Esquerda chuta bola pra fora ao zombar de lesão de Neymar

Soccer Football - FIFA World Cup Qatar 2022 - Group G - Brazil v Serbia - Lusail Stadium, Lusail, Qatar - November 24, 2022 Brazil's Neymar is pictured after the match REUTERS/Molly Darlington
Foto: Molly Darlington/Reuters

“Foi tarde”.

Foi o que disse a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, ao comentar a saída de Neymar da partida de estreia da seleção brasileira na Copa do Qatar, na quinta-feira (24/11).

Uma pisada na bola e tanto.

O camisa 10 da seleção, que sentiu dores no tornozelo e é dúvida para a sequência do Mundial, apoiou Jair Bolsonaro (PL) na campanha presidencial.

É possível fazer um ensaio sobre as consequências dessa declaração de apoio — inclusive a antipatia de parte da torcida que Neymar assumiu para si.

Mas, ao comentar a partida, a dirigente petista poderia mostrar um espírito esportivo mais, digamos, elaborado.

Poderia dizer que o que aconteceu na eleição já passou, que aquele era um outro momento, que discordava das posições (as políticas) do atacante e que desejava sorte e um bom jogo para ele. Política, afinal, é a arte da conciliação.

No futebol, quando um adversário cai, há sempre a possibilidade de estender a mão e seguir o jogo. Mas há também quem se mostre disposto a revidar algum lance anterior e pisar na canela, mesmo de leve.

Lula (PT), durante a campanha, fez troça do jogador. “Eu acho que ele está com medo de, se eu ganhar as eleições, eu vá saber que o Bolsonaro perdoou a dívida do imposto de renda dele”, afirmou, em uma entrevista.

Lula ganhou a disputa. Ganhou também uma ameaça de processo da família do atleta. Se tinha alguém ali que votava nele, não tem mais.

Mais do que ninguém ele deveria saber que não se condena um acusado antes de dar a ele o direito de provar inocência.

Para boa parte da torcida (51% dos eleitores, basicamente), Neymar jogaria um grande balde de água fria no chope da Copa se cumprisse sua promessa feita a Bolsonaro em uma live: a de dedicar seu primeiro gol ao presidente agora desaparecido.

Melhor nem saber o que teria acontecido se o gol da vitória fosse dele, e não de Richarlisson – o jogador alçado, justamente, ao status de ídolo por não tirar o pé da dividida das grandes discussões nacionais, do combate à pobreza à urgência das vacinas, duas causas geralmente desprezadas pelo bolsonarismo.

Neymar pode e deve ser cobrado por suas posições políticas e responsabilidades fiscais. Mas não enquanto toma uma botinada de um zagueiro sérvio. Como diz o poeta, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Nas redes, não faltou hater celebrando a contusão que, sabe-se agora, tirou o jogador da primeira fase do Mundial.

Alguns justificavam o sadismo lembrando dos problemas de Neymar com a Receita.

“O cara faz o que faz e eu não posso rir dele?”, perguntaram alguns.

Mais um pouco e repetiriam o mesmo mantra bolsonarista de que o mundo politicamente correto está muito chato e já não permite expressar a própria perversidade sem censura.

Os processos de Neymar correm longe dos gramados. É lá que ele e seus representantes podem e devem responder. Qualquer coisa fora isso é puro punitivismo –justamente o mesmo espírito que condenamos nos adversários.

O futebol deu para uma galera uma oportunidade de mostrar que são melhores do que aquilo que condenam. Muitos chutaram a bola para fora.

Por tudo o que leva a campo e alimenta fora dele, o futebol não é, nunca foi e nem nunca será apenas um esporte. Mas, quando a partida começa, é possível, sim, vislumbrar, se não uma improvável união, uma possível suspensão das animosidades.

Quem, por vingança ou revanchismo, vibra com o drama pessoal de quem saiu de campo com medo de lesão não entendeu nada disso.