candidato mais pesquisado da internet na reta final da campanha.

Os analistas veem potencial de crescimento no segundo turno. Independentemente do resultado, eles acreditam que a mensagem dele foi passada e obriga o PT a repensar sua postura.

O PT "tem que tentar entender o que aconteceu e se reposicionar mais adiante", explica Cláudio Couto, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV EAESP).

Alguns veem Boulos - que nasceu em 1982, dois anos após a fundação do PT - como a nova cara da esquerda e o comparam a Lula, o mítico líder sindical de 75 anos que governou o Brasil de 2003 a 2010 e mantém seu prestígio em amplos setores, apesar das questões judiciais.

Couto ressalta que "Lula tem uma presença no imaginário político pouco comparável a outras figuras". Porém, o ex-presidente "está em um declínio político natural, Boulos está em ascensão, ele tem potencial, até porque traz jovialidade para a esquerda, algo que Lula já não consegue mais", acrescenta.

No entanto, Lula, inseparável do PT, deu origem a essas comparações, quando falou a seus partidários junto com Boulos e Manuela D'Ávila antes de se entregar à polícia em abril de 2018 para cumprir pena de prisão por corrupção.

O impulso às pautas sobre identidade, como a luta racial ou de gênero, ampliou a base eleitoral dessa esquerda, com lideranças como Marielle Franco, vereadora carioca do PSOL assassinada em 2018. Sua viúva, Mônica Benício, foi eleita este ano para o mesmo cargo e pelo mesmo partido.

- Recomposição unitária -

Em 2016, o PT experimentou sua maior derrota eleitoral quando, ofuscado por escândalos de corrupção e pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, o partido perdeu 60% das prefeituras conquistadas em 2012.

Agora retrocedeu novamente, perdendo em mais de 70 municípios.

Eduardo Suplicy, historicamente petista, defendeu a realização de primárias e a definição de candidaturas unitárias, ao contrário do que aconteceu em São Paulo, onde o PT insistia em sua candidatura.

"Teremos que refletir sobre a importância de nos unirmos para apoiar os candidatos a presidente e governadores em 2022, reunindo todas as forças progressistas", afirmou no domingo Suplicy, eleito vereador de São Paulo, à AFP.

"De um lado, temos o PT com tradição, recursos e lideranças históricas: do outro, novos partidos, lideranças, propostas e maior legitimidade entre um eleitorado mais à esquerda. Portanto, parece natural que se busque uma recomposição (...) , porque a esquerda precisa recuperar espaços em 2022", afirma o cientista político Leonardo Avritzer, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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