Estandarte de Ouro: destaques das 50 edições do prêmio

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O carnaval na Marquês de Sapucaí entra na década de 1970 inovando. Até então, os sambas eram maiores e tinham andamento mais lento. A partir de 1971, o Salgueiro foi campeão com o enredo “Festa para um rei negro”, mais conhecido como “Pega no ganzê”, que, na verdade, era parte do refrão do samba, que pegou junto ao público de forma nunca antes vista. O ritmo mais acelerado chegava para ficar. E é nesse contexto que, em 1972, nasce o Estandarte de Ouro, que incentiva a renovação. No primeiro ano, os jurados dão o prêmio de comunicação com o público (que seria o de melhor escola hoje) ao Império Serrano, que homenageou Carmen Miranda, com o refrão “Cai, cai, cai, cai / Quem mandou escorregar/Cai, cai, cai, cai/É melhor se levantar”.

Em 1973, um desconhecido Joãosinho Trinta ganha seu primeiro Estandarte com Maria Augusta no Salgueiro: o enredo “Eneida, amor e fantasia” foi escolhido o melhor. Destaque na década também para “Domingo”, enredo da União da Ilha de 1977, criado por Maria Augusta, que arrebatou o coração dos jurados do Estandarte, embora a escola tenha terminado em terceiro. Jurado atual da premiação, Felipe Ferreira chama a atenção também para os figurinos de Viriato Ferreira, com materiais alternativos para a Beija-Flor em 1978. Fechando a década, em 1979, então na Portela, Viriato contribuiu para que a azul e branco de Madureira fosse a primeira escola a ganhar seis Estandartes de Ouro. Campeã entre críticos, a agremiação, no entanto, ficou em terceiro na apuração com “Incrível! Fantástico! Extraordinário!”

1980: a era Sambódromo e um polêmico Joãosinho Trinta

A década ficou marcada pelo início da era Sambódromo, inaugurado em 1984. A mudança trouxe nova perspectiva espacial para as escolas, além de dividir os desfiles em duas noites. Jurada do Estandarte, Maria Augusta lembra que, com o público em arquibancadas altas, os carros começaram a crescer. Felipe Ferreira, outro integrante do júri, recorda-se de desfiles inesquecíveis dos anos 80, como o da Imperatriz em 1981, com “O teu cabelo não nega”, que ganhou o prêmio principal do Estandarte, sendo também a campeã do ano. Em 1989, o que, para muitos especialistas, seria o maior de todos os tempos, o desfile da Beija-Flor “Ratos e urubus... larguem minha fantasia” ganha o estandarte ao levar para a Avenida o Cristo Redentor coberto por plástico preto, mas perde na disputa oficial. O título fica com a Imperatriz Leopoldinense.

1990: Samba conquista corações

Os anos 1990 começam com a Mangueira arrebatando seis prêmios com o enredo “E deu a louca no barroco”. No ano seguinte, é a vez de a Viradouro, atual campeã, fazer sua estreia no Grupo Especial, com um enredo que reverenciava Dercy Gonçalves: a imagem dela, aos 84 anos, desfilando com seios de fora acabou eternizada. A escola de Niterói levou o Estandarte com a ala de crianças.

Entre os melhores sambas da década, merece superdestaque o de Demá Chagas e outros compositores, que levou o Salgueiro em 1993 à consagração. Com o refrão imbatível “Explode coração, na maior felicidade/É lindo o meu Salgueiro/Contagiando e sacudindo essa cidade”, a vermelha e branca conquistou o título e também o júri do Estandarte.

A década fecha com um conjunto alegórico impecável na Mocidade, criado por Renato Lage, para o enredo sobre Villa-Lobos. A escola foi considerada a melhor pela premiação em 1999. Uma das alegorias de sucesso foi a do pierrô com gola e pompom feitos de copos descartáveis, referência ao Sôdade do Cordão, grupo de carnaval criado pelo maestro em 1940.

2000: Surge um novo mago na Avenida

A virada do milênio vem com uma revolução visual capitaneada por um até então desconhecido carnavalesco, eleito no quesito revelação em 2004, no seu primeiro desfile no Grupo Especial.

— A alegoria do DNA revelou Paulo Barros, na Unidos da Tijuca — aponta o jurado Felipe Ferreira, recordando o carro que inaugurou o conceito de “alegoria humana”, feito apenas de corpos na mesma cor, com coreografia.

O enredo da Tijuca, “O sonho da criação e a criação do sonho. A arte da ciência no tempo do impossível”, também levou a melhor do júri, num ano em que o Império Serrano ganhou o prêmio principal do Estandarte com a reedição de “Aquarela brasileira”, de Silas de Oliveira.

Antes disso, a verde e rosa fez todo mundo cantar, em 2002, o refrão “Vou invadir o Nordeste, seu cabra da peste/Sou Mangueira”, de Amendoim e Lequinho. A escola comemorou duplamente, com o campeonato e o Estandarte, ao passar pela Avenida com um visual alegre assinado por Max Lopes.

2010: Furacão chamado Mangueira e outra estrela na Mocidade

Entre os pontos altos da última década de desfiles, antes de a pandemia abalar o carnaval, está a estética de Rosa Magalhães para a Vila Isabel em 2012, considerada a melhor do ano com o enredo “Você semba lá... Que eu sambo cá! O canto livre de Angola”. Mas nenhuma outra escola fez tanto sucesso entre o júri naqueles anos quanto a Mangueira. Destaque para o tripé “Oxalá-Jesus Cristo”, da verde e rosa em 2017.

— Ele resume o carnaval de Leandro Vieira — aponta Felipe Ferreira sobre o carnavalesco.

Por dois anos consecutivos, a Estação Primeira foi a melhor escola para o júri do Estandarte. Em 2016, o trabalho de Vieira encantou a Sapucaí e os jurados da Liesa com a homenagem a Maria Bethânia. Em 2017, o enredo “Só com a ajuda do santo” fez bonito, mas não o suficiente na avaliação do júri oficial, num ano em que prevaleceu a dobradinha Portela e Mocidade no primeiro lugar. Em 2019, a verde e rosa volta a gritar “é campeã”, além de ganhar mais uma vez o estandarte de melhor escola, com o “enredo protesto” chamado “História para ninar gente grande”. A agremiação exaltou heróis que não constam nos livros, incluindo Marielle Franco, e eternizou o verso “na luta é que a gente se encontra”.

No último ano de desfiles na Sapucaí, a Grande Rio brilhou e recebeu, pela primeira vez, o estandarte de melhor escola com o enredo dedicado ao pai de santo Joãozinho da Gomeia. Campeã de 2020, a Viradouro conquistou os prêmios de melhor comissão de frente e enredo (“Viradouro de alma lavada”). Elza Soares, num desfile emocionante na Mocidade, foi a personalidade do ano — a cantora morreu no último dia 20 de janeiro —, enquanto a Portela ganhou o estandarte de inovação com a águia do abre-alas.

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