Estádio e dívidas impedem que Corinthians e Fla sejam hegemônicos

LUCIANO TRINDADE
Corinthians x Flamengo durante a Copa do Brasil 2018. Foto: Alexandre Schneider/Getty Images

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sete anos após a mudança que fez com que cada clube negociasse individualmente os seus contratos de televisão para o Campeonato Brasileiro, a previsão de que Corinthians e Flamengo, clubes de maior torcida do país e que têm mais jogos transmitidos pela TV, teriam domínio no futebol brasileiro devido a negociações mais vantajosas por seus direitos de transmissão não se confirmou.

As duas equipes, que se enfrentam nesta quarta-feira (15), às 21h30, em Itaquera, pelo jogo de ida das oitavas de final da Copa do Brasil, tiveram diferentes percalços, dentro e fora de campo, nesses anos. Esses imprevistos impediram que os times desempenhassem papéis semelhantes aos de Real Madrid e Barcelona, potências quase inatingíveis no futebol espanhol.

Segundo o economista Cesar Grafietti, executivo do Itaú BBA responsável por estudos sobre a situação financeira dos clubes brasileiros, enquanto o Flamengo priorizou o saneamento de suas dívidas, o Corinthians passou a lidar com os gastos para a construção de seu estádio.

"Todo mundo pensou na 'espanholização' por causa do crescimento das receitas de TV. Mas o Flamengo tinha questões internas para resolver, especialmente de dívidas para colocar em ordem, que consumiram esse dinheiro. Foi um componente importante nesse processo de saneamento. O clube usou muito bem esse adicional", ele diz.

Já o Corinthians, para o economista, perde a receita de bilheteria para pagar a arena: "São cerca de R$ 60 milhões, R$ 70 milhões por ano, fora o dinheiro extra que eventualmente precisou colocar para pagar as prestações. A questão do estádio é o calcanhar de Aquiles nas finanças do clube."

No cenário atual, o principal reflexo é a capacidade de investimento de cada clube. No orçamento para esta temporada, o time carioca previa R$ 100 milhões para contratações, mais do que o dobro do montante previsto pelos corintianos, de R$ 42,2 milhões.

Apenas para tirar o meio-campista uruguaio De Arrascaeta, 24, do Cruzeiro, o Flamengo desembolsou em janeiro cerca de R$ 65 milhões.

O investimento mais alto do Corinthians para este ano também foi em um uruguaio, o zagueiro Bruno Méndez, 19, que ainda não estreou e custou R$ 13 milhões ao clube.

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O diretor financeiro do time do Parque São Jorge, Matias Romano de Ávila, defende a política de contenção de gastos e contratações de atletas que não extrapolem o teto salarial do elenco, estimado em cerca de R$ 450 mil.

"Nós não vamos fazer o que os outros estão fazendo. Não adianta pagar R$ 1 milhão de reais para um jogador porque ele vai embora. É melhor trabalhar com jogadores mais jovens. O Corinthians não vai adotar uma postura agressiva de retenção pagando altos salários", diz o dirigente.

A posição do diretor financeiro corintiano se baseia nos resultados recentes obtidos pelo time paulista. Mesmo sem grandes investimentos, o clube conquistou mais títulos do que o Flamengo nos últimos sete anos.

Foram dez taças erguidas pelo Corinthians desde 2011, entre elas a Libertadores e o Mundial de Clubes, além de três Brasileiros. O time carioca obteve cinco troféus, mas somente um de nível nacional, a Copa do Brasil de 2013.

Em contrapartida, a equipe rubro-negra teve um salto em suas receitas. Em índices corrigidos pela inflação, o clube teve aumento de 72% no faturamento na comparação dos anos de 2011 e 2018. Há sete anos, o time teve receita de R$ 299,7 milhões (valor corrigido pela inflação) e, na última temporada, esse montante foi de R$ 516 milhões.

A expectativa para esta temporada é ainda mais otimista, sobretudo pelo novo modelo de divisão das cotas de TV.

Detentor dos direitos de exibição do Brasileiro na TV aberta -até o momento, só não fechou com o Palmeiras-, o Grupo Globo negociou individualmente com os clubes os acordos de transmissão.

Todas as agremiações vão dividir igualmente 40% do valor total da cota, 30% serão divididos de acordo com a posição de cada time na tabela e outros 30% de acordo com o número de partidas televisionadas. Esse é um dos pontos que fazem Corinthians e Flamengo se destacarem, uma vez que possuem mais jogos transmitidos devido ao tamanho de suas torcidas.

Além disso, o novo contrato do pay-per-view estabelece que os clubes vão dividir um valor mínimo de R$ 650 milhões. Deste montante, Corinthians e Flamengo receberão um valor mínimo fixo, que representa 18,5% do total.

Até 2010, os clubes negociavam as cotas de TV em conjunto, por meio do extinto Clube dos 13. A partir de 2011, os clubes passaram a negociar individualmente, e Flamengo e Corinthians mais que dobraram essa receita.

Em 2011, o time paulista recebeu R$ 171 milhões (em valor corrigido pela inflação) por seus direitos de TV. No ano anterior, o montante havia sido de R$ 89 milhões.

A próxima meta do Flamengo é aumentar a sua carteira de sócios-torcedores. Mesmo sendo dono da maior torcida do Brasil, com 18% dos torcedores do país segundo pesquisa Datafolha divulgada em 2018, o time tem 21.444 sócios-torcedores, segundo o site Por Um Futebol Melhor.

No ranking do futebol brasileiro, o líder é o Internacional, com 207 mil sócios. O Flamengo é só o 17º colocado, enquanto o Corinthians aparece em sexto, com 117 mil.

A boa gestão financeira do time da Gávea, no entanto, não foi suficiente para o clube estabelecer uma filosofia de contratações de técnicos que evitasse o alto rodízio que ocorreu nos últimos anos, sendo um dos fatores que ajudam a explicar a série de fracassos acumulados em campo.

O Flamengo teve 17 trocas de treinador entre 2011 e 2019, média de quase três por temporada. No mesmo período, o Corinthians teve 9 treinadores, entre eles Tite e Fábio Carille, que tiveram estabilidade e foram responsáveis pelas dez conquistas recentes.