Estados têm baixo estoque de soro contra raiva, e ministério reforça alerta por uso racional

NATÁLIA CANCIAN
***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, 12.09.2017 - Obra do Instituto Butantan, na USP, em São Paulo. (Foto: Bruno Santos/ Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Uma das estratégias de prevenção da raiva após suspeita de exposição ao vírus, o soro antirrábico tem registrado baixos estoques no país e levado estados a reforçar o alerta sobre o uso racional do produto.

Segundo o Ministério da Saúde, o problema ocorre desde 2015, e voltou a registrar alerta nos últimos meses. Em documento, a pasta diz que, diante da escassez, vem enviando para distribuição "cerca de 10% do quantitativo necessário".

À reportagem, há estados que disseram ter recebido até 30% das doses solicitadas em outubro. 

Historicamente, a média de envio mensal do soro aos estados tem sido 12.000 ampolas. Atualmente, a pasta diz ter 5.000 frascos em seu estoque.

Em geral, o soro antirrábico é utilizado em conjunto com a vacina nos casos em que uma pessoa é mordida ou ferida de forma grave por um animal suspeito e há maior risco de adquirir a doença.

A indicação depende do tipo de exposição e das condições do animal agressor. Entre os critérios, está a ocorrência de ferimentos mais profundos, lesões em partes do corpo de maior circulação sanguínea e se há possibilidade ou não de monitorar o animal, por exemplo.

"O soro é utilizado toda vez que tem uma agressão grave ou que não conhece o animal, não sabe o status vacinal dele e não se tem como observá-lo", explica Rita Medeiros, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia e professora da UFPA (Universidade Federal do Pará).

Segundo ela, a maioria das demandas no país têm sido devido a agressões por cães quando há algum desses critérios --nos demais, a indicação é apenas a vacina.

Ela cita ainda a indicação em caso de agressão por animais silvestres, como morcegos, que respondem pela maioria dos casos de raiva humana nos últimos anos.

O objetivo é produzir anticorpos no local do ferimento, como forma de controle rápido do vírus. Isso ocorre porque a doença, que causa encefalite (inflamação do cérebro), tem letalidade de aproximadamente 100% --daí a importância de prevenção.

Só em 2018, foram 58.505 atendimentos no país com uso de soro e vacina antirrábica. Neste ano, de janeiro a setembro, já foram registrados 32.682 atendimentos.

Embora a vacina contra a raiva também seja indicada e esteja regular, especialistas apontam quem o soro é tido como a forma mais rápida de controlar o vírus para casos graves.

Outra opção é a imunoglobulina antirrábica. A produção limitada, o alto custo e a necessidade de importação, porém, dificultam a obtenção do produto, de acordo com o ministério. Em outubro, só 7% da quantidade solicitada pelos estados foi enviada. Atualmente, a pasta diz ter 282 frascos disponíveis.

Secretarias estaduais de saúde de sete estados, entre dez procurados pela reportagem, confirmam os baixos estoques. São eles: Ceará, Bahia, Rio Grande do Norte, Mato Grosso, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina. Já Goiás, Amazonas e Pará disseram ter estoques estratégicos e soros em quantidade suficiente.

A situação tem levado estados com menor volume de soros a adotarem medidas reforçar a profissionais de saúde a necessidade de observar protocolos de indicação do produto, na tentativa de evitar falta em casos de acidentes graves.

No Rio Grande do Norte, a secretaria diz ter definido quatro hospitais de referência para dispensar o soro e feito campanha para que a população evite contato com animais que podem transmitir o vírus.

O Ceará diz ter informado o ministério sobre o "cenário crítico" e elaborado notas técnicas para informar municípios sobre formas de prevenção e maneiras de otimizar o uso.

Em São Paulo, a secretaria estadual de saúde diz que o envio "tem sido irregular e em quantidade insuficiente". De 2.500 ampolas solicitadas em outubro, só 29% foram entregues --do total, 40 doses inicialmente e o restante até o fim do mês.

Questionado, o Ministério da Saúde diz que o baixo estoque de soro antirrábico está relacionado a entraves na produção. Atualmente, de três fornecedores de soro antirrábico ao SUS, apenas o Instituto Butantan está com a fabricação mantida.

Outros dois produtores, Instituto Vital Brazil e a Funed, informam que a produção foi suspensa devido à mudança nas regras de boas práticas da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) nos últimos anos, o que exigiu obras de adequação da antiga planta das fábricas às novas regras.

Em nota, o Vital Brazil informa ter aberto uma licitação para adequação da área de envases e a produção deve ser retomada em até três meses após a definição da empresa.

Já a Funed diz que as obras estão em fase final e que espera retomar a produção em 2020.

Em meio aos problemas, o Butantan fez um acordo com o ministério para aumentar a produção e fornecer 98 mil frascos em um ano.

Questionado, o ministério nega aumento de casos da doença devido ao problema e diz que houve apenas um registro de raiva humana neste ano -de uma paciente em Santa Catarina que não procurou atendimento, e morreu 40 dias depois. A secretaria estadual disse ter feito ações de controle local, com reforço na vacinação de animais após o caso.

Segundo a pasta, nos últimos 16 anos, 86% dos casos de mortes por raiva foram de pacientes que não fizeram uso do esquema de prevenção. Em 2018, foram 11 mortes.

Para Medeiros, da SBI, a escassez de soro leva o país a um quadro temeroso. "Se a pessoa for mordida e for uma agressão grave, há risco", afirma.

O secretário de vigilância em saúde, Wanderson Oliveira, diz que parte do problema ocorre devido ao uso indiscriminado do produto -daí o reforço pela necessidade de seguir protocolos de indicação. "Às vezes você tem o uso do soro porque o gato que a pessoa cuida a arranhou. Não é necessário."