Estados registram queda na doação de sangue; confira as restrições para doar durante a pandemia

Felipe Grinberg e Guilherme Caetano
Estados registram queda na doação de sangue; confira as restrições para doar durante a pandemia

RIO E SÃO PAULO — Com a crise causada pelo coronavírus diversos estados registram queda significativa na doação de sangue. Em São Paulo houve queda de 30%, mas houve uma retomada após grande campanha do estado. No Rio de Janeiro, o Hemorio está em alerta após queda de 50% no número de doadores nesta semana. Em Minas, só há estoque o suficiente para atender a demanda por cinco dias.

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Em fevereiro, o Ministério da Saúde emitiu uma nota técnica com orientações de como deve ser a doação de sangue em meio a pandemia. Não há testes específicos para o codvid-19 no sangue coletado, mas, segundo a pasta, não há evidências de transmissão por transfusão de sangue do coronavírus, mas há medidas de precaução.

Com a suspensão de diversas atividades como faculdades e empresas, o impacto nas doações itinerantes do Rio de janeiro foi grande. O Hemorio possui quatro equipes para captar doadores que correspondem 35% do número diário de bolsas de sangue. Em março, estavam programadas 65 coletas, mas só quatro foram realizadas.

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Por causa da queda, o Hemorio montou um plano de contingência. As equipes móveis agora tentam captar doadores em quarteis da Polícia Militar, Bombeiros e em outras áreas onde não há suspensão de atividades. Na unidade do Centro, também foram tomadas medidas de prevenção como o afastamento mínimo de dois metros entres as poltronas.

— É importante a população saber que não há evidências da transmissão do vírus pela doação de sangue. Uma opção para quem não está saindo de casa é agendar a doação pelo telefone 0800-282-0708. Com hora marcada, o atendimento será mais rápido, com menos exposição. Também é importante acompanhar as redes sociais do Hemorio para saber se terá um posto itinerante perto da sua casa — conta o médico hematologista Luiz Amorim, diretor geral do Hemorio

O órgão tem disponibilidade para receber até 500 doadores por dia, quantidade suficiente para atender toda a rede pública do estado .É necessário que o Hemorio disponha de pelo menos 300 bolsas de sangue diariamente. Nesta semana a média diária foi de apenas 128 doadores.

Uma queda no número de doações de sangue em São Paulo, provocada em meio ao surto do coronavírus, levou organizações de saúde a acelerar uma campanha para atrair novos doadores. A mobilização surtiu efeito imediato. Depois de caírem 30% no início da semana, as doações voltaram a crescer desde terça-feira, um dia após os esforços de comunicação, e alcançaram picos acima da média para o período nesta quinta-feira.

O cenário, no entanto, ainda é crítico, e as autoridades pedem que a população continue engajada na causa.

A médica Ana Carrijo, responsável pelo Banco de Sangue de São Paulo (BSSP), afirmou que a situação ficou crítica na segunda-feira, quando a empresa registrou apenas 49 doações na capital paulista ao longo do dia, bem abaixo da média de 110. A queda foi registrada em outros locais de coleta pela cidade.

— Se as pessoas pararem de doar sangue, além da crise que o Brasil enfrenta com o surto do coronavírus, poderemos enfrentar também grande crise de desabastecimento de sangue — diz Sandra de Paula, coordenadora de captação do BSSP.

Além do BSSP, a Fundação Pró-Sangue, vinculada à Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, e profissionais da saúde se uniram para tranquilizar a população de que a doação não traria riscos de contágio pelo coronavírus.

A triagem ganhou novas regras, como restrição a candidatos que apresentem sintomas de gripe ou que tenham entrado em contato com casos suspeitos do Covid-19, a comunicação foi reforçada e o local da coleta sofreu mudanças. Os hospitais alteraram os espaços para criar maior distanciamento entre as pessoas e evitar aglomerações.

O apelo deu certo. Na terça-feira, as doações no BSSP subiram para 91, somaram 123 no dia seguinte e, nesta quinta, atingiram 142 até as 16h. A perda de 30% no banco de sangue foi reduzida a 13% abaixo do ideal. Mas os especialistas temem que o agravamento do surto na cidade afugente as pessoas a partir da próxima semana.

O estoque atual, segundo Carrijo, poderia atender a demanda dos hospitais durante apenas sete dias.

No hemocentro do Hospital das Clínicas, os doadores relataram filas e demora para a doação, em razão da alta demanda, mas mostraram satisfação pela situação.

— Eu sempre doo, a cada três meses. Eu vi a campanha nesta semana, de que estava em falta, e lembrei de doar. Nunca vi tão cheio. Geralmente leva uma hora (para doar), mas hoje demorou duas horas e meia — disse o taxista Luiz Roberto Rodrigues, de 45 anos.

A advogada Flávia Aguilhar, de 43 anos, afirmou que não sabia da campanha, mas que suspeitou haver carência nos bancos de sangue em razão da crise com o coronavírus.

— Eu vim hoje porque meu grupo de amigas levantou essa questão. Com todo mundo em casa, a gente achou que teria uma redução no estoque. Está bem cheio. Foi ruim pela demora, mas fico feliz porque tem bastante gente — disse ela.

A contaminação com o vírus, que já deixou sete mortes no Brasil, sendo cinco delas em São Paulo, não os preocupou. O estudante Igor Oliveira da Silva, de 20 anos, disse que se sentiu seguro por ver os esforços do hospital em afastar as cadeiras e higienizar o local da triagem.

— Não vi melhor oportunidade para doar, sabe? Por tudo que está acontecendo na cidade, senti que era uma obrigação — afirmou.

— As estruturas dos locais de doação estão adequadas e preparadas para receber os doadores. As precauções de contágio devem ser mantidas, mas o ato solidário não pode parar — declarou De Paula.