Estandarte de Ouro: Carlinhos Pandeiro de Ouro, destaque masculino na 1ª edição do prêmio, influenciou gerações

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De 1957 para cá, Carlinhos Pandeiro de Ouro só perdeu um desfile da Mangueira. Foi na década de 1970, após tocar na Dinamarca e, na companhia da então namorada, a modelo e atriz Aizita Nascimento, não conseguir deixar o navio que levava os dois para a Suécia, onde embarcariam de volta ao Brasil. A embarcação simplesmente ficou presa no meio dos icebergs. Só restou ao artista, num frio congelante, sentar e chorar.

— Subi para o convés do navio, e como eu chorava... Fiquei alucinado com o carnaval que perdi — lembra Carlinhos, hoje com 79 anos, lenda viva da verde e rosa, que cruzou os cinco continentes com o seu pandeiro e foi recebido até pelo ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama.

Em 1972, primeiro ano do Estandarte de Ouro, ele foi premiado como destaque masculino, desfilando o enredo “Rio, Carnaval dos Carnavais”. Foi um dos pontos altos de sua carreira que tinha deslanchado em 1966, quando ele venceu o concurso nacional “Pandeiro de Ouro”, batendo 500 concorrentes. O nome artístico, claro, vem daí. Mesmo antes da disputa, seu talento, que inaugurou um estilo que mistura percussão e malabarismos, foi parar em outros países. Ao lado de Monsueto, cantor e compositor ícone do samba, e Marília Pêra, estrelou o espetáculo “Carnaval de Copacabana” na Argentina, no Chile e em Nova York.

Com o Trio Pandeiro de Ouro, seguiu para temporadas na Europa, nos EUA e no Oriente. Carlinhos já fez de um tudo, desde tocar na Alemanha para mutilados na Guerra do Vietnã a levar a Rainha Elizabeth a quebrar o protocolo. A majestade acabou aplaudindo o artista em sua apresentação para ela no Rio, em 1968.

Carlos Alberto Sampaio de Oliveira nasceu em 16 de junho de 1942 no Barreto, em Niterói. De curiosidade, ele conta que sua creche ficava no terreno onde hoje é a Viradouro. Depois, a família viveu em Cascadura e Deodoro. Sua mãe, Georgina, era dona de casa, e seu pai, Waldemiro, alfaiate. O pai, que cultivava a Portela como escola do coração, tinha como cliente a diretoria da azul de Madureira, incluindo o próprio Natal, seu amigo. Carlinhos, ainda na infância, começou a fazer o tabuleiro de bolo da mãe de pandeiro.

— Depois que a fôrma ficou toda amassada, ela comprou um pandeiro pequeno para mim, que custou 700 réis — recorda ele.

Adolescente, conheceu a Estação Primeira de Mangueira num ensaio, levado por um amigo. E não saiu mais de lá. Virou protegido de Cartola. No primeiro desfile, em 57, na Rio Branco, saiu na bateria de paletó florido, calça e sapato nas cores da escola e cartola.

— Quando anunciaram os desfiles, um dos fogos entrou no meu paletó, que furou. Aí o Monsueto me levou até a Praça Paris e disse: “Tira o sapato, bota os pés dentro d’água e procura relaxar”. Foi uma emoção muito grande o desfile para mim, e no dia seguinte só dava minha cara preta no jornal. A minha história começou daí — conta ele, que depois desse desfile trabalhou com outros gigantes da música, como Herivelto Martins e Ataulfo Alves.

Ele é mestre em algo raro:

— Faço ritmo e melodia ao mesmo tempo no pandeiro, algo muito difícil. Se a pessoa estudar bem qualquer instrumento, ela pode arrancar dele tudo que quiser.

Com o pandeiro, Carlinhos muda do jazz para o baião, do baião para o maracatu, e por aí vai. Além de tocar nos lugares mais distantes, como Austrália, deu aulas de pandeiro até no Japão. Sem perder o humor característico, Carlinhos diz que é pai de três filhos “japoneguinhos”: Ted, Jordan e Gina, sua caçula, cujo nome homenageia a avó brasileira. Dentro dessa trajetória, casou com uma havaiana descendente de japoneses, que conheceu no Rio quando ela estudava música brasileira. Depois, viveram juntos no Havaí. O casamento durou 11 anos, e, com a separação, Carlinhos foi morar em Los Angeles, onde passou a ensinar sua arte. O sucesso das aulas foi tanto que, como professor, foi levado à Casa Branca com direito a banquete no Senado americano e mais um “dindim”. Na ocasião, Obama ganhou um pandeiro com o próprio retrato.

Pai ainda de Ana Carla, que mora nos EUA e faz com ele todo ano lá um congresso internacional de samba, e da cantora Andrea Beat, a primogênita, o artista imprimiu sua marca nos desfiles. São gerações de pandeiristas dançarinos na Sapucaí. Ele, que no passado saía na frente da bateria ou em cima de carro, agora cruza a Avenida na ala dos compositores. Sua presença no próximo desfile é garantida: no fim de novembro, Carlinhos desembarcou no Rio, sem passagem de volta. Vive agora na Glória:

— São 65 anos pelo mundo. É muito tempo, e tem a saudade. Uma saudade do Brasil que eu não sentia.

Por aqui, o Pandeiro de Ouro promete continuar um agitador. Sorte do carnaval.

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