'Esquerda volver' ou 'not today'? O que esperar do México de López Obrador

AP Photo/Marco Ugarte

Por Ivan Longo/ Agência PLANO

É quase unânime, entre a esquerda ou mesmo a direita mexicana, que a vitória de Andrés Manuel López Obrador para a presidência do país, em julho passado, pode ser considerada histórica e representa o início de um novo capítulo da política do México. O que ainda gera dúvidas são os efeitos práticos que essa vitória, marcada pelo simbolismo, poderá gerar a partir de 1º de dezembro, quando AMLO, como é conhecido entre os mexicanos o novo presidente, assume o posto oficialmente.

Para entender a importância da eleição avassaladora López Obrador, que ganhou com mais de 50% dos votos válidos, é preciso resgatar o contexto que precedeu o evento que, para alguns analistas mais exagerados, representa o fato político mais importante desde a Revolução Mexicana, em 1910.

Precedentes

Ocorre que o país foi governado por quase 80 anos pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI), legenda criada em 1929, logo após a revolução que derrubou o ditador Porfírio Díaz. O caráter revolucionário do partido no comando do governo foi sendo substituído, ao longo das décadas, por um perfil  autoritário e cada vez mais alinhado às políticas neoliberais estadunidenses. A hegemonia do PRI foi interrompida no ano de 2000, quando o Partido da Ação Nacional (PAN), com Vicent Fox, ganhou as eleições. Desde então o governo federal foi revezado entre os comandos de PRI e PAN, que intensificaram o programa neoliberal e encamparam políticas fracassadas, marcadas por corrupção, que intensificaram a pobreza, a violência e o poder do narcotráfico.

O resultado de décadas deste establishment pode ser traduzido através de alguns números: 43% da população mexicana, atualmente, vive na pobreza, sendo 10 milhões em condições de miséria absoluta. Em 2017, dados oficiais apontam uma média de 80 mortes por dia, um recorde em toda a história do país.

Diante deste cenário alarmante, AMLO, que no auge de seus 64 anos já disputou outras duas eleições presidenciais, despontou para a população, com seu discurso nacionalista, anti-corrupção e comprometido com o combate às desigualdades, como a esperança de mudança com relação a um sistema que, notadamente, piorou a vida dos mexicanos. Com o seu Movimento de Regeneração Nacional (Morena), a coligação que o elegeu, López Obrador ganhou o apoio da classe trabalhadora e de movimentos populares e, por isso, é visto como uma figura mais inclinada à esquerda no espectro político do México.

“A vitória de López Obrador é resultado de um descontentamento geral contra os governos da direita neoliberal e resultado do trabalho de muitos movimentos sociais, muitas lutas de resistência”, explica Héctor De La Cueva, coordenador geral do Centro de Investigação Laboral e Assessoria Sindical (Cilas). De acordo com De La Cueva, venceu nas urnas menos a figura de AMLO em si, mas mais a rejeição à continuidade do projeto neoliberal vigente há décadas.

“O mais importante da nova situação não é tanto quem ganhou, que foi López Obrador. A grande maioria, milhões de mexicanos, votou contra os partidos dominantes e claramente em uma direção mais à esquerda ou progressista”, completa.

É o que pensa também o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Igor Fuser. “A vitória de López Obrador é consequência do fracasso dos governos neoliberais em reverter a escalada da pobreza, a regressão econômica e a explosão da violência no México”.

Lamia Oualalou, jornalista franco-marroquina que vive na Cidade do México e atua como correspondente de América Latina, vai na mesma linha. “Ele ganhou porque o PRI foi um desastre total, as pessoas não queriam que PRI voltasse de jeito nenhum e também rejeitavam o PAN. Não foi nem tanto pelas propostas que ele fez, claro que tinha muitas propostas sociais, mas não eram muito claras”, afirma. Para a correspondente, apesar de ser ainda impossível avaliar se, de fato, haverá mudanças, somente a vitória de Obrador já traz ao país um aspecto que já não existia mais: o da esperança.

“Na prática há um aspecto que tinha desaparecido há muito tempo e falta muito no Cone Sul: a esperança. E aqui a esperança está voltando. Vamos ver o que ele vai conseguir fazer com isso, mas é uma coisa muito positiva”, avalia.

Os principais desafios de AMLO

É unânime também entre a população mexicana e as fontes ouvidas para esta reportagem que os maiores problemas hoje do México e, consequentemente, os principais desafios que López Obrador terá que enfrentar como presidente, são a violência e a pobreza.

Assassinatos, sequestros, desaparecimentos, deslocamentos e corrupção das Forças Armadas e várias instâncias do governo, que negociam poder com as máfias do narcotráfico, dividem o protagonismo das mazelas mexicanas com a brutal desigualdade social e a pobreza.  Foi a promessa de resolução desses problemas um dos motores da campanha de Obrador.

“Os principais problemas no México são corrupção, insegurança e pobreza. Resolvê-los ou agir sobre eles é a principal aposta dos eleitores para o novo governo”, aponta o fotojornalista Héctor Alfaro.

De acordo com Héctor de La Cueva, do Cilas, o fato de o México ser hoje um dos países com os salários mais baixo do mundo e com miséria crescente é “consequência de mais de 30 anos de neoliberalismo”.

“A violência e a insegurança, claramente, vêm junto com esses governos de direita”, completa. Para o pesquisador, é neste sentido que a eleição de López Obrador traduz uma esperança de mudança. “É certo que López Obrador rompe com esse controle hegemônico da direita neoliberal mafiosa, que governa o país há décadas. É um personagem que pode combater à fundo a corrupção, que está disposto a abrir campos democráticos. Há diferença entre AMLO e os outros pois ele se posiciona um pouco mais ao lado do povo, da democracia, em defesa da soberania nacional”, diz.

As expectativas de De La Cueva são explicadas por algumas promessas do presidente eleito. Em seu programa de governo, há “12 propostas para transformar o México”, que incluem, principalmente, medidas anti-corrupção, de valorização da educação e saúde pública, programas sociais e de distribuição de renda e revogação de decreto de venda de serviços públicos, como o da privatização da água.

“López Obrador precisa, em primeiro lugar, deter o processo de desmanche e privatização da empresa estatal de petróleo Pemex, similar ao que está ocorrendo por aqui com a Petrobras. Em segundo lugar, Lopez Obrador, se quiser permanecer a altura das expectativas dos eleitores, precisa mudar a política externa mexicana, rompendo com o alinhamento incondicional aos EUA e adotando posturas de maior autonomia. Só esses dois pontos já significarão um grande avanço em relação às posições atuais”, opina o professor de Relações Internacionais, Igor Fuser.

O fotojornalista Carlos Ogaz, crítico com relação ao discurso de que Obrador teria um viés mais “à esquerda”, aponta que algumas propostas do presidente eleito, se cumpridas, podem ao menos dar de volta ao México o que as pessoas consideram um “estado de bem-estar social”.

“A luta contra a corrupção, cortar os salários obscenos para os funcionários públicos e melhores programas de bem-estar é o que se espera. Alguns esperam o retorno do estado de bem-estar, que também está relacionado com as mudanças que o Sr. López prometeu encampar em seu mandato presidencial”, explica Ogaz.

O corte de salários e privilégios, inclusive, foi uma pauta muito repetida por Obrador durante a campanha e tal comprometimento do candidato vitorioso, para o fotojornalista Héctor Alfaro, já sinaliza uma possibilidade de mudança. “Acredito que as mudanças levarão tempo para serem projetadas, mas o corte de recursos que se aplicará em todos os níveis de governo com certeza provocará efeitos econômicos que podem resolver alguns problemas que temos”, arrisca.

Para Lamia Oualalou, que vive atualmente na Cidade do México e que já trabalhou como correspondente do jornal francês Le Figaro no Rio de Janeiro, um aspecto que pode reforçar as esperanças de mudança na vitória de Obrador é o fato de que sua eleição veio acompanhada da eleição de maioria governista no parlamento, o que o dá mais possibilidade de concretizar sua agenda, diferente do que aconteceu no Brasil. “Ele tem o apoio da grande maioria da população, dos jovens, das classes populares, e além disso tem maioria no Congresso. Ele não vai poder usar o argumento de governabilidade, que não vai dar para fazer. Este foi o grande problema dos mandatos do Lula e Dilma Rousseff no Brasil, abriram mão de muita coisa e tiveram que incluir pessoas pouco recomendáveis no governo por conta dessa incapacidade de construir uma verdadeira maioria”, compara.

Problemas e contradições

Apesar de Obrador ter encampado, ao longo de sua campanha, um discurso mais nacionalista e voltado para o combate à corrupção, à violência e à redução de desigualdades, muitos acreditam que o futuro presidente não está totalmente desatrelado da lógica neoliberal que governou e governa, até o momento, o país.

Segundo Carlos Ogaz, o modelo econômico neoliberal permanece, “o que não traz nenhuma mudança estrutural em segundo plano”, diz. Para exemplificar, o fotojornalista lembrou do fato de que o plano de governo de Obrador inclui projetos estratégicos para o setor empresarial.

“É o caso da construção do Novo Aeroporto Internacional da Cidade do México. Em 2002, camponeses de San Salvador Atenco – o centro do país – rejeitaram um decreto de desapropriação que tomou suas terras para construir o aeroporto. Em 2006, foram duramente reprimidos por Enrique Peña Nieto como vingança por lutaem para barrar a construção do aeroporto. Houveram dois assassinatos e centenas de detidos sujeitos à torturas. Os principais líderes do movimento de oposição foram condenados a 112 anos em uma prisão de segurança máxima. A administração de Peña Nieto como presidente da República em 2012 reativou a construção do projeto do Aeroporto Internacional. No início da campanha presidencial, claro, Lopez Obrador prometeu cancelar o projeto, que deu uma esperança esperança aos movimentos sociais. No entanto, após algumas semanas, o Sr. López retirou o cancelamento e se juntou ao setor de negócios responsável pela construção do aeroporto”, narra.

O fotojornalista também citou a decepção de parte dos setores da esquerda mexicana com algumas nomeações feitas por AMLO que denotariam uma certa manutenção do establishment político.

“Pouco a pouco, a esperança está se dissipando, particularmente com os movimentos sociais no México. Isso está relacionado com a nomeação de alguns personagens questionáveis para seu gabinete de governo. Um deles é Alfonso Romo, o segundo homem mais poderoso do próximo governo, que tem sido caracterizado como um homem de negócios conservador que é contra o aborto e a favor da propriedade privada no campo. Além de Romo, teve também a nomeação de Victor Villalobos, chamado de “o senhor da GM”, que foi anunciado como secretário da Agricultura e que em 2004 apoiou a Lei de Biossegurança no México, também chamada de lei Monsanto”, explica.

Héctor De La Cueva, que é mais otimista com relação ao caráter supostamente popular do futuro governo de Obrador, também tem suas ressalvas. “Em nenhum momento podemos ter a expectativa de que será um governo de socialista, totalmente anti-neoliberal. Não são política claramente anti-neoliberais, há uma parte das propostas que ele anunciou que não rompem claramente com o neoliberalismo, há um certo grau de continuidade”, pondera.

De La Cueva chama a atenção ainda para o fato de que López Obrador foi eleito com apoio não só dos setores populares mas também respaldado pelo setor empresarial, o que liga um sinal de alerta. “Empresários e até mesmo os Estados Unidos estão muito contentes com Obrador. Parece que realmente vai governar para todos. Mas, evidentemente a direita, o poder, os grandes, finalmente permitiram que Obrador ganhasse. Por isso será uma incógnita. O preço que vão cobrar pode ser muito alto. Talvez inclua manter o sistema de ganâncias políticas. No momento em que ele imponha limites, ou queria aplicar outras políticas, os poderes não devem permitir. De outro lado, o povo e os movimentos sociais vão exigir e, caso se vejam frustrados, vamos ter uma situação complicada a médio prazo”, prevê.

Um novo olhar para a região?

Para a correspondente internacional Lamia Oualalou, López Obrador, apesar de seu perfil mais à esquerda, não tem sinalizado muito interesse em mudar a forma de diálogo com a América Latina.

“Não sou muito otimista com relação a um efeito desta eleição para a América Latina. Ele não falou nada sobre o Lula, nunca pisou muito na região, não demonstrou muito interesse. Vejo  manchetes muito otimistas na América Latina ou na Europa dizendo que ele é o novo líder da esquerda latino-americana… Primeiro, esquerda é uma coisa muito entre aspas e, segundo, latino-americana, não muito. Essa relação com os  Estados Unidos fez o México ficar cada vez mais longe da América Latina. Tudo que tinha de relações fortes construídas com o PRI, que apesar de tudo tinha uma relação forte com a região, tudo isso sumiu, já não tem mais. Então a cabeça da elite mexicana é muito norte-americana”, diz a jornalista, que afirmou ainda esperar, no governo de AMLO, uma posição mais neutra com relação à países como Venezuela ou Cuba. “Agora é muito mais agressivo, alinhado aos Estados Unidos. Vamos ver que posição ele vai tomar”.

Já o professor de Relações Internacionais, Igor Fuser, neste sentido, é mais otimista, e acredita que a vitória de Obrador tem um caráter simbólico para a região.

“A vitória de Lopez Obrador rompe a hegemonia neoliberal e o bipartidarismo vigente na prática desde 2000 entre o PRI e o PAN. Tem um sentido simbólico ao mostrar que o avanço da direita na América Latina é relativo e pode ser contrabalançado com vitórias da esquerda. Fica difícil sustentar a teoria furada da “fim do ciclo progressista” com a vitória do Morena no México, o segundo país mais importante da América Latina”, opina.