Esquerdista Boric sai na frente de Kast no início da apuração presidencial no Chile

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BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - O início da apuração do segundo turno da eleição presidencial chilena, neste domingo (19), mostra o candidato Gabriel Boric, de esquerda, à frente do ultradireitista José Antonio Kast. Com 13,1% das urnas apuradas, o nome da Frente Ampla tem 53,3% dos votos, contra 46,6% do candidato do Partido Republicano.

A tendência inicial indica uma virada em relação ao primeiro turno, quando Kast liderou a corrida, com 27,9%, e Boric ficou logo atrás, com 25,8%. Caso seja eleito, o esquerdista se tornará o presidente mais novo da história do Chile, com 35 anos, idade mínima para se candidatar ao cargo.

Líder estudantil que comandou os protestos pela gratuidade do ensino universitário em 2011, Boric se tornou, depois, deputado por dois mandatos. Já Kast é um velho conhecido da política chilena. Deputado de 2002 a 2018, concorre à Presidência pela segunda vez --na primeira, conquistou 8% dos votos.

Os candidatos contrastam também nas propostas. Enquanto Boric defende uma reforma no sistema de previdência, Kast quer a manutenção dos fundos de pensão privados e, na campanha, apostou no discurso anticomunismo e contrário à imigração ilegal.

O esquerdista também defende a legalização do aborto e do cultivo da maconha, embora não seja favorável a uma política de legalização mais ampla das drogas. Kast, por sua vez, sustenta uma plataforma conservadora nos direitos civis e quer a militarização do sul do país, onde grupos de defesa dos direitos dos indígenas mapuche estão em confronto contínuo com proprietários de terras.

O ultradireitista se diz um admirador de Augusto Pinochet e votou pela continuidade da ditadura militar no plebiscito de 1988. Filho de imigrantes alemães, um de seus irmãos foi ministro durante o regime.

O dia de votação foi permeado de tensão devido a grandes engarrafamentos na região metropolitana de Santiago, forte calor e registros de dificuldades para acessar o transporte público em zonas rurais.

Os relatos fizeram com que ambos os candidatos reclamassem do sistema de transporte. Em um áudio, Kast afirmou que em algumas regiões há poucos ônibus e pediu ao governo que disponibilizasse toda a capacidade possível para que as pessoas pudessem votar. "Enquanto isso, apelo à sociedade, aos vizinhos que tenham veículos, que ajudem a levar o máximo de pessoas aos locais de votação."

Boric, por sua vez, em uma escala do voo que fez de Punta Arenas, onde votou, para a capital, divulgou um áudio no qual disse ter recebido relatos de problemas no transporte público tanto na região metropolitana como na zona rural. "Mais do que atribuir responsabilidades, o que peço é que o governo busque uma solução, depois vemos o que aconteceu. Mas sabemos de lugares em que apenas 50% da frota de ônibus está funcionando. Há regiões rurais em que o transporte público simplesmente não está passando."

A ministra do Transporte, Gloria Hutt, porém, negou uma diminuição no fluxo dos ônibus e afirmou que os veículos do transporte público estão trabalhando "como em um dia de trabalho normal". "O que temos visto nas últimas horas é que há episódios de congestionamento, e isso afeta o transporte público."

Hutt excluiu a possibilidade de que ônibus tenham sido tirados de circulação para impedir a mobilidade dos eleitores. "Não fizemos isso, há contratos a cumprir entre as empresas e o ministério, e estamos vigiando para que isso se cumpra". Jaime Bellolio, porta-voz do governo, foi na mesma toada. "Estamos em um momento polarizado, estão falando mentiras. Há demora porque há muito trânsito."

Boric e Kast votaram praticamente no mesmo horário, por volta das 9h20. Boric foi a um colégio de Punta Arenas, sua cidade-natal, e Kast, a um local de votação em Paine, na região metropolitana de Santiago.

O esquerdista chegou acompanhado da namorada, Irina Karamanos, e do irmão Simón. "O sentido de responsabilidade histórica que sinto é tremendo. Estou com esperança e tranquilo, porque fizemos uma campanha limpa, sem difundir mentiras. Nesta noite, vamos respeitar o resultado, seja qual for."

Já Kast afirmou esperar que o resultado seja "muito apertado" e disse estar "confiante de que os dados do Servel [órgão eleitoral chileno] serão corretos". "Mas se o resultado for muito apertado, os fiscais de mesa terão um papel importante, e essa eleição poderia ser definida nos tribunais eleitorais."

O próximo presidente do Chile assume em 11 de março de 2022 com uma lista de desafios evidentes.

Entre a série de problemas a lidar estão a responsabilidade de iniciar a reforma da previdência, principal anseio dos chilenos, a crise econômica do país, a continuidade da política de combate à pandemia de coronavírus, o encaminhamento do processo da Assembleia Constituinte e a tentativa de estabelecer uma relação harmoniosa com o Congresso, no qual não há uma maioria clara.

Frente à pior recessão em décadas, a economia aparece como a questão mais latente. O PIB encolheu 6 pontos percentuais em 2020, devido ao impacto da Covid, que também causou a perda de 1 milhão de empregos, e o nível de pobreza, por sua vez, foi de 8,1% em 2019 para 12,2% em 2021.

Embora seja esperado um crescimento de 5,5% do PIB em 2021, a recuperação ainda é frágil e lenta para atender ao aumento das necessidades sociais e dos gastos feitos pelo Estado para minimizar o impacto da pandemia. A inflação pode superar os 6% neste ano, dobro da meta estabelecida pelo Banco Central.

Ainda na área econômica, o governo terá de lidar com os efeitos da retirada de US$ 50 bilhões dos fundos privados de pensão, liberados pelo Congresso na pandemia, contrariando o presidente Sebastián Piñera.

Da relação do governo com o Congresso depende o sucesso das negociações para aprovar as reformas e definir os próximos passos da Assembleia Constituinte. Espera-se que o plebiscito para aprovar ou rejeitar a nova Carta ocorra em outubro, e a nova Constituição pode ter entre seus artigos a mudança do sistema presidencialista para o parlamentarista, ou mesmo a redefinição da duração do mandato do presidente.

Neste caso, o mandatário eleito poderia ter de convocar novas eleições ou sair do cargo antes do previsto.

O sucesso do Chile na campanha de vacinação contra a Covid também representa um alto patamar a ser mantido. O país tem 85,7% da população com duas doses, e 51,2%, com três. À Folha Rodrigo Yáñez, subsecretário de economia do Ministério das Relações Exteriores, afirmou que o país tem vacinas suficientes para terminar a imunização com a dose de reforço e iniciar a aplicação da quarta dose, mas que é necessário começar as negociações para a campanha no segundo semestre do ano que vem.

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