Estados do Brasil sem casos de coronavírus vivem apreensão

Bruno Marinho

Manuella Carvalho Feitosa é enfermeira epidemiologista em Boa Vista e vê a suspensão das aulas nas redes municipal e estadual de ensino de Roraima por 15 dias, desde a última segunda-feira, como um exagero. Segundo ela, essas medidas só seriam necessárias se já houvesse casos de transmissão comunitária do novo coronavírus - foi esse o procedimento adotado por outros governos, como os de Rio de Janeiro e São Paulo. Mas no estado mais ao norte do Brasil, a decisão veio sem que haja confirmação alguma de contaminação pelo Covid-19 até o momento.

Ela reconhece que sua opinião é a da minoria. Manuella vê a população na capital de Roraima assustada pela pandemia e pelo crescimento do número de casos em outras partes do Brasil. É quando a realidade local acaba sufocada pelo noticiário nacional.

- Acredito que a maioria acha que tem que "parar tudo mesmo". As pessoas estão assustadas. Só que tomam como base o que está acontecendo em outros estados. Tipo: "se o Rio parou então a gente tem que parar também!".

O crescimento do medo é recorrente mesmo onde o Covid-19 ainda não encontrado. De acordo com as últimas informações divulgadas pelo Ministério da Saúde, dos 26 estados da Federação e mais o Distrito Federal, seis deles ainda não possuem casos confirmados da doença. Além de Roraima, Amapá, Mato Grosso, Maranhão, Piauí e Rondônia estão zerados.

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Cada um deles vive a expectativa pela chegada do vírus com suas peculiaridades. Em Roraima, os noticiários locais acompanham atentamente tanto a evolução da doença em São Paulo quanto na vizinha Venezuela. O país registrou 42 casos até esta quinta-feira e desde quarta que a fronteira com o Brasil está fechada, por iniciativa do governo do presidente Jair Bolsonaro. Mas até então a entrada de imigrantes seguia normalmente, acompanhada pelo preconceito de parte da população local. Manuella admite que se houver casos de venezuelanos contaminados em território brasileiro, a resistência a eles poderá aumentar ainda mais.

Em Rondônia, o temor se manifesta nas pequenas coisas. Porto Velho, sem casos do novo coronavírus, vê sua população partir em disparada atrás de álcool gel, é o que relata Felipe Afonso Fontele Passos, 25 anos, auxiliar de depósito de uma farmácia na cidade. Segundo ele, a rotina das pessoas segue normal, com restaurantes, bares e shoppings centers funcionando. Mas a preocupação existe.

- Nosso sistema de saúde é extremamente precário. As upas só atendem emergências, basicamente. Sempre falta médico e só temos um hospital de referência em doenças infectocontagiosas, que obviamente não suportaria atender todo mundo. E falo isso morando na capital - ressaltou.

Encravado entre a floresta amazônica e o pantanal, na região central do continente sul-americano, o estado de Rondônia é conhecido pelo clima quente. A população, entre bom humor e uma dose de torcida para que seja verdade, brinca que o novo coronavírus não vai aguentar o calor da região. Vale ressaltar que não há comprovação de que o Covid-19 se adapte melhor a lugares com clima mais frio. Em todo caso, Carlos Alberto de Andrade Júnior, 38 anos, advogado, ainda lembra que Roraima está saindo do inverno amazônico para entrar em um período de mais calor e tempo seco, o que poderia ajudar o estado na luta contra o vírus, caso a tese do clima quente seja comprovada cientificamente.

- A verdade é que nosso noticiário aqui é mais nacional do que local. Mesmo sem a confirmação de casos, o estado já tomou algumas medidas. Então as pessoas acabam agindo como se já tivéssemos o vírus circulando por aqui.

Em Porto Walter, isolamento é trunfo

No Acre, a Secretaria Estadual de Saúde informou que três casos do novo coronavírus foram identificados, todos em Rio Branco. O que não quer dizer que a doença vá ter facilidades para se espalhar interior adentro. No extremo-oeste do país, Porto Walter é um município com população estimada em 12 mil habitantes, mais perto da fronteira com o Peru do que da capital do estado. Para se chegar lá, somente de barco, pelo Rio Juruá, ou então de avião de pequeno porte, capaz de pousar na pista de terra batida no meio da floresta amazônica.

Desde que as notícias do Covid-19 ganharam o país que o poder municipal tenta estabelecer uma estratégia para evitar a entrada do vírus na cidade. A ideia é aproveitar o difícil acesso para monitorar cada nova pessoa que chega, muitas delas de passagem, entre uma comunidade indígena e outra. Mesmo sem casos confirmados ou suspeitos, o começo do ano letivo no municipio foi suspenso.

Agora sem aulas, Porto Walter enfrenta todas as dificuldades características de quem está tão distante do poder político e economico do país - de acordo com o IBGE, só 2,5% das ruas são urbanizadas e apenas 0,4% do território possui esgotamento sanitário adequado. Doenças como dengue e malária são uma dor de cabeça constante e pacientes mais graves são levados de barco até a emergência do hospital na viizinha Cruzeiro do Sul. Mas ainda assim, é o novo coronavírus quem assusta as pessoas no momento.

- Estou consciente do perigo da doença. Ela é alarmante - afirmou José Ítalo de Almeida, 34 anos, enfermeiro de Porto Walter. - Mais preocupada ainda está a população. Não é porque somos do interior que não estamos. Temos outras enfermidades, mas o que nos assusta hoje é o coronavírus. Temos de controlar essa porta de entrada, porque depois, se abrirmos a porta, fica mais difícil de controlar a doença.