'Está havendo excesso de pânico em relação ao coronavírus', diz presidente do BB

Gabriel Martins

RIO - O presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, avaliou que o mercado está nervoso demais em relação à epidemia do novo coronavírus, que já tem nove casos confirmados no país. Novaes reforçou que a epidemia é grave e que certamente vai afetar a economia, porém, avaliou que em cerca de quatro meses a situação volta à normalidade.

- Está havendo excesso de pânico em relação ao coronavírus. Óbvio que é uma epidemia forte, já afetou China e agora está afetando Europa e Estados Unidos. Na economia, o reflexo acontece por meio de um choque de oferta, que paralisa algumas atividades, gerando problemas mais sérios para alguns setores da economia. Mas é um fator temporário, vai durar três ou quatro meses. Depois voltará a normalidade - disse o presidente do BB, durante evento na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ).

Novaes também minimizou os possíveis impactos do Covid-19 (doença causada pelo novo coronavírus) no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.

- Alguns economistas do Banco Central avaliam que a doença possa ter impacto na ordem de 0,5% no PIB, mas não é um cenário muito dramático. Isso é um problema passageiro. É sério, alguns setores vão sofrer mais que outros, mas é algo temporário. A doença não está mudando o sistema econômico de forma geral, a substância (da economia) não está sendo alterada.

Setor público x PIB

Novaes também falou sobre o baixo crescimento da economia em 2019, quando o PIB desacelerou para 1,1%, na comparação com a expansão da economia em 2018. O presidente do BB afirmou que o ponto mais importante é avaliar os dados relacionados ao consumo do governo, que recuou 0,4% no ano passado. Embora o número seja negativo, Novaes avalia o indicador como positivo:

- O que puxou o PIB para baixo foi o setor público, com as despesas do governo caindo. Isso não é ruim nesse momento porque mostra que o governo está se ajustando. As contas públicas em desarranjo eram nosso maior problema. A contração das despesas públicas acaba sendo necessária. O setor privado que é o lado mais saudável da economia.

Embates políticos

Durante seu pronunciamento, o presidente do BB também destacou seu receio em relação aos atritos políticos, principalmente caso eles causem algum impacto negativo sobre as reformas econômicas que ainda faltam ser aprovadas.

- Surge a dúvida entre o empresariado se seremos capazes de dar apoio às reformas econômicas necessárias. Aprovamos a Previdência, que foi um sucesso. Ela ajudou muito, mas sozinha ela não basta. Um outro fator que surge como receio é que parece ter desacerto entre Executivo e Legislativo, há um certo conflito. Mas acreditamos que haverá bom senso de todas as partes e que haja a percepção de que as reformas sejam feitas, e ainda neste ano.

Ainda sobre a relação entre os poderes, Novaes relembrou um plebiscito da década de 1990, na qual os brasileiros tiveram de escolher entre parlamentarismo ou presidencialismo. O presidente do BB avaliou que, dado "tudo que aconteceu no passado", o apoio popular ao presidencialismo seria ainda maior.

- Em 1993, houve um plebiscito para que fosse escolhido entre presidencialismo ou parlamentarismo. Deu 69% para presidencialismo. Se essa mesma votação fosse feita atualmente, o percentual seria maior, dado tudo que aconteceu na política nacional em anos passados. Temos um sistema que não é presidencialismo nem parlamentarismo, e isso atrapalha os programas nacionais.

Novaes também frisou que, no atual sistema, a palavra final acaba sendo do Congresso:

- A palavra final ainda é do Congresso. O Executivo pode ter as melhores iniciativas, mas a palavra final é do Congresso. Um veto presidencial depois pode ser derrubado pelo Congresso.