Esses meus cabelos cor tangerina

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O leitor Italo Granato enviou email simpático, elogiando minhas crônicas sobre o cotidiano. Contou-me que se orgulha da filha, capaz de tomar boas decisões mesmo após os anos surdos da adolescência, quando a voz dos pais torna-se tão imperceptível quanto as ondas de rádio. Ele se despede, mas logo depois desiste, talvez motivado pela intimidade que emana das cartas. E acrescenta um recado: “a sua família deve odiar o seu cabelo na foto da coluna”.

Italo, você não tem ideia. Vamos falar de cabelo. E de mulheres. E de família. E de como é difícil, crescer numa família de mulheres, com todas reclamando do meu cabelo. Mãe e duas irmãs, fazendo-me de assunto e preocupação. Eu não hidrato, elas dizem. Eu não faço escova. Meu xampu nunca é o bom, e o salão que frequento é o banheiro lá de casa.

Italo, talvez você seja careca. Talvez tenha uma franja. São os dois extremos, do tradicional look masculino. Que eu invejo nos homens, como nunca senti inveja do pênis, inclusive acho que Freud desconhecia os martírios e rituais da vaidade feminina para elaborar uma teoria producente. Homem não depila, a eles não é sugerido usar calcinha enfiada na bunda, e, quanto aos cabelos, tudo se resolve com um pente ou passada de mão, quiçá um xampu de caspa. Já mulher precisa ter a coragem, o carisma e a competência da Angela Merkel para meter a tesoura nos fios e não ligar. Esse desprendimento estético, e não o que se aconchega naquilo roxo, é o que eu invejo.

Gasto uma energia danada com vãs preocupações. Peso, pele, pescoço, pelos, papada, pés, e ainda nem saímos do P, Italo. Consumo cremes e ácidos, tênis de corrida, aulas de yoga, vestidos e brócolis, mas nunca tive paciência para ficar com o umbigo colado na bancada do banheiro sob o jugo de um secador. Eu me resolvo com um coque ou fingindo que não me conheço ao passar de relance por um espelho. Funciona porque quase não saio, no trabalho sou só eu e o computador, o computador nunca disse que estou feia, e os computadores não mentem porque não falam. Mas perto de outras mulheres, e perto de mulher que é família, é o oposto. Elas falam e não mentem. Anos de tintura e de negligência, elas dizem, fizeram meus fios rebeldes e secos. Tanto implicaram que decidi alisar o cabelo, num processo que envolvia chapa quente.

Ah, Italo. Queimei tudo. Fiquei loura. E com o cabelo liso, no estilo vaca lambeu. Era tudo o que eu queria, mas quando tinha uns 12 anos e odiava as madeixas castanhas rebeldes. A gente aprende cedo a se desprezar. Vem dos pares, da TV, da escola, quem sabe até da água, a ideia de que se tornar mulher é começar a reclamar de si. Demora um tempão para a gente se desconstruir e se refazer com amor, e quando acontece, eis que a utopia loura se realiza como acidente. Mas não com uma cor Vera Fischer ou Grace Kelly. O meu era um louro tangerina, e Italo, cabelo com cor de fruta não é bom. Parecia que eu tinha passado a vida na praia, sem o benefício do ócio e dos mergulhos.

Já me disseram (mamãe) que nesta foto da coluna eu estou com um cabelo de capacete. Imagino que o pessoal do GLOBO usou photoshop para me pentear. Mas perto do que atravessei há pouco ao coçar a nuca, esse cabelo da foto é uma beleza. Resta-me a esperança do crescimento capilar, e o silêncio conveniente do meu computador.

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