Esquerda sela pacto com 'bolsonaristas arrependidos' por impeachment de Bolsonaro

Guilherme Caetano
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SÃO PAULO — Rompidos com Jair Bolsonaro desde 2019, os deputados Alexandre Frota (PSDB-SP), Joice Hasselmann (PSL-SP) e Kim Kataguiri (DEM-SP) concordaram em unir forças com lideranças de partidos de esquerda, como PT e PSOL, pelo impeachment do presidente. A ideia é unificar os mais de 100 pedidos de afastamento numa única proposta, que deve começar a ser desenhada nos próximos dias.

O encontro virtual, realizado na tarde desta sexta-feira, foi convocado pelo Fórum dos Partidos de Oposição, organizado por PT, PCdoB, PSOL, PSB, PDT, Rede, Cidadania, PV e UP. Também participaram representantes de organizações da sociedade civil, como o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic) e a Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD).

As lideranças deixaram a reunião com a promessa de formar um grupo de trabalho na próxima semana para montar um "calendário de mobilizações" pelo impeachment. O cronograma dessa "campanha nacional pelo impeachment" deve abranger protestos virtuais enquanto durar a pandemia, divulgações de manifestos a favor da causa e pressão para que o presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), pela abertura do processo.

Joice Hasselmann, que se afastou do presidente após ter sido vítima de uma campanha de ataques virtuais contra si, incentivada por Jair Bolsonaro e os filhos, disse que tentou focar na questão suprapartidária para que a aliança possa avançar até seu objetivo. Ela classificou a reunião como "ótima".

— Precisamos deixar nossas diferenças ideológicas para a época da eleição e trabalhar para tirar o inimigo do país do poder. Ficou marcado de fazermos juntos um manifesto e também a convocação de um ato. Claro, cada um falando com seu público, mas unificando a ideia para mobilizar o país — disse ela.

Kim Kataguiri chamou o encontro de "um primeiro passo" para afastar Bolsonaro. Ativista do grupo Movimento Brasil Livre (MBL), ele foi uma das lideranças que lutaram pelo afastamento da então presidente Dilma Rousseff em 2016.

— Eu disse que não seria possível fazer atos conjuntos, porque temos visões muitos distintas e rivalidades. O MBL e o PT têm diferenças históricas que não vão ser superadas, mas a gente poderia organizar atos no mesmo dia, mesmo horário, para ter uma demonstração de força conjunta. Algo que seja possível fazer durante a pandemia — declarou Kataguiri.

Para a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, o maior desafio para fazer prosperar o impeachment de Bolsonaro é a mobilização social em meio a uma pandemia em que o distanciamento social é a palavra-chave. Durante o processo de afastamento de Dilma, manifestações de rua nas principais capitais do país foram importantes para pressionar o Congresso.

Os participantes dizem acreditar, no entanto, que o modo com que o presidente vem lidando com a pandemia pode fortalecer a causa. A gestão de Bolsonaro na crise sanitária foi considerada ruim ou péssima por 54% dos brasileiros em março, de acordo com a mais recente pesquisa Datafolha. Aqueles que avaliavam a gestão como ótima ou boa eram 22%.

— A articulação na Câmara para aumentar a possibilidade do impeachment só vai acontecer se houver uma pressão social. Se não tiver, é difícil. A maioria (dos participantes do encointro) acha que não temos que chamar atos (de rua). Alguns colocaram que teríamos que ter atos diferenciados. Mas todo mundo sabe que mobilização social é importantíssima — declarou Gleisi.

O deputado federal Alessandro Molon (PSB-RJ) disse ter visto muita disposição em Frota, Joice e Kataguiri em "olharmos para aquilo que nos une e não para aquilo que nos afasta", apesar das diferenças ideológicas entre o trio e os partidos de esquerda, de quem são rivais em plenário.

— Ninguém tratou de nossas divergências sobre o papel do Estado na economia. O assunto foi a necessidade de livrar o Brasil de Bolsonaro para salvar a vida dos brasileiros — afirmou Molon.