Estado reconhece que diplomata que queria denunciar corrupção foi morto pela ditadura

José Jobim desapareceu uma semana depois da posse de João Figueiredo (foto) como presidente da República, em 1979 (Imagem: Wikicommons)

O governo federal reconheceu na última sexta-feira (21), que o diplomata José Jobim foi sequestrado, torturado e morto pela ditadura militar em 1979. Jobim desapareceu após declarar que tornaria público seu conhecimento a respeito de irregularidades na construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, que custou cerca de US$ 30 bilhões, valor dez vezes maior que o previsto; à ocasião, o governo tratou o sumiço com a hipótese de suicídio, pois o corpo do embaixador foi encontrado pendurado pelo pescoço em uma corda amarrada ao galho de uma árvore.

No entanto, ao longo de 40 anos a filha de Jobim, Lygia, conseguiu comprovar o assassinato do pai e alterar a causa da morte em sua certidão de óbito. O caso foi relatado pela revista Época.

“Isso é só uma etapa, não é o final. Desde a morte da minha mãe, eu venho dizendo a ela, esteja onde estiver, “mãe, eu estou indo em frente. Aos poucos, vamos chegar lá. Eu não esqueci, não vou esquecer, fica tranquila”, contou Lygia à revista. “Com base nesse atestado, tenho material suficiente para levar o caso à Corte Interamericana de Direitos Humanos”, acrescentou.

Em 15 de março de 1979, o diplomata foi até Brasília para acompanhar a cerimônia de posse do general João Figueiredo como presidente da República. Já aposentado, comentou, durante a viagem, a intenção de escrever um livro de memórias, no qual citaria detalhes da obra em Itaipu. Uma semana depois, desapareceu após sair para visitar um amigo e seu único contato foi com a dona de uma farmácia na Barra da Tijuca, que telefonou para a família do embaixador para relatar que ele havia deixado um bilhete com ela.

No recado, Jobim alertava que havia sido sequestrado e que seria levado para “depois da Ponte da Joatinga”. Seu corpo foi encontrado por um gari, dois dias depois, a um quilômetro da ponte. À Comissão Nacional da Verdade, a viúva de Jobim afirmou que a polícia esteve em sua casa para apurar o ocorrido e soube da ligação, mas não tomou nenhuma providência.

Médicos e policias desconfiaram que o embaixador não fora enforcado, e sim assassinado. No entanto, não houve inquérito para apurar o caso e a certidão de óbito registou a morte por “causa indefinida”. Em 2014, com a divulgação do relatório da Comissão da Verdade, a história passou a ser revisada.

“Quando soube que a certidão estava pronta, minha sensação foi de grande aproximação com meu pai. Uma certidão de óbito é um documento pessoal e intransferível e eu senti que estava entregando a ele uma coisa que lhe pertencia por direito”, contou Lygia à revista.

José Jobim trabalhou no Paraguai no início das negociações sobre a construção da usina, entre 1957 e 1959. Pouco antes do golpe militar, foi enviado pelo então presidente João Goulart a um encontro com ministros paraguaios. Os documentos que comprovariam as irregularidades, segundo a filha, desapareceram de sua casa de forma “misteriosa”.