Estandarte de Ouro: Constante metamorfose nos desfiles renova o espetáculo ao longo das últimas cinco décadas

·3 min de leitura

Quando o Império Serrano entrou na Avenida, ainda na Candelária, em 1972, com “Alô, alô, taí Carmen Miranda”, para ser campeã e vencer quatro Estandartes de Ouro, nem parecia que, horas antes, na armação, o carnavalesco Fernando Pinto tinha precisado improvisar, espalhando pelos pequenos carros alegóricos da época vegetação e esculturas de animais para compor o cenário que contaria o enredo. Algo, hoje, inimaginável para um desfile como o da Grande Rio, em 2020, quando a tricolor foi eleita a melhor escola pelo júri dos jornais O GLOBO e Extra com a imponência de seu “Tatalondirá: o canto do caboclo no quilombo de Caxias”. E que demonstra como são profundas as transformações pelas quais as agremiações passaram da primeira à mais recente edição do Estandarte.

O andamento das baterias, as melodias e as letras dos sambas, as dimensões das alegorias, o bailado dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, as comissões de frente e até os movimentos dos passistas mudaram. Pouco, ou quase nada, permanece como era antes, afirma o historiador e escritor Luiz Antonio Simas. Nesse universo de tantas novas interpretações, no entanto, ele elege três principais alterações, a começar pela verticalização dos desfiles, com o crescimento das alegorias.

— Os quesitos visuais foram ganhando importância, sobretudo, após o bicampeonato do Salgueiro, em 1974 e 1975, e do tri da Beija-Flor, entre 1976 e 1978, como o Joãosinho Trinta. Os carros e as fantasias cresceram para cima. Com a inauguração do Sambódromo, em 1984, arquibancadas muito altas acentuaram esse processo — diz ele, que enxerga com objeções a exacerbação da plástica sobre os fundamentos das agremiações.

Uma segunda diferença que ele vê como aguda ao longo das últimas cinco décadas está nas comissões de frente. Se, no início, elas traziam figuras importantes, como a velha guarda, apresentando o desfile e saudando o público, hoje elas viraram quase um espetáculo à parte. Simas opina que a mágica da troca de roupas em frações de segundo na comissão da Unidos da Tijuca, em 2010, no enredo “É segredo!”, é um dos pontos de inflexão que causam essa reconfiguração, atrelada à chegada de bailarinos e coreógrafos à abertura das apresentações.

Por fim, o historiador aponta o andamento das baterias. O ritmo cadenciado foi, ao longo dos anos, sendo acelerado, até atingir o que ele chama de “quase um absurdo” nos anos 1990 e 2000.

— Ainda hoje, algumas baterias tocam num ritmo mais próximo do frevo do que do samba. Porém, o que ouvimos nos últimos anos é uma nova mudança, com baterias como a da Mocidade Independente de Padre Miguel ou a da Grande Rio com um andamento mais para trás, menos acelerado — avalia.

O historiador indica, no entanto, que há elementos que permanecem como pilares de uma escola, como a importância guardada pela ala das baianas. E cita uma das transformações recentes mais interessantes, na avaliação dele: a retomada de bons enredos, com novos discursos sendo levados à Sapucaí.

Já outro craque do carnaval, Valci Pelé, coordenador da ala de passistas da Viradouro e vencedor duas vezes do Estandarte, aponta os dois lados da moeda dessas mudanças que atingem diretamente o segmento que ele comanda:

— Antigamente, os passistas desfilavam mais soltos. Saíam de uma extremidade à outra riscando o chão de poesia. Hoje, há um quadrante para os passistas, formando filas. Antes, no entanto, se todos os passistas quisessem ir para o lado direito, do outro ficava um buraco. Hoje, com maior organização e profissionalização, nossa arte tem maior clareza. A ala de passistas é um só corpo representando a arte da dança do samba.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos