'Estamos assustados, mas vamos passar por essa', diz Zélia Duncan

Sérgio Luz

RIO — Antes de lançar seu primeiro disco, “Outra luz” (1990), Zélia Duncan, ainda usando seu nome de batismo, levou aos palcos o show “Zélia Cristina no caos”. Três décadas depois, a cantora, compositora, atriz e escritora de 55 anos — que encerra a programação desta sexta (27/3) do festival #tamojuntoII, às 21h30—diz que a desorganização contemporânea é distinta:

— Desde as eleições, sinto o caos quase como regra e sendo desejado por muita gente.

Em entrevista ao GLOBO, a artista, que completa 40 anos de carreira em 2021, falou sobre o período de quarentena, ativismo, a amizade com Christiaan Oyens, parceiro em alguns de seus maiores sucessos, e a chegada da consagração com o álbum “Zélia Duncan” (1994), do hit “Catedral”: “No dia seguinte, minha vida mudou.”

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No caos, ontem e hoje

“ O caos daquele show, que foi dirigido e pensado junto da Ticiana Studart, era o caos de produzir, de inventar com custo zero e ainda assim contar com pessoas que se dedicaram muito. Eu falava um pequeno texto do Beckett, meio apocalíptico. Eu era outra Zélia, ainda assinava Zélia Cristina. Hoje, na verdade, desde as eleições, sinto o caos quase como regra e sendo desejado por muita gente, um caos ignorante e orgulhoso, bem distante daquele texto que eu dizia. E a pandemia neste momento, sob este governo desgovernado, fica parecendo um castigo ainda maior. O ministro (da Saúde, Luiz Henrique) Mandetta nos iludiu com falso bom senso, mas já voltou rápido ao normal. Que o povo tenha o desejo e a oportunidade de se salvar, com solidariedade e cuidado coletivo.”

Quarentena

“Estou confinada há 12 dias. Aprendendo muito sobre mim. É uma situação que gera ansiedade, porque você não conhece seu corpo nesse contexto, é tudo muito desconhecido, por fora e por dentro. Tenho mãe de 84, padrasto de 96, pai de 88. Temer por eles, e de longe, causa muito estresse. Mas eu faço exercícios físicos, leio, escrevo, falo com muita gente e canto. E agora estou com minha namorada. A maneira como alimentamos nossa cabeça e coração vai fazer muita diferença agora. Tive, de cara, 12 shows cancelados, dispensei as pessoas que trabalham comigo em casa, para que se cuidem. E pretendo pagar até onde eu aguentar.”

Início da carreira

“Sempre penso que tudo é por um triz, que escolhemos todo dia o nosso caminho e, principalmente, que não há regra. Comecei profissionalmente aos 16. Pais separados, em Brasília, meu pai não queria que eu cantasse, minha mãe ia comigo para os bares onde eu cantava, porque eu era menor.”

Parceria com Christiaan Oyens

“Conhecer Christiaan foi uma mudança grande pra mim. Ele me ensinou a delícia de um refrão pop, meu violão de náilon virou aço, e o folk, que sempre amei, chegou pra ficar. E me estimulou a compor. Eu tinha meu caderno, mas era secreto. Ele me fez abrir as páginas e começar a me arriscar. Foi louco ver meus escritos, tão meus, caírem na boca das pessoas. O prazer de compor eu não conhecia, porque só pensava em cantar!”

Sucesso do disco “Zélia Duncan”

“Era tudo muito novo pra mim e para o Christiaan também, mas a presença dele, durante alguns anos, foi minha segurança de que estávamos fazendo um som nosso. Batalhei pelos silêncios do disco. No dia seguinte, minha vida mudou.”

Passagem pelos Mutantes

“Foi muito louco. Esbarrei com Sérgio (Dias) numa gravação. Começamos a conversar, como se fôssemos velhos amigos. Nunca o tinha visto pessoalmente. Ele ficou pra me ver cantar, me conhecia pouco também. Poucos dias depois me mandou um email: ‘Você quer cantar com os Mutantes em Nova York, São Francisco, Chicago e Los Angeles?’. Eu enlouqueci. Liguei pra Rita Lee, perguntei como era pra ela, que não iria se a incomodasse, pois éramos amigas, fizemos ‘Pagu’, gravei com ela, cantamos muitas vezes juntas. Ela disse exatamente isso, depois de uns segundos: ‘Vai, sim, você vai se divertir com os manos!’. E eu fui. Com medo, mas fascinada.”

Ativismo

“Não programei virar ativista, quando alguém fala assim, acho até engraçado. É uma questão de temperamento. Eu sempre quis olhar pras coisas e mostrar o que estou vendo. Detesto coisas não ditas, acho covardes, me incomodam. Comecei a entender que o momento é de se expor, é uma conclusão pessoal, não exijo isso de ninguém, mas não conseguiria ver tudo que estou vendo e sentindo na pele sem me colocar. Sou mulher, gay, artista, feminista, antirracista, cidadã brasileira. É balela dizer que não devemos misturar as coisas, porque somos misturados, somos muitas coisas, e todas devem ser observadas e respeitadas. Essa é a beleza.”

Planos para depois da pandemia

“Sabe que li sua pergunta e comecei chorar? Que coisa… Estamos assustados, mas vamos passar por essa, observando o que é melhor para todos. O que vou fazer? Vou correr pra casa da minha mãe!”

Sexta, 27

16h:Carminho (gravado)

Sábado, 28

15h30:Carol Roberto (The Voice Kids)

16h:Pedro Miranda (The Voice Kids)

Domingo, 29

15h30:Paulo Gomiz (The Voice Kids)

16h:Bia Bedran (infantil)

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