Estandarte de Ouro: júri do prêmio privilegia o impacto e não a técnica

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Na década de 1980, nem se sonhava com o VAR no futebol, e erros de arbitragem causavam ressentimentos eternos no torcedor. Não fosse “aquele maldito juiz”, seu time seria campeão. Na Sapucaí, se houvesse árbitro de vídeo naquela época, talvez fosse possível esclarecer uma das questões mais mal resolvidas da história do carnaval: por que a Beija-Flor, ganhadora do Estandarte de Ouro de melhor escola em 1989, perdeu no júri oficial, com o enredo “Ratos e urubus... larguem minha fantasia”, de Joãosinho Trinta.

O desfile do Cristo Mendigo, inesquecível explosão de criatividade, perdeu para a apresentação clássica — e previsível — da Imperatriz, com o belíssimo samba-enredo “Liberdade! Liberdade! Abra as asas sobre nós”. Se nas cabines dos jurados houvesse câmeras, seria possível checar se abriu um buraco no desfile da Beija-Flor ou verificar se as alas se embolaram na metade final, justificativas para a perda de pontos.

As falhas técnicas foram detalhes que quase ninguém lembra. Que jurado, especificamente, teria a obrigação de expressar com números o frisson que causou o Cristo coberto com um plástico preto e a inscrição “Mesmo proibido olhai por nós!..”?

— Os jurados do Estandarte de Ouro têm autonomia para concluir que certas falhas foram um detalhe num desfile brilhante e premiar a escola mesmo assim. Imagine se, em 1989, eles tivessem julgado a Beija-Flor com rigor técnico e ignorado o imenso impacto — diz o jornalista Marcelo de Mello, presidente do júri do Estandarte de Ouro.

A escolha da melhor escola é feita por votação no debate dos jurados na sede da Editora Globo logo após o desfile. Antes de votar, cada um expõe seus argumentos a favor das agremiações que preferiu. Para os demais prêmios, há um relator encarregado de resumir o que observou e de indicar os melhores. Os demais jurados podem acompanhar sua indicação ou apresentar outros candidatos, que também vão a votação. Diferentemente do julgamento da Liesa, não são dadas notas.

Assim como colegas de trabalho, turmas de faculdade e vizinhos de condomínio, os jurados têm grupo de WhatsApp. As conversas são tranquilas, e quase todos respeitam a regra básica de só postar assuntos ligados às escolas. A “noite de Natal” é o debate para escolher os vencedores do prêmio logo após o desfile.

Até o carnaval passado, Argeu Affonso era o presidente do júri. Em mais de 40 anos de trabalho no GLOBO, ocupou os cargos de secretário de redação, gerente administrativo, repórter e subeditor de Esportes. Depois que Carlos Lemos se afastou, em 2000, passou a comandar o Estandarte de Ouro. Era uma liderança firme, mas sempre gentil e nada centralizadora. Trinta e dois dias depois do Desfile das Campeãs de 2020, já na pandemia, morreu aos 88 anos.

O vírus ainda entraria em sua pior fase em 2021 e registraria o recorde na média móvel de óbitos (3.125 vítimas) justamente em 12 de abril, quando Aloy Jupiara, coordenador do júri, morreu de Covid-19, aos 56 anos. Repórter ainda na década de 1980 do GLOBO, logo chegou a coordenador e a editor-assistente da Editoria Rio. Também coordenou a editoria de política e foi pioneiro no jornalismo on-line, atuando na criação do site do Extra. Seu interesse pela cobertura do carnaval era imenso. Deixou saudade e gratidão pelo cuidado que tinha com o grupo do Estandarte.

Após a lacuna de 2021, todos os jurados voltarão a estar juntos em quatro noites, duas da Série Ouro e duas do Grupo Especial, em que será celebrada a retomada. Desta vez, não só para viver juntos a mesma paixão, mas também lembrar a liderança serena de Argeu e Aloy.

Juliana Barbosa

Recém-chegada, dá aula na Universidade Federal do Paraná

Adorina Guimarães Barros

Dorina, seu nome artístico, é cantora, sambista e radialista

Bruno Chateaubriand

Amante do carnaval, ele é empresário, jornalista e apresentador

Haroldo Costa

Ator de cinema e de TV, produtor e escritor

Luis Filipe de Lima

Violonista, arranjador, produtor musical e pesquisador

Marcelo de Mello

O escritor e jornalista do GLOBO é o presidente do júri

Odilon Costa

Mestre Odilon foi mestre de bateria de escolas do Grupo Especial

Angélica Ferrarez de Almeida

Estreante, ela é historiadora, pesquisadora e professora

Alberto Baeta Neves Mussa

Escritor, autor de “A biblioteca elementar", entre outros livros

Felipe Ferreira

É professor da Uerj e autor de livros sobre o carnaval

Leonardo Bruno

Jornalista, escritor e roteirista

Luiz Antonio Simas

Escritor, professor de história e compositor

Maria Augusta

A professora foi carnavalesca de diferentes escolas

Rachel Valença

Professora, pesquisadora, escritora e ritmista

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